A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) tem sido apresentada, desde a sua fundação, em 1949, como o pilar da defesa coletiva ocidental. O artigo 5.º consagra o princípio da defesa coletiva: um ataque armado contra um Estado-membro da OTAN é considerado um ataque contra todos os membros.
A ideia de que um ataque a um equivale a um ataque a todos não é mais do que uma expressão simbólica da entreajuda entre Estados. Contudo, para os Estados Unidos da América (EUA), a Aliança desempenha hoje uma função que raramente é discutida nos comunicados oficiais: a de constituir um dos maiores mercados de exportação da sua indústria de defesa. E, como qualquer grande negócio, implica custos e gera retornos sobre o investimento.
Na última Cimeira da Haia, os aliados comprometeram-se a elevar a despesa em defesa para 5% do PIB até 2035, o que representa um aumento de cerca de 150% face aos objetivos anteriores. A Europa está disposta a investir mais, mas continua a carecer de capacidade industrial para produzir o que necessita. Anos de desinvestimento deixaram o continente dependente da tecnologia norte-americana em áreas como sistemas avançados, logística e armamento de última geração. O resultado é que uma parte significativa destes novos orçamentos acaba por fluir diretamente para os cofres dos grandes grupos industriais dos EUA.
Os caças F-35, os sistemas antimísseis Patriot, os mísseis Tomahawk e os drones de alta tecnologia configuram, em larga medida, segmentos dominados pela indústria norte-americana.
Os dados falam por si: os EUA representam atualmente cerca de 64% de todas as importações de armamento da OTAN, um aumento significativo face aos 52% registados entre 2015 e 2019. Só em 2024, as aquisições dos países membros à indústria norte-americana ascenderam a cerca de 21 mil milhões de dólares. No total, entre vendas militares ao estrangeiro e transações comerciais diretas, os EUA movimentaram mais de 318 mil milhões de dólares nesse mesmo ano.
As aquisições recentes ilustram esta dependência estrutural. A Dinamarca aprovou a compra de um pacote de sistemas Patriot avaliado em 8,5 mil milhões de dólares. A Espanha, frequentemente criticada por Donald Trump pelo seu baixo nível de investimento, assinou um contrato com a Raytheon Technologies para a aquisição de quatro sistemas Patriot por 1,7 mil milhões de dólares. A Roménia, por sua vez, adquiriu equipamento complementar para os seus sistemas Patriot por 168 milhões de dólares.
No setor aéreo, a Dinamarca aumentou a sua encomenda de F-35 Lightning II de 27 para 43 unidades; a Bélgica elevou o seu programa para 46 aeronaves; e o Reino Unido comprometeu-se a adquirir 12 F-35A Lightning II com capacidade nuclear, integrando-se na missão aérea da Aliança. E a Alemanha? Só entre 2020 e 2024, aprovou aquisições de armamento norte-americano no valor de cerca de 17 mil milhões de dólares.
Este fluxo de capitais não é acidental. Washington sempre encarou a OTAN como um instrumento para vincular a Europa à sua base industrial. Os sistemas norte-americanos são concebidos para assegurar a interoperabilidade entre aliados, criando dependências logísticas e de manutenção de longo prazo. Um país que adquire F-35 Lightning II fica ligado à cadeia de fornecimento norte-americana por décadas. As munições, as peças sobressalentes, os simuladores e o treino constituem contratos recorrentes que alimentam de forma contínua empresas como a Lockheed Martin, a RTX Corporation (antiga Raytheon), a Northrop Grumman e a General Dynamics.
O que aconteceria, então, se os Estados Unidos abandonassem a OTAN? Uma hipótese já ensaiada no passado colocaria a sua indústria de defesa sob forte pressão. A perda não se limitaria às vendas diretas. Sem uma ameaça comum como catalisador, a Europa perderia o ímpeto para aumentar a despesa e, mais importante, tenderia a redirecionar as suas aquisições para fornecedores europeus. Países como a França, a Alemanha e a Itália acelerariam projetos conjuntos — como o programa de caça europeu de nova geração (SCAF/FCAS), o sistema de defesa aérea europeu (TWISTER) e iniciativas comuns no domínio dos sistemas terrestres.
As perdas para a indústria norte-americana seriam, por isso, potencialmente muito significativas. Estimativas de centros de análise como o Center for Strategic and International Studies (CSIS) apontam para uma redução entre 60% e 70% das exportações de defesa dos EUA para a Europa nos primeiros cinco anos após uma eventual saída da OTAN. Em valores correntes, isso traduzir-se-ia numa perda anual de cerca de 12 a 15 mil milhões de dólares em vendas diretas, a que acresceriam receitas de manutenção, atualizações e treino avaliadas em mais 5 a 7 mil milhões por ano.
Ao longo de uma década, o impacto acumulado ultrapassaria os 200 mil milhões de dólares. Empresas como a Lockheed Martin, que obtêm cerca de 30% das suas receitas de mercados internacionais, veriam as suas ações sofrer desvalorizações significativas. E milhares de postos de trabalho nas cadeias de fornecimento no Texas, na Califórnia e no Alabama estariam em risco.
Estaríamos, assim, perante uma potencial erosão de centenas de milhares de milhões de dólares em receitas futuras para empresas como a Lockheed Martin, a RTX Corporation e a General Dynamics. Sendo que, paralelamente, Washington perderia uma das suas principais alavancas de influência: um continente dependente da sua tecnologia, formação e logística que permanece estruturalmente ancorado na sua arquitetura de segurança.
É precisamente esta interdependência assimétrica que transforma a OTAN num dos instrumentos mais rentáveis para os EUA desde o Plano Marshall. Enquanto a Europa paga para reforçar a sua segurança, os Estados Unidos beneficiam economicamente desse esforço. Essa é, em última análise, a economia política da Aliança.