O Grande Inquisidor é um texto imaginado pelo personagem Ivan Karamázov que consiste no relato a seu irmão Aliócha, na obra de Fiódor Dostoiévski Os Irmãos Karamazov (1879-1880). É constituído pelo monólogo de um velho cardeal inquisidor na presença de Jesus Cristo. Mesmo sabendo que estava perante o filho de Deus, o Grande Inquisidor não exitou em o mandar prender, por este ser uma ameaça ao controlo que a Igreja exercia na sociedade. Durante o monólogo, proferido na cela onde tinha mandado prender jesus, o velho cardeal recrimina Jesus Cristo por ele ter dado a possibilidade de os homens serem livres, em vez de ter usado o seu poder para os controlar como simples títeres. O Grande Inquisidor é um tratado sobre a natureza humana, relacionando conceitos como liberdade, poder político e religioso. Por outras palavras, mostra os fundamentos filosóficos para a manipulação de massas.
A atividade política quando exercida de forma correta, deve ser baseada em duas linhas de ação fundamentais. A primeira, é a satisfação das necessidades que os cidadãos não conseguem obter por si próprios, a segunda, é a criação de condições para que os cidadãos consigam satisfazer as suas necessidades de forma independente. Ou seja, o estado deve criar condições para que as pessoas sejam livres. André Ventura é alguém extremamente inteligente e culto, por esse motivo, sabe que a liberdade é algo que muitos cidadãos não valorizam, pelo contrário. Uma parte substancial das pessoas prefere a ideia de um amo justo, à responsabilidade de tomar o destino nas próprias mãos. Também conhece todas as formas de manipulação de massas e sabe como despoletar nas pessoas os sentimentos mais básicos. É por este motivo que uma parte substancial dos jovens vê André Ventura como uma estrela pop. Isto acontece porque é esta parte da população que tem menos informação e por isso está mais permeável à manipulação. Se o Chega não existisse, muitos destes jovens apoiariam partidos de esquerda. Aliás, muito do eleitorado do Chega veio precisamente desse quadrante político. Por norma esses eleitores são bastante recetivos a discursos simplistas e por isso falsos.
Através de um discurso altamente manipulador, André Ventura conseguiu alcançar o dom da inimputabilidade política. Tal como o Grande Inquisidor, que mandou prender Jesus Cristo (e a quem o povo crente obedeceu, apesar de saber que aquele era o verdadeiro filho de Deus), também André Ventura pode decidir contra as convicções de quem o apoia, sem que isso lhe custe um voto. Isto acontece porque os seus apoiantes veem nele uma figura paternal e redentora a quem todos os pecados são permitidos, porque são para o nosso bem. É como um pai que é injusto com o filho, mas este, por respeito paternal acaba por buscar na injustiça alguma forma de ensinamento para o bem futuro. Mesmo que esse ensinamento não exista.
Ter o dom da inimputabilidade política é o sonho de qualquer político, mas só os populistas o conseguem efetivamente alcançar. Numa sala cheia de bloquistas e socialistas, Mariana Mortágua disse; “Temos de ir buscar o dinheiro a quem o está a acumular”. A plateia irrompeu num aplauso ensurdecedor. Donald Trump também verbalizou este dom de uma forma absolutamente genial: “Podia dar um tiro em alguém na 5.ª Avenida e não perdia votos”. André Ventura disse à cerca da violência contra imigrantes ocorrida no sul de Espanha, perpetrada por grupos racistas e xenófobos: “Por isso quero dizer-vos, aqui em Espanha, sabendo que a imprensa está aqui e a imprensa portuguesa também, que o que fizeram em Múrcia dá-me um orgulho tremendo como europeu.” Na prática, André Ventura estava a legitimar a violência contra todos os emigrantes portugueses, caso um português tivesse agredido um residente no país de acolhimento. Mas sabem quantos votos de emigrantes portugueses perdeu? Depois destas afirmações, seguramente que terá angariado mais alguns milhares de votos nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Dir-me-ão que esta não é uma atitude racional. Talvez não seja, mas como é obvio André Ventura nunca teve o objetivo de despertar racionalidade nos eleitores. Tal como o Grande Inquisidor que dominava as pessoas pela fé e pelo medo e não pela razão.
Outro aspeto da obra de Dostoievski que se aplica a André Ventura, são as três tentações que Cristo sofreu no deserto e a forma como o Grande Inquisidor censura Cristo por não ter aceitado as propostas de Satanás.
A primeira foi a de transformar pedras em pão. O Grande Inquisidor repreende Jesus Cristo por este não ter transformado pedras em pão. Se o tem feito, teria podido alimentar todos os seres humanos, desta forma faria com que todos o seguissem de forma acéfala. Em vez de pão grátis, Jesus prometia o pão dos céus e por consequência o livre arbítrio. Da mesma forma, André Ventura não propõe à sociedade portuguesa a possibilidade de cada ser humano poder lutar pelo pão de cada dia. Pelo contrário, em vez disso, propõe o Cheganomics. Um programa económico miraculoso, onde por decreto de André Ventura, as pedras se transformam em salários elevados, casas, fim da corrupção, trabalhadores de pele branca, etc. Como é óbvio André Ventura tem inteligência mais do que suficiente para perceber que nada do que diz é possível, mas tem o dom de fazer muita gente acreditar nos mais completos absurdos. É um discurso muito parecido com o da esquerda, que diz que os problemas só não se resolvem por má vontade dos partidos moderados.
A segunda tentação, foi a possibilidade de Cristo se atirar do pináculo do templo sem que isso implicasse a sua morte, porque os anjos viriam para o salvar. Também neste caso o Grande Inquisidor critica fortemente Jesus. Se ele tivesse cedido à tentação, conseguiria convencer as pessoas muito mais facilmente pelo espetáculo ao invés de as levar pelo tortuoso caminho da fé. A política espetáculo é outro elemento fundamental na existência do Chega. Não contem com André Ventura para expor os problemas de forma séria e para apresentar soluções viáveis. Tal como o Grande Inquisidor que promovia espetáculos que consistiam na execução de seres humanos pelo fogo, também André Ventura não perde uma oportunidade para abastardar instituições como o parlamento, em espetáculos degradantes. Da mesma forma que o Grande Inquisidor, que se fez acompanhar de guardas de proteção pessoal quando prendeu Cristo na Praça Central de Sevilha, também André Ventura se fez acompanhar de seguranças pessoais e pela polícia, quando foi provocar os imigrantes que se manifestavam contra a falta de resposta dos serviços de estrangeiros e fronteiras do estado português. Quando os jornalistas lhe fazem perguntas que expõem a total falta de racionalidade do seu discurso, André Ventura despe o fato de super-homem para se tornar uma pessoa humilde a quem todos querem fazer mal. No segundo seguinte, volta a vestir a capa de super-herói para mostrar que o jornalixo está ao serviço do sistema corrupto. É o típico jogador de futebol que faz sempre a mesma finta. André ventura protagoniza diariamente um triste espetáculo político, que só pode ser levado a cabo por alguém com o dom da inimputabilidade política.
A terceira tentação foi a do poder. Satanás disse a Jesus que lhe daria o mundo inteiro se ele se prostrasse diante dele e o adorasse. Mais uma vez o velho cardeal criticou a decisão de Jesus. Se ele se tem ajoelhado em frente ao demónio, seria dono do mundo e assim poderia governar com justiça. À semelhança do Grande Inquisidor que utilizava meios drásticos para obter poder, também o líder do Chega entende que os fins justificam os meios. Instigar ódio contra minorias, justificar a utilização de violência por hordas de extremistas, mentir de forma descarada sobre economia, imigração, Segurança Social etc, consistem numa forma de adoração a Satanás em troca de poder. Algo muito parecido aquilo que a esquerda sempre fez, com especial incidência no tempo da Troïca.
Nenhuma explicação da forma como funciona André Ventura, é suficiente para o fazer perder um voto que seja. Até porque estas explicações têm uma base racional e como é óbvio ninguém vota no Chega por motivos racionais. As teorias marxistas só puderam ser desmontadas depois da tragédia em que consistiu a sua aplicação prática. Para nossa sorte André Ventura não tem qualquer tipo de convicção ideológica. Por este motivo, mesmo que chegue ao poder, nunca iremos sentir na pele as consequências das suas ideias. Terá de dar o dito por não dito sob pena de afundar o país. Só o contacto com o poder poderá expor o mar de contradições que são as ideias de André Ventura. Entretanto a nossa vida passou e o país continuou adiado. Ninguém duvide de uma coisa, nenhum país tem melhores políticos do que aqueles que realmente merece.