Estas eleições presidenciais têm-me deixado muito perplexo.
A existência de um sem fim de candidatos deixa-me um sentimento de que o lugar de Presidente da República Portuguesa não é um lugar para uma pessoa especial, que teria a seu cargo um papel essencialmente de cuidador da nossa Nação, da sua liberdade, da sua justiça e da sua verdade, através da defesa de uma constituição, aprovada por uma larga maioria de representantes do povo português que, sendo esta ou outra seria sempre o garante da defesa dos direitos dos nossos concidadãos.
Pelo contrário, o momento eleitoral que estamos a viver é, por aquilo que fomos assistindo, uma oportunidade, para quem conseguir o número de assinaturas estabelecido como mínimo para se candidatar, de estar na comunicação social durante o tempo de campanha, dizendo tudo aquilo que lhes apeteça e tentando acusar os seus concorrentes dos mais terríveis comportamentos que seja possível passar, seja nas redes sociais ou nos meios de comunicação social.
A alimentar tudo isto temos uma enorme classe jornalística que, em vez de se dar ao respeito e de tentar mostrar a seriedade de que se reveste a escolha do representante de Portugal, aceita entrar neste jogo, aproveitando cada denúncia, sem nunca sequer tentar verificar a possível validade das afirmações, a tentar levar ao mais fundo e deprimente detalhe o tema que, segundo está convencida, a fará ultrapassar os seus pares na abertura das primeiras notícias de cada dia.
As sondagens que vão utilizando, afirmando a sua pouquíssima fiabilidade, também vão ajudando a tentar influenciar de uma forma ou de outra a tendência do voto em cada candidato, e tudo isso sem sequer por um momento pensar que seria a sua responsabilidade ajudar a escolher o representante que melhor represente Portugal e não aquele que menos vezes foi denunciado pela maledicência de quem por qualquer interesse o vai fazendo. No fundo, a imprensa, ao aderir a este tipo de atitude, torna-se um joguete nas mãos dos candidatos e acaba por não servir em nada o interesse de Portugal.
E assim chegamos a este momento de eleição, em que alguns inclusivamente já votaram, com uma imagem de que não há verdadeiramente entre os candidatos, uma única alternativa que seja vista pelo povo português como alguém que tenha as qualidades essenciais para ser o próximo Presidente da República.
Não manifesto aqui a minha opinião sobre a qualidade dos candidatos, mas tão só a percepção que resulta de todo o trabalho de comunicação que foi feito e que resultou nos resultados em que nenhum parece ser, à vista dos portugueses, merecedor desse lugar.
Neste momento, aquilo que mais se discute é quem será o mal menor e qual será aquele que melhor será para este ou aquele partido, para o governo e para a oposição.
Pois, para mim, a eleição do Presidente da República não é nem deve ser um jogo da política, uma vaidade de qualquer candidato nem a escolha da pessoa menos atacada pela maledicência.
A escolha do Presidente da República é uma responsabilidade muito séria de encontrar alguém que, pela sua preparação, pelo seu exemplo de vida e pelas suas convicções deverá ser o verdadeiro protector deste povo, dos seus elementos mais fracos, dos seus valores e princípios, da integridade desta nossa Nação. E isso eu não ouvi discutir nenhum dos candidatos. Provavelmente alguns até o poderiam ter feito se os não tivessem colocado constantemente a desmentir as mentiras interesseiras que surgiram diariamente para tentar minar a verdade. A maioria dos candidatos já era sobejamente conhecida para que, se houvesse denúncias, elas já tivessem sido feitas anteriormente.
Enfim, este processo eleitoral deixou-me, e provavelmente à maioria dos portugueses, muito desiludido com o nosso sistema democrático, mas deixou-me ainda mais preocupado com a pouca responsabilidade com que nos propomos eleger quem nos representa e deve tomar conta de nós.
Talvez, de facto, se fosse um Rei seriamos levados a ser muito mais sérios e capazes de ser bem representados.