Tem sido penoso ver o espetáculo de uma União Europeia (UE) atordoada pela chegada de Trump ao poder. Para além de oscilar entre a ansiedade e a submissão servil ao novo mestre, a UE cambaleia implacavelmente entre os erros que impôs a si mesma e os lobbies autorreferenciais, absolutamente imune aos interesses dos cidadãos europeus.
Vejamos o caso apelidado de “Timmermans gate”, um escândalo que desde há dias ocupa as principais manchetes da imprensa internacional, mas que por cá passou praticamente ao lado, depois de ter aparecido no final de Janeiro no jornal holandês De Telegraaf .
Segundo De Telegraaf, durante o mandato de Frans Timmermans como vice-presidente responsável pelo Acordo Verde, a Comissão Europeia financiou actividades de lobby, através de contratos secretos para promover as propostas legislativas para a transição energética e os interesses da própria Comissão Europeia.
Não, não se trata de subvenções atribuídas a organizações não governamentais que promovem políticas de sustentabilidade e de protecção da natureza ao abrigo do Programa Life, através de projectos que visam aumentar a sensibilização do público para as questões ambientais, nem tampouco empresas que exercem actividades de lobbying, com o objectivo de tentar influenciar as decisões políticas da UE, a favor dos interesses que representam, mas de fundos atribuídos a grupos de activistas, para propagar o alarmismo climático.
“Durante anos – relata o Telegraaf – a Comissão Europeia subsidiou, por meio do programa Life, uma rede de lobbies ambientais para fazer lobby pelo Acordo Verde”. E continua: “às organizações financiadas por Bruxelas foram até atribuídos objectivos para resultados concretos de lobby junto dos eurodeputados e dos estados-membros”. E ainda: a campanha a favor da contestada Lei do Restauro da Natureza, fortemente apoiada por Timmermans, “foi promovida por uma rede de 186 ONGs ambientalistas [o European Environmental Bureau], a quem foi pedido para fornecer 16 exemplos de casos em que o Parlamento Europeu tornou a legislação mais ambiciosa por meio da sua actividade de lobbying”. E isso é tudo? Não: “havia até listas elaboradas pelos lobbies com os nomes de todos os políticos que tinham de ser contactados”.
Este Acordo Verde, para quem já não se lembra, resultou num plano para reformular todas as leis sobre economia circular, sobre renovação de edifícios, biodiversidade, agricultura e inovação. Ursula von der Leyen, chegou ao ponto de dizer que a aprovação desta utopia Verde seria para a Europa “como o pouso do homem na Lua”, já que a tornaria no primeiro continente a atingir a meta de neutralidade climática.
Obviamente Franz Timmermans nega tudo, como fizeram antes dele outros burocratas envolvidos em escândalos de corrupção, de Didier Reynders a Von der Leyen, de Vera Jourová a Eva Kaili. E é uma pena que o eurodeputado Dirk Gotink, membro da comissão de orçamento do PE, tenha confirmando que teve acesso aos documentos confidenciais do Telegraaf, e que o Comissário do Orçamento, Piotr Serafin, tenha admitido que “a Comissão assinou acordos que obrigavam as ONGs a fazer lobby junto dos membros do Parlamento Europeu”.
Contudo, também como nos casos anteriores, a maior parte da classe política europeia irá parecer preocupada com o este exemplo flagrante de arrogância tecnocrata, mas acabará secretamente satisfeita com ela. Até porque já está em curso uma campanha que culpa os ambientalistas pelo escândalo, ao invés de condenar a Comissão por ter violado os princípios de transparência, justiça e cooperação que a UE supostamente defende.
Seja como for, agora que a caixa de Pandora foi aberta, importa saber se este cenário grotesco descrito pelo De Telegraaf foi também usado para manipular silenciosamente outras políticas, como a migração, agricultura, LGBTI, género, saúde, comércio internacional ou política externa.
Sim, porque não se entende porque razão a UE responde ao desafio do Trumpismo apontando a bússola (o próprio facto de haver necessidade de criar uma “bússola” é uma indicação do fracasso da UE) sempre na direcção errada: mais centralismo, mais neurose regulatória, mais armas, mais censura nas redes sociais.
Trump decide retirar os Estados Unidos do tratado de Paris, incentivar a investigação sobre combustíveis fósseis e cancelar subsídios para carros eléctricos? A Presidente da Comissão Europeia, responde que continuará no caminho suicida da revolução verde, decretando de cima que 450 milhões de europeus devem necessariamente assumir o fardo do mundo e sacrificar-se para salvar um planeta onde 8 mil milhões de pessoas caminham de forma convincente na direcção oposta. E a vice-presidente Teresa Ribera (a tal que percorreu 1 km de bicicleta com uma frota de oito carros oficiais atrás), reitera o prazo de 2035 para a proibição da venda de automóveis movidos a combustíveis fósseis, e anuncia novos planos coordenados de incentivos e subsídios europeus para carros eléctricos.
Trump denuncia a censura nos media? A comissária para a “soberania tecnológica, segurança e democracia” (o nome já dá vontade de rir) responde que não só não tem a intenção de abandonar a regulamentação restritiva sobre a informação e as redes sociais sancionadas com o Regulamento dos Serviços Digitais, como está a intensificar esforços para colocar o X e o Facebook sob controlo. Sempre, pelo amor de Deus, para “proteger” a democracia.
Trump diz que irá apresentar um plano para acabar com a guerra na Ucrânia e Zelensky admite negociar cara a cara com Putin, enquanto Marco Rubio diz que é “desonesto” afirmar que a Ucrânia é capaz de destruir a Rússia no campo de batalha e retornar a uma situação pré-2014” (uma acusação que recai sobre 99% dos media nacionais e sobre todos os líderes europeus, de Von der Leyen a António Costa)? A Alta Representante para a Política Externa, Kaja Kallas, aterrorizada com a possibilidade do fim da guerra, diz que é preciso “gastar mais para evitar a guerra e para preparar a guerra contra a Rússia dentro de dois a três anos”, sem ser preciso “um único exército, mas 27 exércitos (o facto de já existirem 27 exércitos a custarem muito mais do que um só não lhe passa pela cabeça). Até porque, conclui, “a Rússia não é invencível: conseguiu ganhos territoriais limitados na Ucrânia a custos insustentavelmente elevados, com uma economia em colapso”. Mas se os russos sofreram perdas tão altas e estão em uma situação tão desesperada, como poderiam atacar a Europa em poucos anos?
As palavras de Kallas, assim como da UE que paga lobbies para fazer lobby na UE, podem parecer uma piada. Mas são exatamente o oposto: são o resultado de uma UE míope, totalmente à mercê das decisões perversas de um grupo de burocratas a anos-luz de distância das necessidades dos cidadãos e diabolicamente obstinados em perseverar no erro.