A crise económica global gerada pela pandemia levou a uma redução drástica na procura do petróleo, a qual por sua vez desencadeou uma queda abrupta dos preços. Em 2019, o preço médio do barril no mercado do Brent, o índice relevante para a Europa, foi de aproximadamente 66 dólares. A última cotação disponível, antes de este artigo ser escrito, estava perto dos 28 dólares.

As notícias são excelentes para países importadores como Portugal e a maior parte dos países europeus. Apesar de alguns meios de comunicação se terem deixado contagiar pela perspetiva dos países exportadores, em particular dos Estados Unidos, e apresentarem a descida do petróleo como algo negativo, com implicações depressoras dos mercados financeiros, a verdade é que uma redução do preço do petróleo diminui as despesas que países como Portugal têm de pagar ao exterior, resultando num aumento do rendimento nacional. Por outras palavras, quanto mais baixo o preço do petróleo, maior o PIB, se tudo o mais for constante. Claro que nem tudo o mais é constante, já que se está a desenvolver uma enorme crise económica que poderá baixar o PIB em cerca de 10%. É precisamente neste contexto que a redução do preço do petróleo constitui uma ajuda preciosa: os seus efeitos positivos no PIB contribuem para moderar a crise.

O efeito amortecedor da queda do preço do petróleo foi posto em risco quando os países da OPEP+ (OPEP e Rússia) e os Estados Unidos acordaram em cortes de aproximadamente 10% da produção mundial. O papel dos Estados Unidos, pressionando os preços em subida, foi uma novidade! Ele deve-se ao facto de, nos últimos anos, graças ao crescimento da extração de petróleo de xisto, os Estados Unidos terem passado de importadores a exportadores.

Tendo em conta que os consumidores e eleitores americanos não apreciam pagar mais por combustíveis, até agora o governo americano não tinha contribuído ativamente para subidas do preço do petróleo. Aparentemente a situação mudou, já que a atual administração americana, no seguimento da lógica protecionista que tem vindo a adotar, decidiu abandonar os consumidores e apoiar os produtores de petróleo de xisto, intervindo no sentido de promover a subida do preço do petróleo nos mercados globais.

É interessante notar que a intervenção americana foi peculiar e sem precedentes. A redução da produção de petróleo para todos os países produtores, negociada entre a Rússia e a Arábia Saudita, não estava a ser aceite pelo México, que se preparava para torpedear o acordo da OPEP+ vendendo mais petróleo que a sua quota permitiria. Trump aceitou implementar cortes na produção americana de petróleo que substituíssem os cortes atribuídos pela OPEP+ ao México, mas que os mexicanos não estavam dispostos a fazer! Assim, o cartel OPEP+ e EUA obteve o acordo dos mexicanos e o corte diário de aproximadamente 10 milhões de barris foi para a frente.

Este desenvolvimento constituiu uma péssima notícia para Portugal e para os outros países importadores. Contudo, os mercados rapidamente mostraram que o cartel não estava a ser bem-sucedido. Quer seja porque vários países produtores não cortaram de facto a produção, como já tantas vezes aconteceu no passado, quer seja porque os cortes foram definidos a partir de valores de referência artificialmente empolados, a verdade é que o preço do petróleo depois de inicialmente registar pequenas subidas voltou a descer aproximando-se do nível pré-acordo. Esta é uma excelente notícia para os países importadores em plena crise do covid 19.

A médio e longo prazo, o baixo preço do petróleo dificulta a resolução do problema das alterações climáticas e da desejada expansão das energias renováveis. Mas, a curto prazo, com a super-crise que devasta as nossas economias e sociedades, o efeito positivo da queda do preço do petróleo é muito bem-vindo.

Podemos fazer alguns cálculos rápidos sobre os ganhos para o PIB gerados pelo preço reduzido do petróleo. Como já se referiu, o preço médio do barril de Brent em 2019 foi de 66 dólares. O preço hoje está perto dos 28, mas, para sermos prudentes, assuma-se que o preço médio para 2020 será de 40 dólares. Tudo o mais permanecendo constante, esta redução do preço leva a um aumento da utilização do petróleo pelos consumidores e pelas empresas. No entanto, a elasticidade da procura em relação ao preço é pequena, quer porque a curto prazo o consumo se faz mediado por um stock fixo de equipamento (veículos, máquinas, bens duráveis) quer porque os preços dos combustíveis pagos pelos utilizadores dependem muito de componentes para além do petróleo bruto, como é o caso dos impostos. Um valor razoável para o efeito preço na procura poderá ser um aumento do consumo de aproximadamente 2,5%.

É necessário olhar também para um conjunto de outros efeitos: os efeitos diretos da queda do PIB. Esta irá arrastar consigo o consumo de combustíveis. Normalmente a elasticidade da procura de petróleo em relação ao produto nacional deveria ser inferior a um, ou seja, um crescimento do PIB de 1% deveria levar a um crescimento da procura de petróleo de menos de 1%. Só que em 2020, devido à covid 19, a composição sectorial da queda do produto é seletivamente mais intensa nas atividades relacionadas com a mobilidade das pessoas, pelo que é provável que a ligação entre a queda do PIB e a queda da procura de combustíveis seja maior que no passado. Assuma-se então que uma queda esperada de 10% do PIB leve a uma queda da procura de petróleo igualmente de 10%. Agregando os efeitos de descida do preço e de descida do PIB temos uma diminuição do consumo físico de petróleo para valores de cerca de 92% do valor de 2019. Adicionando ao efeito nas unidades físicas o efeito da queda de preços, obtemos uma redução da despesa com a aquisição de petróleo na ordem dos 44%.

Os passos seguintes desta estimativa minimalista do efeito da redução dos preços do petróleo no PIB têm em conta que Portugal importa petróleo bruto, mas exporta combustíveis refinados, pelo que temos de nos focar no saldo, ou seja, nas importações líquidas. Em 2019, de acordo com o INE, a nossa balança comercial de combustíveis foi negativa, com um valor de aproximadamente 5,4 mil milhões de euros, cerca de 2,6% do PIB. Assumindo que o efeito preço e o efeito produto são semelhantes nos vários tipos de combustível e nos vários mercados, obtemos um resultado estimado de uma redução do valor das importações líquidas de combustíveis de € 2,4 mil milhões, o que constitui um aumento do PIB na ordem dos 1,2%.

Naturalmente que um “empurrão” de 1,2% no PIB parece pequeno quando se preveem quedas do PIB na ordem dos 10%, mas na hora do aperto todas as ajudas contam.

O cartel OPEP+ e Trump tentaram dificultar esta ajuda, mas tudo leva a crer que sem sucesso, justificando um longo suspiro de alívio!

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