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As perguntas podem mudar o mundo /premium

Autor
  • João Brites
363

As famílias raramente trabalham o espírito inquisitivo das nossas crianças. E as escolas e universidades avaliam sempre as nossas respostas, nunca as nossas perguntas.

Sinto que passo muito mais tempo a procura de respostas do que a explorar boas perguntas. E acho que não sou o único.

É assim que a nossa sociedade está estruturada. As famílias raramente trabalham o espírito inquisitivo das nossas crianças. As escolas e universidades avaliam sempre as nossas respostas, nunca as nossas perguntas. Os nossos locais de trabalho veem tempo de reflexão como perda de tempo. E os nossos partidos têm programas eleitorais, nunca perguntas para o seu eleitorado.

Preocupa-me que dediquemos tão pouco tempo a pensar as perguntas. Ou a vivê-las, como dizia Rilke.

Porque são as perguntas importantes?

As perguntas importam porque elas determinam onde colocamos a nossa atenção e como nos desenvolvemos. Se perguntarmos às pessoas de uma comunidade “O que é que é feio, o que é que não funciona e o que é que faz falta?” elas gradualmente desenvolvem uma visão de si próprias enfocada no que é feio, fraco e escasso. Se em vez disso perguntarmos “Quais são os seus sonhos, belezas, talentos e recursos?” elas desenvolvem uma visão de si próprias enfocada nas suas ambições, no que é bonito e nos talentos e recursos que já existem. Os dois tipos de perguntas suscitam respostas e modelos de desenvolvimento totalmente diferentes.

Além disso, o problema é que muitas vezes não só não pensamos na pergunta como nem sequer temos consciência de que ela existe e que influencia quase tudo o que fazemos. Por exemplo, a pergunta a que a maior parte dos economistas se dedica é: “Como crescer o Produto Interno Bruto a longo prazo?”.

É esta a pergunta certa? E se os economistas se dedicassem a uma pergunta como: “Como desenvolver uma sociedade em que todas as pessoas e natureza prosperam?” Que teorias, modelos económicos, escolas de negócios e economistas nasceriam a partir de uma pergunta assim?

Será que estamos a investir o nosso tempo à procura de boas respostas para más perguntas?

O que faz uma pergunta boa?

Em geral todos reconhecemos intuitivamente uma boa pergunta. A Universidade de Manitoba descobriu que, apesar de existirem diferenças culturais, as pessoas tendem a classificar consistentemente certos tipos de perguntas como mais “poderosas” do que outras.

Segundo esta Universidade, questões poderosas geram curiosidade, provocam, estimulam reflexão, revelam hipóteses subjacentes, convidam novas possibilidades, geram energia, concentram atenção, permanecem com quem as escuta, tocam-nos de uma forma especial e geram novas questões.

Eric E. Vogt, Juanita Brown e David Isaacs publicaram um artigo brilhante¹ sobre a arte de fazer perguntas poderosas onde explicam estes conceitos e apresentam vários exemplos. O psicólogo Arthur Aron publicou também um estudo² que vale a pena conhecer onde descreve 36 questões que provaram acelerar a intimidade e proximidade entre pessoas que não se conheciam.

Convite para uma missão

Não há nada como mudar as nossas perguntas para mudar a qualidade das nossas conversas. Por isso, convido os leitores mais corajosos a durante um dia revisitarem as perguntas que normalmente fazem no seu quotidiano e a substituí-las pelos exemplos em baixo. Partilhem nos comentários o resultado!

Situação
Durante uma conversa com os pais ou avós
Pergunta
“O que é que mais importa para uma vida bem vivida?”

Situação
Quando surge um problema ou desafio
Pergunta
“Quais são as possibilidades e quem quer ajudar?” (em vez de “Qual é o problema e quem foi o responsável?”)

Situação
Numa conversa com os amigos de sempre
Pergunta
“Quando é que te sentes mais pleno e realizado?”

Situação
De manhã sozinho a tomar café
Pergunta
“Qual é o impacto que gostava de deixar no mundo?”

Situação
Quando acaba de conhecer alguém
Pergunta
“O que é que mais gosta de fazer na vida?”

Referencias

¹The Art of Powerful Questions – Catalyzing insight, innovation and action, by Eric E. Vogt, Juanita Brown, and David Isaacs (link)

²The Experimental Generation of Interpersonal Closeness: A Procedure and Some Preliminary Findings, by Arthur Aron et al. (link)

João Brites é economista, bailarino e cofundador do Movimento Transformers. Trabalhou na Fundação Amazonas Sustentável e atualmente transforma o mundo colaborativamente a partir de Nova Iorque como gestor global de Desenvolvimento Sustentável na AB InBev. Juntou-se aos Global Shapers Lisbon Hub em 2013. Este texto foi inspirado numa talk realizada no TEDx Aveiro em 2015 e disponível aqui.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

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