1. Segundo Viktor Orbán, “Trump comeu von der Leyen ao pequeno-almoço” durante as negociações comerciais na Escócia, em 27 de julho. (Se Orbán reproduzisse o linguarejar nativo – o nosso –, diria que a presidente da Comissão foi “comida de cebolada”.) Só uma análise infantil, ou a idolatria, permite chegar a tamanha conclusão.

2. Este processo negocial tem de ser entendido para além da espuma do dia. As atenções têm de se virar para a estratégia da estratégia. Trump navega à vista dos efeitos imediatos. Se estivesse vocacionado para uma política (interna e internacional) que enfatizasse os efeitos de longo prazo, não era errático como é. A União Europeia (UE) é mais cuidadosa na configuração das suas políticas. Lida com diferentes sensibilidades nacionais, o que muitas vezes a obriga a adotar compromissos minimalistas; mas também porque, na articulação entre as instituições envolvidas no processo de decisão, procura orientar a estratégia política para obter ganhos no médio e no longo prazo. Em várias iniciativas políticas, a União tem demonstrado que é preferível sacrificar o curto prazo em favor de efeitos diferidos no tempo. A espuma do dia e a aparência de que a UE saiu perdedora no processo negocial não consideram os efeitos significativos deste acordo comercial.

3. Uma negociação internacional não é o retrato de um braço de ferro viril nem se enquadra na correspondente imagética marialva que identifica o vencedor como aquele que sai por cima. Perfilhar esta interpretação não só passa ao lado da dinâmica das negociações internacionais como reproduz uma visão pueril, talvez condicionada por uma abordagem eivada de masculinidade (tóxica). Quem negoceia para dobrar o braço da outra parte não está comprometido com uma negociação autêntica; limita-se a impor a sua vontade à outra parte. Não passa de uma ostentação de poder disfarçada de negociação.

4. Nas negociações internacionais, por vezes é preferível aceitar a lógica da limitação de danos. Um mal menor com (alguma) garantia de cumprimento é preferível à incerteza desenfreada, o pior dos males. Tanto os EUA como a UE têm a perder com a manutenção da beligerância comercial, ou com as constantes ameaças de recurso às armas protecionistas e das medidas retaliatórias consequentes. O comportamento racional está do lado de quem recusa a incerteza inerente a uma guerra comercial sem quartel. Se, do outro lado, está um parceiro que não receia obter ganhos de causa através de ameaças, do exercício de pressão e do sequestro da vontade da parte contrária, os custos da contingência negocial correm por sua conta.

5. Alguns críticos do resultado das negociações propõem uma leitura simbólica do acordo alcançado. Destacam a assimetria, manifesta nas muitas concessões feitas pela UE sem que os EUA tenham cedido em medida equivalente. Se a UE fez mais concessões, isso enfraquece-a? Parece que é, pelo contrário, um sinal da assimetria negocial e das diferentes estratégias adotadas (competitiva e hostil pelos EUA; cooperativa e construtiva pela UE). Quem não entende os rudimentos da negociação internacional é que associa a fraqueza da UE às maiores cedências que fez.

6. Recomenda-se o reconhecimento de outros efeitos simbólicos que passaram à margem do radar dominante: foi a UE que se empenhou mais em fechar o acordo, logo, foi a UE que adotou o comportamento construtivo – daí as concessões e a ausência delas da parte dos EUA. É à Europa que se fica a dever o privilegiar de uma via negocial por oposição à ameaça de retrocesso vertida no unilateralismo de quem, à partida, ameaçou sequestrar o processo negocial. É à UE que se fica a dever o travão ao abismo do protecionismo, com todos os ganhos (económicos e não económicos) associados a esse resultado, até para quem (os EUA) estava menos comprometido em alcançar esta solução negociada. Não se diga desta postura da UE que é reveladora de fraqueza.

7. Ler “estados de espírito” (como alguns fizeram, possivelmente especialistas em decifrar expressões faciais) pode ser um equívoco. Aqui vai uma interpretação alternativa: o rosto fechado de Ursula von der Leyen, a contrastar com o ar folgazão de Trump (e novidades?), não é o barómetro fidedigno do processo negocial, do seu resultado e dos consequentes “estados de espírito”. Trump tem-se destacado pela rudeza com que trata os seus congéneres, até (ou sobretudo) em direto para as televisões em cerimónias oficiais onde os rudimentos do protocolo e da boa educação são atropelados com boçalidade. Este tratamento pode ser intimidatório. Já alguém se perguntou por que estava von der Leyen desconfortável perante a bazófia e a mal disfarçada má educação do presidente dos EUA? E que, porventura, terá sido esse o fator explicativo do seu ar combalido?

8. O acordo é assimétrico – e depois? Talvez seja a materialização de uma espécie de psicologia invertida (em sentido metafórico): quem mais cedeu foi o parceiro negocial que, à partida, estava numa posição competitiva privilegiada; ou seja, quem mais tem a perder no plano da competitividade internacional é que assumiu a posição hostil e ameaçou com a bomba retardadora do protecionismo. Já a UE deu-se ao luxo de sujeitar as suas exportações para os EUA a direitos aduaneiros de 15% sem prejudicar o sucesso dessas exportações. Afinal, a UE mostrou-se forte pela disponibilidade em fazer concessões. O elo fraco foi a outra parte. Para grande convulsão das leituras contaminadas pela virilidade, virando essa masculinidade do avesso e tornando-a, definitivamente, inaplicável como grelha interpretativa destas negociações internacionais.