O tema é dado às polémicas a que temos assistido, mas sobre a imigração há pelo menos dois factos que geram amplo consenso.

O primeiro foi a forma irresponsável e desleixada como a anterior governação permitiu que a imigração ocorresse, ao ponto do Estado não fazer a mínima ideia de quantos imigrantes estavam no país, onde estavam ou em que condições legais ou sociais.

O segundo é que, independentemente da forma desgovernada como tudo se passou até há pouco tempo, a economia portuguesa precisa de imigrantes, sobretudo para sectores de mão de obra mais intensiva, que exigem menos qualificações e pagam piores salários.

O primeiro facto tem sido uma arma preciosa, usada com habilidade, por aqueles que defendem uma política de fronteiras quase fechadas com base num discurso xenófobo. Nisso, o Chega deve agradecer à governação socialista o tema entregue de bandeja.

Já o segundo facto, a necessidade de trabalhadores para a nossa economia, é um manifesto contratempo para essa linha política musculada.

Como ultrapassar esta dificuldade argumentativa?

Assisti à entrevista dada por André Ventura à TVI/CNN na semana passada, onde a questão foi colocada por José Alberto Carvalho: Se mandarmos embora os imigrantes onde está o exército de trabalhadores para manter alguns sectores da economia a funcionar?

Ventura desenvolve as suas soluções. “Sabe qual era a solução para termos mão-de-obra? Era pagarmos bem. Era os portugueses sentirem que temos salários decentes. O nosso salário médio é dois terços abaixo do salário médio da UE”.

Recordado pelo jornalista que a economia está em situação considerada de pleno emprego, e que, portanto, não tem uma fileira de desempregados disponíveis para aceitar um emprego que pague melhor, há outra solução que salta da manga:

“ – Temos os nossos emigrantes. Antes de começar a importar mão de obra do Blangladesh, Marrocos, da ìndia, do Nepal e desses países todos devíamos preocupar-nos em trazer de volta os nossos emigrantes. Os jovens que foram para a Inglaterra e para a Alemanha… esses é que eu queria trazer. Essa é a mão de obra de que nós precisamos”.

– Já alguém lhe disse: eu quero muito regressar a Portugal para ir trabalhar nas estufas de Odemira?

– Não para as estufas de Odemira, mas podem ir trabalhar para um café, um restaurante ou para um hotel no Algarve se lhe pagarem decentemente. Isso resolve-se com bons salários e habitação”

Pelo meio fica ainda o discurso contra os subsídios, com base na teoria habitual: “Se não há mão de obra é porque as pessoas sentem que não vale a pena trabalhar. Os que estão na Segurança Social não estão como desempregados, estão a receber subsídios, RSI”

Cá está como tudo é fácil: aumentem-se os salários, cortem-se os subsídios e encontre-se habitação para fazer regressar os emigrantes e temos o problema resolvido: podemos mandar os imigrantes embora e as empresas terão, entre os nativos, as pessoas que precisam para trabalhar.

Como é que nunca ninguém se tinha lembrado disto? Afinal é tão simples…

Pois, é simples demais para ser verdade. Porque não é mesmo verdade.

Primeiro, porque a soma dos beneficiários do Rendimento Social de Inserção e do subsídio de desemprego (320 mil pessoas) será bem menos de metade dos estrangeiros que trabalham em Portugal – e, já agora, importanta clarificar: o Chega defende o fim do subsídio de desemprego?

O Banco de Portugal estima que no final de 2023 eram quase 500 mil os estrangeiros empregados por conta de outrem. A estes somem-se os que chegaram desde então e os que trabalham por conta própria ou sob formas precárias. Serão, no total, menos de um milhão? Continua o BdP: “Representam hoje 13,4% do total, mas em dez concelhos do país são mais de um terço. Na agricultura, a mão-de-obra imigrante já tem um peso 40% no emprego por conta de outrem. Na hotelaria e restauração 31%”.

São estes sectores e estes concelhos que o Chega quer parar.

Então e a magia do aumento dos salários?

Nesse ponto, André Ventura alinha com Paulo Raimundo: “para aumentar salários só é preciso uma coisa: aumentá-los”. Os extremos são mais parecidos do que parece.

Não lhe digam que os salários em Portugal estão um terço abaixo da média da Europa porque a produtividade da nossa economia é também um terço mais baixa do que a média da Europa. Não vamos deixar que os conceitos económicos mais básicos atrapalhem um bom discurso populista. Decerto que um destes dias Rui Teixeira Santos, recém empossado ministro-sombra da Economia e Finanças do Chega, vai explicar ao país e ao mundo como se faz.