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Tinha dez anos e uma bicicleta: uma Vilar de Luxo, cor de laranja, dobrável, resistente a quase tudo. Nessa altura, os três meses de férias eram passados na Praia da Rocha, numa casa que o meu pai alugava à temporada. Era uma casa de madeira, pré-fabricada, que ficava num vale discreto, à direita de quem ia em direcção à praia do Vau, repleto de alfarrobeiras, figueiras e uma ou outra amendoeira. O acesso era feito por uma ladeira íngreme de terra batida, que subíamos de bicicleta com determinação ao antecipar o prazer de a descer a toda a velocidade: ora a pedalar, ora com as pernas para cima. Um dia, queixosa da trepidação da estrada, a cavilha de segurança, liberta da sua porca, saltou a meio do caminho. A bicicleta dobrou-se e viemos as duas, ela e eu, a arrastarmo-nos pela ladeira até ao ponto em que as leis da física nos pararam. Ela manteve a cor, eu ganhei a primeira grande cicatriz da vida.

Quando olho para esse tempo marcado ainda no cotovelo, não é do acidente que me lembro: é do cheiro da terra misturado com o aroma quente e doce dos figos e das alfarrobas, do som das cigarras crepitantes no calor dos dias de verão, dos fins de tarde no miradouro quase vazio dos Três Castelos, dos mergulhos sem espera no mar quente, das praias com espaço. Esse lugar já não existe.

A Praia da Rocha foi a minha segunda perda. Ano após ano, rapidamente se transformou num aglomerado de prédios com vista para o mar, seguido de outro nas traseiras, umas estradas de acesso rápido, uns corredores aéreos para trazer os ingleses, mais uns hotéis baratos para albergar toda essa gente, e uma linha de bares e de restaurantes take away com nomes apelativos e horários alargados, onde os ingleses, ansiosos por sol e calor, se anestesiavam com cerveja nacional para não sentirem o escaldão literal da imprudência.

Foi a estes ingleses que escolhemos vender o país numa submissão que disfarçamos mal, com justificações incoerentes e medidas arbitrárias.  Há muito que pervertemos o nosso território em talhões baratos arrancados a PDMs voláteis, coniventes com o poder local – extensão sempre atenta do Governo, e garante da replicação dos seus próprios vícios.

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O Estado inglês, porém, não cedeu às exigências da UEFA, defendeu os seus interesses. Já o nosso Governo, laxista, vendeu-nos por uns trocados a bêbados e a hooligans. Somos, trinta anos depois da nossa adesão à União Europeia, um país a resvalar pela ladeira: na 19ª posição do raking do desenvolvimento europeu, medido pelo rendimento per capita, e sem leis da física que nos parem.

Tornámo-nos um país de fracos beefs — termo que ouvia quando era adolescente para designar os ingleses. A alusão vem de beefeaters, nome dado à guarda da Torre de Londres a quem, pelo seu estatuto, era fornecida uma alimentação mais rica em proteína. Cedemos ao imediatismo e à absorção rápida de recursos. Trocámos a proteína pelos hidratos. Já não nos interessa o que comem, ficamos com o que bebem, partem e destroem, diante da nossa polícia, numa subserviência que não se rebela.