Várias tragédias de extermínio repousam nas prateleiras das bibliotecas, acessíveis a quem quiser saber. Poucos querem. Ler tornou-se uma maçada, na era dos slogans e dos vídeos curtos do Tik-Tok.
E repousam lá também, ainda mais ignoradas, as histórias entrelaçadas com o antissemitismo, a doença moral que nunca se cura e apenas muda de disfarce. Como um camaleão que se ajusta ao ambiente, adapta a cor e a forma, mas conserva sempre a mesma essência: o ódio ao judeu.
São séculos de acusações: o judeu é assassino, conspirador, corruptor, capitalista, sovina, usurário, e revolucionário em simultâneo. A criatividade é imensa na adjectivação, nula na substância.
A última encarnação dessa contradição cristalizou-se com o nascimento de Israel. O judeu, outrora imaginado como figura submissa e culpada, que caminha pela rua, de costas curvadas e olhar temeroso, tornou-se combatente, endireitou a espinha, mantém-se vertical e não aceita que lhe imponham vontades alheias. Isso não se perdoa.
E é isso que está em causa na hostilidade obsessiva contra Israel, que perpassa nos media, na escola, na rua, na política. E que une, na mesma plataforma de ódio, fundamentalistas islâmicos dos Irmãos Muçulmanos, extremistas de esquerda como Mariana Mortágua, Tiago Ávila ou Pedro Sanchez, neonazis como Mário Machado, fofinhos do “centro social” como o CDS portuense Raul Almeida, “moderados” como Paulo Rangel, e idiotas úteis de várias etiologias, desde Sofia Aparício ao general russófilo Agostinho Costa, passando por rebanhos, récuas e manadas de “palestinianistas” produzidos em catadupa nas nossas escolas.
Convém salientar que criticar um governo não é antissemitismo. Muitos israelitas detestam Netanyahu ou as coligações que o sustentam como primeiro-ministro. Outros admiram-no. Exactamente como nos outros países do mundo que têm a democracia como sistema.
Até 7 de Outubro de 2023 havia protestos nas ruas contra o seu governo, contra a corrupção, contra políticas específicas. Como cá. Como na Europa. Tudo isso é legítimo e faz parte do jogo democrático. Mas uma coisa é criticar um governo democrático. Outra é demonizar um Estado inteiro, como se a sua simples existência fosse a raiz de todos os males do planeta. Como se fosse o “judeu” das nações.
Basta ligar a televisão. Escuta-se cada vez mais gente a debitar ódio, já sem qualquer pudor, como se a dissolução de Israel, e a expulsão ou massacre de judeus e árabes israelitas, fosse a solução mágica para todos os sofrimentos do mundo. Os adeptos da “solução final” estão novamente a sair da vala comum da História, onde os julgávamos enterrados.
A mesma gente que se cala perante dezenas e dezenas de regimes que esmagam diariamente os direitos humanos, como o Qatar, ou a China, e no entanto assinam contratos milionários com países da Europa sem protestos nas ruas, sem boicotes, sem bandeiras, sem cachecóis fashion.
É aí que entram os militantes profissionais do “humanitarismo”. Gritam contra Israel com espuma na boca, mas não se incomodam com as crianças a morrer no Congo para extrair minerais que alimentam os seus telemóveis onde partilham o ódio contra Israel. Não lhes causa engulho ver a propaganda abjecta da Al Jazeera ou aquecer o lar com o gás do Qatar. Que mal pode vir de um emirado que financia o Hamas e as “causas” que minam o Ocidente, e onde apedrejar mulheres é entretenimento e a escravatura moderna dá emprego a milhares?
E assim prossegue o teatro: não importa que no Irão homossexuais sejam enforcados em gruas públicas, que no Afeganistão as mulheres vivam trancadas como gado, ou que na Coreia do Norte centenas de milhares apodreçam em campos de concentração. Nada disso é suficientemente excitante para encher praças europeias ou fazer flotilhas. Trata-se de cadáveres incómodos que não dão likes nem selfies, nem slogans.
O que importa é outra coisa: que haja sempre um judeu disponível para servir de saco de pancada moral. Por isso não se pestaneja perante a repressão e a miséria na Venezuela, ou as execuções públicas de palestinianos às mãos do Hamas. É uma cegueira selectiva que só encontra o alvo quando o assunto envolve judeus.
O “amor” ao povo palestiniano só existe na medida em que este pode ser instrumentalizado contra Israel. Quantos líderes árabes enriqueceram à custa de manter os palestinianos no limbo dos “campos de refugiados”? Quantos regimes usaram a sua miséria como cortina de fumo para encobrir a própria tirania? Quantos milhares deles foram mortos no Líbano e na Jordânia, sem que um único flotilheiro tenha sequer levantado o rabo do sofá?
A Europa decadente, em vez de aprender, repete a fórmula. Cede, apazigua o mal, polariza populações, alimenta ódios, tudo para mascarar desemprego, corrupção, falência política e jogos palacianos. O governo português reconhece um estado inexistente, apenas para obter os votos dos países árabes no acesso a um lugarzinho no Conselho de Segurança. É a política dos tachos e da mercearia e nesta barganha, o judeu é só um, que se dane!
No fundo, nada de novo. Durante séculos acusaram os judeus de matar crianças e beber o seu sangue. Hoje essas calúnias regressam nos noticiários, recicladas em imagens de “fome” convenientemente manipuladas e fornecidas por um grupo terrorista que controla Gaza com punho de ferro. Não importa que manipulem estatísticas, que usem civis como escudos, que fuzilem quem lhes desobedece, que se escondam em túneis enquanto mandam mulheres e crianças para a morte. Os mártires servem-lhes, e quantos mais melhor.
Entretanto, os massacres de 7 de outubro, as violações, as decapitações, famílias queimadas vivas, mereceram apenas alguma tímidas e breves bandeiras de Israel nas cidades europeias. Os reféns já quase não são mencionados. A reacção ocidental foi morna, e rapidamente passou da condenação tímida para a justificação cínica: foi horrível, mas Israel mereceu. Guterres deu logo o mote: foi mau, mas a culpa, no fundo, não é dos culpados.
As palavras tremendas sucederam-se em catadupa, sempre com o objectivo de tentar deslegitimar o “judeu das nações”. Crimes de guerra, acções desproporcionadas, fome, genocídio.
No momento que corre, a moda é acusar Israel de genocídio. Ignora-se que genocídio exige intenção de exterminar, algo em total contradição com a atitude de um Estado que avisa civis antes de atacar. Que envia comida gratuita para os alimentar. Que lhes fornece água e electricidade. Que os recebia aos milhares para trabalhar e ser tratados em hospitais a sério.
Relatórios verdadeiramente independentes como o do Begin-Sadat Center for Strategic Studies, já rejeitaram tal rótulo. Mas isso pouco interessa. O objectivo não é a verdade, é o apedrejamento e a equivalência obscena: colocar Israel ao nível do nazismo, banalizando o Holocausto e reescrevendo a História.
O paradoxo é que os verdadeiros genocidas são o Hamas e os seus cúmplices, que declaram urbi et orbi a intenção de exterminar os judeus e varrer Israel do mapa.
A pergunta, então, é simples: será que não aprendemos nada? A frase de Haj Amin al-Husseini, mufti de Jerusalém aliado dos nazis, dita em 1943, de que “É necessário limpar o mundo da erva daninha judaica, que contamina todas as terras do Islão”, ou a do discurso de 1935 de Joseph Goebbels, em Nuremberga, de que “O judeu é a erva daninha da humanidade. Onde quer que floresça, o solo morre”, podem hoje ser ouvidas, sem esforço, nas ruas de Londres, Paris, Madrid ou Lisboa.
A única diferença é que já não é antissemitismo. Agora veste a túnica imaculada do “antissionismo” ou do “amor pela causa palestiniana”. E o mais sinistro é que os que o gritam, não reconhecem sequer o ódio que carregam. Pelo contrário, acreditam piamente ser amantes da justiça, da paz e do amor
E esse é o horror moral de uma época em que milhares podem ser violados, queimados ou raptados e, dias depois, já não contam. O sangue judeu coagula depressa. O mundo que antes jurava “Nunca Mais”, num ápice voltou a erguer o punho e a gritar “Outra Vez”.
Há uma sombra que cresce sobre nós. O Ocidente, que deveria guardar a memória do Holocausto como advertência, marcha alegremente para a sua repetição. Convencido, mais uma vez, que está no lado certo da História.
E assim a velha Europa regressa ao seu pesadelo original: multidões nas ruas berrando slogans de ódio, elites cúmplices que fingem nada ver, e os judeus novamente escolhidos como bode expiatório de todos os males do mundo. As luzes das capitais vão-se apagando, uma a uma, enquanto as multidões ignaras aplaudem o escuro e se convencem de que é pela justiça. É esse o horror. O mal absoluto, convencido de que é o bem.