Por estes dias, um passeio inocente pela baixa lisboeta é suficiente para nos relembrar de que o espírito natalício anda por aí. Sobre o que isso significa, não me atrevo a fazer juízos de valor. Há quem seja avesso à incerteza e se escude na crença de que é sempre possível fazer um bom juízo se os olhos abarcarem tudo o que podem ver. Eu não tenho tanta certeza. Os olhos são sempre pouco confiáveis se estiveram presos à cabeça de alguém. Ainda assim, foi com os meus que vi um comboio de Natal a circular pela baixa de Lisboa. Vermelho, ornamentado de forma festiva e alegre. Os revisores são duendes e o destino parece inútil, volta ao lugar de onde sempre parte, sem paragens nem perturbações na circulação.
Passei por ele como quem não quer a coisa, sorri-lhe ao longe e avancei pela Rua Augusta até chegar ao Terreiro do Paço. Lisboa estava quente, mesmo às portas do inverno. Fosse por causa das iluminações ou do gigante pinheiro ao canto da Praça do Comércio, só se sentia o frio se nos demorássemos no Cais das Colunas, a adivinhar o tempo em que se entrava na cidade pelo mar. Se ainda há um momento, atrás de nós, tudo era Natal, agora é tudo uma sensação fresca de liberdade, misturada com uma melancolia e uma saudade do desconhecido que os lisboetas nunca vão conseguir explicar por palavras. É que parece que elas nos fogem quando a suavidade gelada do Tejo nos corta a garganta. Talvez seja por isso que sempre tentámos escrever sobre os mistérios da água. São precisos muitos poemas para falar sobre a forma como o mar chama pelos portugueses.
Mas, dentro das nossas casas, sem o mar para nos arrefecer os pensamentos, tentamos colar ao Natal, alegria ou tristeza, união ou solidão, e talvez nos enganemos. O Natal pode muito bem ser um catalisador daquilo que nos vai consumindo por dentro. Como são os aniversários e as viragens de ano. As chamas ardem por onde têm lume para arder e as nossas alegrias e tristezas alimentam-se dos momentos em que nos apanham distraídos.
Distraída eu estava quando, na volta, o comboio de Natal do Rossio voltou a passar por mim. Mania da geração ou de quem gosta de fotografar, ia pôr a mão ao bolso para mais um disparo desprevenido. Mas quando olhei para cima, o comboio passava por mim e foi como que se a realidade colidisse com a ficção que eu tinha inventado para mim. É que, no retrato que eu tinha feito do futuro, vi apenas crianças sentadas à janela daquele comboio com pais esbaforidos e pouco atentos, mas, ao levantar a cabeça, vi o comboio passar ao meu lado, sem um lugar vazio, repleto de crianças, mas principalmente de adultos, a sorrir e a acenar como se tudo aquilo fosse realmente uma encenação. E, ainda agora, penso como o cinismo da vida se apodera de nós tão facilmente se assim o deixarmos, e como dizemos sem escrúpulos que é tudo uma “encenação”.
No comboio de Natal do Rossio, os adultos parecem umas crianças, porque, de alguma forma, quando nos dão a hipótese de encenar um regresso à infância, nós aproveitamos, e voltamos mesmo a esses dias onde, juízos de valor, só os que os adultos nos faziam. E, de ano para ano, nós lá os fomos engolindo tão bem que nos tornámos, nós mesmos, os arautos dos próximos juízos de valor que havíamos de vir a fazer aos nossos filhos. E, Natal atrás de Natal, lá se vão as crianças, porque vamos estando ocupados em construir a nossa ideia de verdade. Mas, um dia, se tivermos a oportunidade de ver o comboio de Natal do Rossio passar, se calhar “ainda o apanhamos”.