1 O título parece clássico, e é, de facto, mas nem por isso deixa de ser actual.
A verdade é um conceito muito complexo. Não quero estar a maçar os leitores com incursões filosóficas mas elas são necessárias. Para Sócrates a verdade consistia no perguntar pelos fundamentos das normas e costumes estabelecidos, de modo a evidenciar que muitos deles eram supérfluos e até falsos. Acabou mal, como se sabe. Veremos já que esta posição é hoje mais do que actual porque a verdade não é abstracta mas vive da relação que através dela os homens podem estabelecer. Para Platão, pelo contrário, a verdade nada tinha de humano. Era uma ideia que preexistia às coisas, estas mera imitação imperfeita dela. A ideia, pelo contrário, era eterna e perfeita. A matemática era o seu exemplo. O idealismo platónico continua hoje muito presente e onde menos se espera. Partidos há que professam uma ideia abstracta da luta de classes e afirmam convictamente que ela continua mais acesa do que nunca, que os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, que a capilaridade social não existe e que o capitalismo está prestes a cair e que lhe sucederá a perfeição. A realidade é imperfeita e, portanto, não interessa. O que importa é honrar a perfeição da ideia. Não é mentira, é idealismo.
Aristóteles optou por uma posição um pouco mais realista. Não se limitou a contemplar extasiado a ideia. Apenas disse que a verdade devia partir de princípios sólidos e deduzir consequências lógicas (analíticas) a partir daí. O outro Aristóteles, o da tópica, é muito mais produtivo mas terá de ficar para nova ocasião.
Mais realista foi S. Tomás de Aquino. A verdade é a adaequatio rei et intellectus. Não há idealismo. As coisas não têm prioridade e o pensamento também não. A relação é de recíproco condicionamento.
A modernidade modificou tudo. Descartes estabeleceu que é a realidade que deve dar mostras de se submeter ao pensamento, ao tribunal da razão. Verum est adaequatio rei ad intellectum. Se assim não for, há-que duvidar dela. É verdade? Demonstrem. Para os empiristas, por sua vez, a verdade é apenas a que conhecemos através dos sentidos e da experiência, sendo o resto metafísica e de nenhum valor. Estes pontos de vista prolongaram-se até hoje: racionalismo abstracto (Popper) e empirismo, seja este estático ou dialéctico.
Mais tarde o existencialismo retomou a noção grega de aletheia ou seja, a verdade é aquilo que desvelamos porque estava oculto. Não é uma certeza objectiva nem racional, é um esforço existencial que traz às claras o que era escuro. O seu sujeito é o homem, pastor da realidade, e não a ciência.
2 O que tem isto a ver com a política? Tudo. A política é o domínio da opinião, não da certeza. Mas o voltar de costas à verdade arrasa a política. Nas sociedades democráticas e pluralistas dos nossos dias há outra verdade. Desceu das ciências e da especulação racionalista e entranhou-se na sociedade. É a verdade política. Mas a política tem necessidade da verdade, seja qual for a noção que dela tenhamos.
Nem todas as noções de verdade servem a política. O idealismo é mortífero e conduz normalmente ao crime. O racionalismo abstracto passa-lhe ao lado, o empirismo só serve para fazer sondagens e publicar estatísticas, o que é pouco. A verdade existencial responde a muita coisa menos aos problemas da política.
A verdade política é, portanto, a humana. Sócrates é que a percebeu. A verdade é feita por nós e para nós, vivendo em sociedade, não para os cientistas e para as pessoas com (mais) problemas existenciais. É a verdade que nos convém e não pode ser outra.
3 E como é que se chega a ela? Chega-se a ela eliminando a dissimulação e a mentira institucionalizada através do diálogo democrático. Importa, portanto, preservar os meios colectivos de procura e produção da verdade. Não é possível no contexto das sociedades pluralistas actuais pedir aos cidadãos que partilhem as mesmas crenças e idênticos pontos de vista. Mas é possível organizar um sistema institucional que veicule a democracia representativa, a participativa, os direitos e liberdades fundamentais, desde logo o de expressão, e um jornalismo informativo e não activista, como o que temos cá no país. A verdade política não é um a priori mas sim a consequência de um processo de debate democrático pelo que necessita de instituições capazes de a formar e de a difundir. Não há outra solução.
Só assim se consegue eliminar a mentira institucional e a dissimulação. Há que denunciar comentadores pró-russos que mentem descaradamente todos os dias a propósito da guerra da Ucrânia; partidos especializados em notícias falsas nas redes sociais; líderes de oposição que, apanhados ao telefone a pedir empregos para amigos, vêm depois candidamente dizer que… é normal; cadastrados à solta e em lugares públicos: juízes a serem julgados por corrupção e outros a fazerem favores aos partidos. Vale tudo. Faz lembrar aquela trova de Aquilino Ribeiro em que este dizia que tempos virão em que o terão homens de falas vãs e os filhos das barregãs.
É preciso acabar com esta normalização da desfaçatez, da impostura e da velhacaria que inunda o nosso país. Como? Alimentando o diálogo democrático e fazendo funcionar as instituições. A verdade alimenta-se não tanto das certezas mas da eliminação da mentira e da denúncia da dissimulação.
A democracia portuguesa está em crise profunda. E de tal maneira assim é que se reflecte no sistema político-institucional que temos. Este não precisa de grandes reformas, mas do que precisa é de funcionar. É necessário ressuscitar métodos de legitimação, normas de transparência e procedimentos capazes e, sobretudo, um discurso político mais substancial e menos retórico.
Nas sociedades em que vivemos, conclusivamente, a verdade é a consequência do funcionamento da democracia e constrói-se através do diálogo democrático. É um resultado não um ponto de partida. A política precisa da verdade e a verdade precisa da (boa) política. O velho Sócrates é que tinha razão.