Esta sexta-feira a União deu ao mundo um sinal de vida, através da aprovação, por parte dos Estados-Membros, da assinatura do acordo de livre-comércio UE-Mercosul. As reuniões desta semana representavam provavelmente a última oportunidade para ratificar o Acordo antes que a credibilidade da União para com os parceiros da América do Sul se perdesse totalmente, levando o Mercosul a procurar alternativas nos mercados asiáticos ou até mesmo no renovado interesse dos Estados Unidos.
O grande obstáculo à assinatura do Acordo continuava a vir de dentro da própria União. Ainda que tal posição não vá de encontro às suas restantes posições no plano internacional, o presidente francês Emmanuel Macron opôs-se sempre ao acordo como forma de impedir uma eventual vitória da extrema-direita nas eleições presidenciais de 2027. Ressalve-se que, perante a iminência da assinatura do acordo, manifestantes do sector agrícola já se fizeram ouvir por todo o país, facto que se tenderá a intensificar ao longo dos próximos dias. No entanto, a criação de uma zona de livre-comércio com o bloco latino-americano vai ao encontro de tudo o que o presidente francês tem vindo a defender para a União no panorama internacional e serviria directamente o objectivo de consolidar a autonomia estratégica europeia, algo que Macron vem defendendo acerrimamente desde o seu primeiro mandato. Contudo, devido às referidas considerações internas, o seu objectivo passou por aparecer perante o eleitorado francês como tendo-se batido contra o acordo até ao fim, sabendo, contudo, que a sua oposição não bastaria para o inviabilizar.
Polónia, Hungria, Irlanda e Áustria mostraram-se, de igual modo, decididos a bloquear o acordo, com a Bélgica a apresentar a sua abstenção. Tudo dependia, por isso, da luz verde vinda de Itália, que no passado mês de Dezembro havia apresentado reservas significativas que levaram a que o acordo caísse por terra. O calculismo de Meloni parece ter surtido efeito, já que, de modo a assegurar o “swing vote” italiano, a Comissão propôs a antecipação de 45 mil milhões de euros que constariam do orçamento multianual da UE para 2027, assim como a manutenção do valor destinado, a partir desse ano, para o sector agrícola nos 293,7 mil milhões de euros. Estes servirão certamente para apaziguar o sector agrícola italiano, enquanto os segmentos industriais do país, que há muito se pronunciam a favor do acordo, beneficiarão da abertura a um mercado de 270 milhões de consumidores, pronto para absorver produtos de maior valor acrescentado, como maquinaria e automóveis.
O acordo UE-Mercosul está longe de valer por si só, e o actual contexto internacional foi certamente decisivo para que se chegasse finalmente à sua aprovação. Perante a intervenção norte-americana na Venezuela, que culminou na prisão de Nicolás Maduro e da sua mulher, Cilia Flores, ficou claro que a Administração Trump inaugurou um novo capítulo na história da região.
Os EUA preparam-se para, assumidamente, levar a cabo uma reiteração da Doutrina Monroe. Esta doutrina, cujo nome remonta ao presidente norte-americano que, no século XIX, pela primeira vez a formulou, assenta em dois eixos fundamentais: a supremacia dos EUA sobre todo o hemisfério ocidental e a não ingerência norte americana no resto do mundo. Sobre este segundo eixo, porém, subsistem sérias dúvidas quanto à sua aplicação. Se por um lado é certo que os EUA assumiram para si próprios o dever de controlar o “seu” hemisfério, por outro, não vemos na actuação externa americana retraimento noutras regiões, sobretudo quando estão em causa interesses económicos ou estratégicos, como na Ucrânia, no Médio Oriente ou no Mar do Sul da China.
Entre as poucas certezas que a Europa pode levar para o futuro está o facto de que os nossos aliados transatlânticos abdicaram definitivamente de reger a sua actuação por princípios de Direito Internacional. Ao imiscuir-se com tamanha prepotência na política venezuelana, invocando razões de carácter nacional para executar a captura de um líder estrangeiro, a Administração Trump deixou claro que encara o sistema internacional como um conjunto de coutadas destinadas a ser governadas pela superpotência dominante, isto é, pelo Estado que consiga impor, pela força, a sua vontade na respectiva região. Para enfatizar esta sua visão do mundo, Trump anunciou ainda esta semana a saída dos Estados Unidos de 66 agências das Nações Unidas, por considerar que estas não servem os interesses norte-americanos.
Perante este cenário, cabia à União Europeia, agora mais do que nunca, demonstrar que pode deter relevância geopolítica, ao invés de sucumbir à postura submissa que, desde a primeira eleição de Donald Trump, vem atrasando o desenvolvimento de um conceito palpável de autonomia estratégica, independente do investimento chinês, da energia russa ou da defesa norte-americana.
Este acordo, cujas negociações se prolongam há mais de 25 anos, tem o potencial não só de impulsionar a competitividade da estagnada indústria europeia, como também, hoje mais do que nunca, de demonstrar que a Europa constitui ainda uma voz relevante no panorama internacional e que é capaz de defender os seus interesses estratégicos. Para além disso, o acordo reiteraria a necessidade de combinar crescimento com sustentabilidade, ao mesmo tempo que estreitaria relações com economias emergentes do Sul Global, cujos laços histórico-culturais com a Europa são inegáveis.
É verdade que receios legítimos persistem. Contudo, as cláusulas de salvaguarda introduzidas pela Comissão Europeia protegem de forma notória a agricultura europeia e as suas denominações de origem. Neste momento, da proposta da Comissão consta um instrumento que permite accionar um alerta caso exista um aumento súbito de 8% do volume de importações para a UE de certos produtos considerados sensíveis (carne de vaca, frango, citrinos, açúcar, entre outros), ou uma descida de 8% no preço destes mesmos produtos comparado com a média dos últimos três anos. Para além disso, o Acordo protege 344 produtos de denominação de origem protegida de qualquer imitação por parte dos países do Mercosul. Cláusulas que, para um acordo destinado a criar uma verdadeira área de livre comércio, constituem já restrições significativas à luz dos padrões internacionais. Assim sendo, o acordo possui todas as condições para assegurar não só que a agricultura europeia se encontra protegida de competição desleal, como potencia novas oportunidades para a exportação de produtos unicamente europeus, que não poderão ser replicados pelos países do Mercosul.
Confirmada a aprovação por parte dos Estados-Membros, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, estará autorizada a viajar na próxima semana para o Paraguai, detentor da presidência rotativa do Mercosul, com vista a assinar formalmente o acordo e a pôr termo a mais de duas décadas de negociações.
A assinatura deste Acordo peca apenas por tardia, sendo indispensável para garantir a relevância geopolítica e económica da União Europeia num mundo cada vez mais fragmentado. Assiná-lo agora, numa semana em que os EUA se afirmaram donos do Hemisfério Ocidental e abandonaram diversos organismos multilaterais de relevo, demonstraria que a UE se mantém fiel aos seus valores e pode ser firme no seu compromisso com uma autonomia estratégica e uma política externa própria. Não assinar o acordo reforçaria apenas a imagem débil que as outras potências vêm construindo sobre a União: a de um bloco débil e dividido, mais próximo de um museu a céu aberto do que de um actor a ter em conta no tabuleiro internacional.