A vida não muda de um momento para o outro. Não muda num minuto. Nem sequer num segundo.

É altura de reclamarmos o direito a estarmos tristes. O direito a estarmos ansiosos. Ou o direito a sermos infelizes. O direito, dependendo dos dias, de vociferar para dentro: “a minha vida é uma porcaria!”. O direito a sentirmo-nos mal amados. O direito a estarmos fartos duma “vidinha” sempre igual. O direito a sentir que há muitas alturas em que o trabalho é só um emprego e nada mais. O direito a achar que as crianças “só” nos azucrinam o juízo e que o queremos mais é tirar férias da gritaria, doutro “já fiz cocó”, ou da forma como elas se intrometem nas conversas dos adultos, nos momentos de mimo dum casal e em coisas assim. É altura de dizermos que os nossos estados de espírito – ora “para cima”, ora “para baixo” – não são um sinal de sermos bipolares, mas a oscilação própria de quem está vivo e que sente as coisas e discorre sobre elas, muito antes de as perceber, por exemplo. Falamos, hoje, mais de saúde mental; que bom! Por tudo e por nada vimos as mais diversas “personalidades públicas” a fazer com que a de saúde mental esteja na moda. E então? Trata-se, agora, de começarmos a praticá-la. De deixarmos de ser, a propósito da saúde mental,  actores de Instagram. E de passarmos a ser “só” pessoas.

Não, hoje não estamos mais doentes. Trabalhamos muito, é verdade, mas temos regras e regalias de trabalho que os nossos avós nunca terão tido. É claro que não tivemos sempre uma história de vida só de mimos e de abraços, e que coleccionámos episódios que doeram e que, nalguns casos, geraram imagens que nos “perseguem” e “traumatizam” mas, comparando com as condições das gerações anteriores que tiveram vidas muito piores, teremos sido muito mais bafejados pela sorte do que pode parecer. Apesar de tudo o que isso nos traz de turbulência e de sofrimento, ao casarmos, hoje, não estamos condenados a estar casados para sempre com a mesma pessoa. E somos mais escolarizados. E temos mais autonomia. E mais informação.  E mais tecnologia ao nosso dispor. E, apesar das dificuldades, a vida é mais fácil. Não, isso não nos traz argumentos para afirmarmos que somos mais felizes. É verdade que não. Mas temos muito mais hipóteses de sermos, pelo menos, menos infelizes.

Não somos, como este novo normal de se falar muito mais de saúde mental levaria a supor, mais doentes mentais. Pelo contrário! E somos mais esclarecidos. Todavia, crescemos num mundo que se vendeu a si próprio como se a felicidade fosse obra do Pai Natal. Como se a vida viesse equipada com “abertura fácil”. E, por isso mesmo, ela não desse trabalho e não fosse preciso muito tempo, alguns fracassos e vários estados de espírito muito assim-assim para aprender a vivê-la E crescemos todos com a ideia que a vida só muda quando nós queremos e que, seja pelo telemóvel ou pelo nosso desejo, que a controlamos. Daí que, quando falamos dum pensamento que nos incomoda não falte quem nos diga: “Não penses mais nisso!”  Quando, por algum motivo que não seja ainda claro para nós, confidenciamos: “Estou ansioso…”, o conselho mais popular é: “Fica mais calmo”. Se, na esperança de termos quem nos ajude a pensar, dizemos: “Sinto” isto ou aquilo, há sempre quem atalhe, aconselhando-nos: “Tens de aprender a gerir as emoções”. Ou quando, ganhando coragem, reconhecermos: “Sinto-me triste”, são ainda muito frequentes as vezes em que alguém nos aconselha: “Toma um anti-depressivo” que isso passa.

Criou-se esta ideia muito: “Põe racionalidade nas coisas; sim?… Ou:” Deixa-te de sentimentalismos”. E:“Controla-te!” E, depois, quando essa estratégia – muito ao género de: “A pensar morreu um burro” – não dá certo e nos separa da felicidade, há slogans sobre slogans que, falando baixinho, escutamos um pouco por todo o lado. “Não te sentes bem amado? O Viagra resolve.” “Não te sentes dono da tua vida? E, depois, não fazes parte da geração Prozac?…” “Sentes que, apesar de todas as coisas que varres para baixo do tapete e que não se resolvem nem por si nem com o tempo, há dias em que andas ansioso, de nervos em franja, pronto a explodir por tudo e por nada, como se estivesses em pânico, sem razão nenhuma que o justifique? Põe um comprimido debaixo da língua que isso passa.”

Mas não são só as soluções bioquímicas em nome da saúde mental que a vida nos traz. Há, também, soluções mais “eco-amigas”.  “Sentes um aperto no coração e nada te satisfaz? Distrai-te!” “Já correste todos os canais da box, os videojogos já não puxam pela fúria que tens aí guardada e já nem vários pastéis de nata que te deixem à beira do vómito te descentram daquilo que te preocupa  a ponto de te sentires um imbecil, pronto a cortar os pulsos? E que tal queimares calorias ou uma boa noite de copos?” “Sentes-te sozinho e a precisar duma voz amiga, já correste todas as redes sociais e não há nada de muito estúpido que te distraia? Desabafa com a Alexa que ela te responde.” A regra é, portanto: “Não penses demais! Foca-te! E se já esgotaste o teu plafond de cliques diários no telemóvel, cansa-te! Lembra-te sempre que burros são aqueles que pensam. Moicanos os que desabafam. Já os que fazem por se transformar e tentam mandar no processo “queimaram os fusíveis” e acreditam em fadas.”

É claro que tudo isto só pretende ser caricatural. Mas talvez avive que, apesar de toda a saúde mental de que se fala actualmente, com apelos políticos e medidas eleitorais de permeio, trabalhamos todos os dias para sermos doentes mentais. E é fácil que seja assim. Porque temos vidas difíceis nas quais, em muitos momentos, não nos reconhecemos. Porque nos sentimos, muitas vezes, mal-amados. Porque entre aquilo que pomos de nós na vida e aquilo que ela nos dá as contas andam quase sempre ela por ela. Porque a vida não pára nem volta para trás e temos sempre essa ilusão batoteira que o que estaria a dar seria começar do zero. É claro que no meio de tudo isto as pílulas aliviam; é verdade que sim. Mas não resolvem. Evidentemente, se aliviam, ajudarão, num determinado momento, milhões de pessoas. Mas o que é importante, quando a saúde mental parece estar na moda, é termos a humildade de reconhecer que trabalhamos, todos os dias, para sermos doentes mentais. Porque “não pensamos”. Não cuidamos. Não conversamos. E não trabalhamos para mudar. E, sobretudo, baralhamos aquilo que são os sinais vitais que resultam da fantástica capacidade de lermos a realidade, dentro e fora de nós, com uma “turbulenciazinha” dispensável. Começamos a tornar-mo-nos doentes mentais quando interpretamos como doentios sinais vitais. Como se estar ansioso, estar triste, sentir-mos desmotivados ou estarmos cansados, alheios ou apáticos se resolvesse, sobretudo, sem pensar e sem encontrar portas de saída para os labirintos onde nos metemos.

A verdade é que o nosso furor de trabalharmos contra a saúde mental se estende aos nossos filhos. Eles não têm tempo para serem crianças. As oportunidades e a sabedoria do brincar parecem ser todos os dias um bocadinhos mais engolidos pela escola. A adolescência vive-se mais em função da universidade que em compromisso com a vida. E eles não têm nos nossos exemplos coordenadas claras de sermos amigos da saúde mental. Descansamos pouco. Conversamos pouco. Lemos pouco. Cuidamos pouco. Vivemos pouco. Amamos pouco. E pensamos pouco. Precisamos de mais para sermos amigos da saúde mental.

E, no entanto, sim, há doentes mentais. Não serão todos os que consomem os milhões de embalagens de psicofármacos, em Portugal. Uns fazem-no para se aliviarem de muitos mal-estares. Outros, para conseguirem “respirar” e terem um bocadinho de vida. Outros, porque sem isso colapsam. Etc. Mas passaremos a ser doentes mentais quando a nossa capacidade de pensar parece não chegar para fazer face a tudo o que temos desarrumado e a vida se torna um chão que nos foge debaixo dos pés. Não, não estamos mais loucos nessas circunstâncias. Mas estamos muito mais próximos de ser doentes mentais do que seremos amigos da saúde mental. É verdade que nem todos os que consomem psicofármacos são doentes mentais. Mas, à custa de se afunilarem nesse consumo a longo prazo, sem quaisquer outras medidas que os resgatem para a saúde mental, muitos daqueles que o fazem arriscam-se a comprometer recursos saudáveis e a transformar sinais vitais, que sinalizam algum sofrimento, em doença mental.

É, portanto, urgente que a saúde mental deixe de ser uma moda e se transforme num compromisso. Que deixemos essa forma batoteira de acharmos que loucos são os outros. E que assumamos que começamos a resolver a vida quando a pensamos melhor. E, em função disso, pegamos em tudo o que temos de mais ou menos doentio dentro de nós e, passo a passo, vamos no sentido de fazer da saúde mental um apelo sensato de todos os dias.  Pensar é, definitivamente, o melhor remédio.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) e com o Hospital da Luz e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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