Sentar no parque e conversar com idosos sobre os longos anos em que  foram trabalhadores e a pouca saúde que lhes resta para aproveitar a fase de reformados; lanchar um queque no café e observar as senhoras da mesa do lado a tagarelar sobre os subsídios e a bolsa dos filhos que estão em falta receber; a reduzida esperança de se vir a ter  oportunidades de aprender e trabalhar com profissionais da nossa área ao ler o resultado “Não colocado” naquele email que iria alavancar a  carreira profissional; aconselhar o amigo a insistir naquela  oportunidade de estágio que resultou de um pacto feito entre o pai operário e o primo de 3.º grau sócio de um escritório de advogados; abrir  as notícias do dia e ler as atualizações das prioridades trocadas dos representantes políticos; conviver em família e ouvir a frustração  daquela prima que tem dois trabalhos para conseguir pagar a prestação mensal do empréstimo de 350 mil euros do banco que usou para comprar o seu T2; ver o tio revoltado com aquela companhia de seguros que recusou a assunção de responsabilidade. Todas estas experiências  levam-nos a colocar em cima da mesa várias possibilidades de fuga à realidade que é viver debaixo do sufocante sistema fiscal português.

Esta é a realidade do povo português. Vários são os casos de portugueses  que trabalham na Suíça, de empreendedores que constituem uma LLC  nos Estados Unidos, ou de jovens que se mudaram para os Emirados  Árabes Unidos. Indo mais longe, o cerne da questão não está tanto em  saber os motivos que levam o povo português a sair, mas antes em  abordar o funcionamento do sistema de vários países que convidam o povo  português a fazer as malas.

Iniciando a análise, acredito que a propaganda do estilo de vida americano é conhecido por todos: um indivíduo acorda, abre uma  empresa e fica milionário. Contudo, os dados mostram que, em 2026, o  imposto federal sobre o rendimento das pessoas singulares varia entre 10% e 37%, e as sociedades pagam, em regra, 21% de imposto federal  sobre o rendimento. Além disso, alguns rendimentos de capital, como  ganhos de longo prazo e dividendos qualificados, podem beneficiar de  taxas preferenciais de 0%, 15% ou 20%. A diferença é que o país  oferece um mercado enorme, acesso a capital, investidores dispostos a  financiar risco, universidades ligadas a inovação e uma cultura mais  favorável à criação de riqueza.

A Suíça apresenta outro modelo. A sua força está nos salários elevados, na estabilidade, na eficiência e maior capacidade de poupança. Em 2024, a  receita fiscal suíça representava 27,2% do PIB, enquanto a de Portugal estava nos 35,1%. No tax wedge, a diferença é ainda mais clara: cerca  de 23% na Suíça, contra 39,3% em Portugal, em 2025. A Suíça é cara, mas os salários tendem a acompanhar esse custo de vida.

Já os Emirados Árabes Unidos atraem sobretudo pela baixa tributação:  não há imposto pessoal sobre o rendimento, e o imposto sobre sociedades é , em regra, de 0% até AED 375.000, e de 9% acima desse valor. Ainda assim, é um modelo muito diferente do português, com  custos próprios, seguros privados, vistos e uma estrutura social distinta  da europeia.

Esta comparação sumária serve para perceber que cada país tem um  contrato diferente com o contribuinte. Numa ótica fiscal, não se  pretende transformar Portugal nos Estados Unidos, na Suíça ou nos Emirados. No entanto, não seria errado retirar deles aquilo que funciona e que pode ser adaptado, como por exemplo: dos Estados Unidos, a valorização fiscal e económica do investimento, do risco e da escalabilidade; da Suíça, a  previsibilidade, a eficiência administrativa, a concorrência fiscal interna  e a ligação entre imposto pago e serviço prestado; dos Emirados, a consciência de que a fiscalidade é hoje uma ferramenta de atração  internacional de talento, capital e empresas.

Em termos concretos, Portugal deveria avançar em algumas direções. O  primeiro ponto, seria baixar o peso dos impostos sobre o trabalho. Em  Portugal, muitas vezes, o trabalhador custa bastante à empresa, mas  recebe muito menos na conta ao fim do mês. Isto acontece por causa do  IRS e das contribuições para a Segurança Social. Para um jovem recém-licenciado isto é decisivo: se o salário líquido é baixo, torna-se difícil  pagar renda, poupar, investir ou sequer pensar em comprar casa.  Portanto, uma política fiscal mais competitiva teria de permitir que uma  parte maior do salário chegasse efetivamente ao trabalhador.

O segundo ponto seria tornar a tributação das empresas mais simples e  previsível. Não basta dizer que a taxa de IRC baixa um pouco se, depois,  continuam a existir derramas, tributações autónomas, burocracia e  alterações constantes das regras fiscais. Quem investe precisa de  previsibilidade. Uma empresa não decide contratar, exportar ou abrir  uma nova unidade se não souber que impostos vai pagar daqui a dois ou  três anos. Por isso, Portugal devia ter regras fiscais mais estáveis e uma  trajetória clara de redução da carga sobre empresas produtivas.

O terceiro ponto é relativo ao “problema dos sócios”. Quando uma  sociedade tem lucro, paga IRC. Se depois esse lucro for distribuí do ao  sócio como dividendo, o sócio volta a pagar imposto. Juridicamente são  sujeitos diferentes – primeiro a empresa, depois o sócio – mas, na prática  económica estamos a falar da mesma riqueza gerada pela atividade  empresarial. Isto cria uma sensação de dupla tributação. Para resolver  isso, Portugal podia criar um regime mais favorável para dividendos de pequenas e médias empresas, sobretudo quando o sócio arriscou capital, manteve o investimento e ajudou a empresa a crescer.

Por fim, o Estado deveria ligar melhor os impostos aos resultados. O  contribuinte aceita melhor pagar quando percebe que o dinheiro  regressa sob a forma de bons serviços públicos, saúde eficiente, justiça  rápida, escolas funcionais, transportes úteis e administração simples.  Quando paga muito e sente que continua a ter de resolver tudo sozinho,  a confiança fiscal desaparece.

O português não procura apenas pagar menos impostos;  procura receber melhor, poupar mais, aceder a oportunidades reais, construir  património e sentir que aquilo que entrega ao Estado regressa em serviços, estabilidade e futuro. Por isso, não devemos condenar a saída  de portugueses. Devemos antes perguntar por que razão tantos chegam à conclusão de que precisam de sair para viver melhor. Um país que  forma jovens, financia universidades e depois vê esses mesmos jovens  partir perde população, investimento público, talento, receita futura,  inovação e capacidade produtiva.

Conclui-se que o Estado tem de reconstruir a relação com o contribuinte, pois só assim aquele amigo que vive em França, aquele tio que abriu uma empresa na Estónia e aquela família que agora reside na Suíça poderão voltar  ao país que os viu nascer.