A Europa tem um hábito perigoso: consumir narrativas feitas noutro sítio como se fossem relatórios técnicos. Washington produz enquadramentos, a Europa compra-os prontos. E depois surpreende-se quando paga a fatura.
O exemplo mais recente é a forma como certos dossiês latino-americanos entram no debate europeu. Não entram como problemas com geografia, incentivos, cadeias logísticas e contradições. Entram como etiquetas, “narco”, “terror”, “Estado-pária”, e com elas já vem embutido o menu de respostas. Sanções. Isolamento. Operações. Uma diplomacia de piloto automático, que pode servir a urgência política de quem fala mais alto, mas raramente serve a segurança de quem vive as consequências.
A consequência, para nós, tem nome e porto.
A cocaína deixou de ser uma nota de rodapé na crónica europeia. É parte do nosso problema de segurança interna, de corrupção, de violência e de captura institucional. O Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, sediado em Lisboa, descreve uma realidade simples: a cocaína é, depois da canábis, a segunda droga ilícita mais consumida na Europa, com um mercado resiliente e em transformação. E não é só consumo, é logística. Há um relatório europeu recente sobre apreensões em portos que funciona como radiografia do fenómeno: a cocaína domina os volumes apreendidos e os portos tornaram-se “pontos de pressão” com implicações diretas na integridade do Estado.
Quando um país europeu passa a discutir, com seriedade, se certas zonas portuárias estão a ser infiltradas, compradas ou intimidadas, deixa de estar a falar de droga. Está a falar de soberania.
É aqui que o automatismo narrativo nos prejudica. Porque o debate que nos chega, muitas vezes, vem embalado como se o centro do problema estivesse sempre do outro lado do Atlântico, num regime, numa figura, num rótulo. O mal está ali, diz-se, e nós somos apenas vítimas periféricas. Só que a cocaína que entra na Europa entra porque a Europa paga. Entra porque há uma economia real, uma procura real, e porque os nossos pontos fracos são exploráveis.
Enquanto repetimos slogans importados, o crime organizado faz trabalho europeu. Corrompe em euros, recruta em bairros europeus, lava dinheiro em sistemas europeus, infiltra-se em cadeias de abastecimento europeias. O Observatório anteriormente referido, através do seu diretor cessante, foi claro ao alertar que redes de tráfico se tornaram uma ameaça grave à segurança europeia, precisamente pela capacidade de comprar influência e impor violência.
Portanto, quando a Europa discute Venezuela, Colômbia, Caraíbas e o Atlântico, não está a discutir “lá longe”. Está a discutir o caminho que vem dar ao nosso quintal.
E não é só droga.
Há ainda o custo humano, que também é europeu, mesmo quando fingimos que não. A Venezuela gerou uma das maiores crises de deslocação do mundo contemporâneo. A UNHCR fala em quase 7,9 milhões de refugiados e migrantes venezuelanos a nível global. Parte desta diáspora vive na América Latina, mas a Europa, Espanha em particular, conhece bem o fluxo. E cada vaga migratória é também
uma prova aos nossos sistemas políticos: à nossa capacidade de integração, à nossa paciência social, à nossa vulnerabilidade à desinformação, ao crescimento de populismos que transformam pessoas em problema e fronteiras em teatro.
Aqui surge a pergunta que raramente fazemos: quando importamos narrativas feitas em Washington, estamos a importar também os erros estratégicos? Estamos a copiar as palavras e a ignorar os efeitos colaterais?
Porque há um padrão que se repete: um país é reduzido a um rótulo moral total. O rótulo serve para acelerar medidas. As medidas criam efeitos previsíveis, escassez, mercado negro, repressão, migração. E depois a mesma Europa, que repetiu a narrativa, é chamada a gerir as consequências, com pouca margem e muita hipocrisia.
O mais irónico é que esta importação de enquadramentos enfraquece a própria Europa. Não nos dá autonomia, dá-nos dependência. Passamos a reagir às categorias do outro, em vez de definirmos as nossas prioridades com base na nossa realidade.
E a nossa realidade é esta: a cocaína que entra na Europa é um tema europeu de segurança interna; as rotas que se deslocam para o Atlântico e para portos estratégicos são um tema europeu de integridade institucional; a violência associada ao narcotráfico é um tema europeu de ordem pública; a migração gerada por colapsos regionais é um tema europeu de coesão social.
Se é assim, então a Europa tem de fazer uma coisa simples e difícil: parar de consumir narrativas como se fossem análises. Parar de tratar etiquetas como se fossem política. E começar a falar como potência regulatória e de segurança que é, ou diz querer ser.
Isso implica duas mudanças.
Primeiro, uma mudança de foco: menos moralismo importado, mais anatomia do problema. Menos obsessão com personagens e mais atenção a incentivos, rotas, corrupção, portos, lavagem, e ao mercado europeu que alimenta tudo isso.
Segundo, uma mudança de método: aquilo que nos falta não é indignação, é capacidade. Capacidade de medir, de harmonizar dados, de cooperar entre Estados, de blindar cadeias logísticas, de reduzir procura, de atacar lavagem com a mesma energia com que se faz conferência de imprensa.
A narrativa não é nossa. Mas a consequência é. E enquanto insistirmos em repetir palavras alheias para problemas que entram pelas nossas portas, vamos continuar a viver num continente que reage muito e decide pouco.