De quatro em quatro anos somos mimados por aqueles que nos deveriam representar com as  mais doces e cândidas palavras. Nem um adolescente coberto de acne conseguiria declarar tanto  amor para levar o seu desejo avante. Aos voluntariosos governantes que nos apascentam, é a  vontade de poder que os transforma no mais enfático dos padrinhos, jorrando promessas a eito  e garantias a rodos.

Na República, Platão propõe uma classificação dos regimes políticos em cinco formas: aristocracia,  timocracia, oligarquia, democracia e, por fim, tirania. A democracia, neste esquema, surge como  uma degenerescência, um sistema em que a liberdade é levada ao extremo, tornando-se  desordenada e geradora de caos.

Na visão platónica, a democracia gera o seu próprio colapso ao permitir que todas as opiniões  tenham o mesmo valor, mesmo quando são fruto da ignorância ou da paixão. A ausência de uma  hierarquia do saber, do mérito e da virtude conduz, segundo o filósofo, ao triunfo do relativismo  absoluto, onde todas as escolhas são válidas e nenhuma é melhor do que outra. Este cenário  conduz a uma crise de autoridade e a uma degradação da ordem pública.

Ora esta anarquia emocional e política abre o caminho à tirania. O povo, cansado da desordem,  desejará um salvador, um homem forte que imponha ordem, mesmo que isso signifique abdicar  da liberdade. Assim, a democracia contém em si o germe da sua destruição, conduzindo  inevitavelmente à tirania.

Se aplicarmos esta leitura ao presente, encontramos paralelismos inquietantes. Este cenário  representa o pavor dos poderes de plantão. É esta a bandeira que agitam com desmesurado fulgor  quando se trata de mostrar ao povo incauto os perigos que aí virão se nos deixarmos cair na  tentação da ‘extrema’ direita e não nos protegermos de todo mal que é o de atentar contra o  sistema.

As redes sociais são um exemplo contemporâneo do “governo da maioria desinformada” que  tanto preocupava o filósofo 2500 anos atrás. A capacidade de cada cidadão expressar uma opinião  é uma conquista democrática, mas, na prática, o espaço de deliberação pública foi substituído por um anfiteatro digital, onde a indignação vale mais do que o argumento, e a viralidade mais do que  a verdade.

A elite, que outrora foi revolucionária e defensora de causas progressistas (da emancipação, da  igualdade de género, do ambientalismo, dos direitos civis, …), tem vindo a tornar-se a nova  ortodoxia institucional. E é o povo, ou pelo menos parcelas significativas dele, que hoje se levanta  em revolta. Muitos movimentos políticos contemporâneos (como o Brexit, o Trumpismo, ou  partidos ditos populistas) têm em comum um discurso de ruptura contra o politicamente correcto,  contra os “especialistas”, contra as “verdades impostas”, contra as políticas de cancelamento.  Neste sentido, a base da revolta popular já não é a luta contra o autoritarismo conservador, mas  sim uma reacção contra o progressismo institucionalizado, que passou a ser visto como  condescendente, moralista e desligado da vida concreta das pessoas comuns.

Tal como Platão alertava, a liberdade tem limites. Quando se transforma em rejeição de qualquer  autoridade, norma ou tradição, pode gerar insegurança e instabilidade. Esta fragilidade do tecido  social abre espaço à figura do “homem forte”, que promete restaurar a ordem, proteger os valores  “do povo” e “limpar o sistema”.

As democracias representativas assentam, em teoria, num princípio virtuoso: o governante deve  prestar contas ao povo, e o voto periódico garante essa responsabilidade. No entanto, na prática,  o ciclo eleitoral de quatro anos converte-se num incentivo perverso: os decisores públicos tomam  decisões não em função do bem comum duradouro, mas do que é popular a curto prazo. Este  fenómeno tem várias consequências nefastas:

– Miopia política e ausência de reformas estruturais: A educação, a justiça, a demografia, ou a  sustentabilidade da dívida pública são áreas que exigem visões de médio e longo prazo, mas estas  são frequentemente adiadas ou tratadas com superficialidade. Isto porque os frutos dessas  políticas não se colhem num mandato de quatro anos, e os custos (impopulares) aparecem antes  dos benefícios.

– A política como carreira, não como serviço: Platão defendia que os governantes deviam ser  filósofos — ou seja, homens formados para pensar o bem da cidade, desinteressados do poder  como um fim. Hoje, assistimos ao inverso: a profissionalização da política transforma o cargo num  fim em si mesmo. O objectivo passa a ser manter-se no poder, mesmo que isso implique fazer  promessas irrealistas, recuar em decisões necessárias, ou alinhar com a opinião dominante ainda  que esta seja irracional.

– A transformação do povo em mercado eleitoral: Quando os cidadãos são vistos apenas como  segmentos de eleitorado a conquistar, a democracia degrada-se em populismo estatístico. Os  governantes deixam de agir com coragem ou coerência para responder a sondagens e maximizar  votos. A consequência é uma política medíocre, centrada em slogans, marketing, medidas avulsas;  tudo isso em lugar de programas consistentes e visão de futuro.

Vivemos na ilusão de participação. Apesar de sermos chamados a votar, imensas vezes a sensação  do cidadão comum é de impotência. O debate político reduz-se a duas ou três alternativas  superficiais, sem verdadeira diferença de substância. A escolha é entre estilos, não entre visões.  Isto alimenta o cinismo, o abstencionismo e, em casos extremos, a aceitação da autoridade forte  como alternativa à “farsa democrática”.

Assim, podemos dizer que a democracia moderna, ao tornar-se escrava do presente, perde a  capacidade de cuidar do futuro. Esta constatação abre espaço a uma reflexão inquietante: será  que o actual modelo democrático, que “é um mau sistema. De facto, é o pior de todos… excepto  todos os outros que foram experimentados.” (Churchill dixit), está adaptado aos desafios da  contemporaneidade, ou estamos perante um regime em fase de esgotamento?