A cada vez que enfrentamos uma crise técnica, como o recente apagão que afetou Portugal e Espanha, volta à tona um velho reflexo nacional: o de querer ser auto-suficiente, mas à custa do isolamento. O discurso “não queremos estar ligados a Espanha, muito menos dependentes deles” reaparece, agora com roupagens técnicas, mas com o mesmo espírito defensivo de sempre.

É curioso ouvir, em pleno século XXI, vozes que se afirmam modernas e progressistas repetir ideias que, décadas atrás, combatiam com convicção. Os mesmos que criticaram ferozmente o “Orgulhosamente Sós” de Salazar, hoje parecem confortáveis em sugerir que os nossos sistemas energéticos devem ser exclusivamente “nossos”, sem partilha, sem interdependência, sem integração. Como se a soberania se confundisse com isolamento e a proteção fosse sinónimo de cortar laços.

A realidade é outra. Num mundo interligado, onde os riscos são globais — sejam eles de índole digital, climáticos ou energéticos — a resiliência constrói-se em rede, não em redutos fechados. Precisamos de agir globalmente e cooperar internacionalmente. É essa lógica de colaboração, de partilha de recursos, de conhecimento e de capacidade instalada que nos torna mais fortes, mais rápidos na resposta e mais inovadores na prevenção. Sozinhos, somos mais frágeis. Em grupo, somos melhores.

É verdade que, no incidente recente, a origem do problema energético parece ter estado em Espanha. Mas e se amanhã for Portugal a ter um colapso técnico, uma falha sistémica, uma disrupção? Será que os mesmos que hoje levantam a voz contra as interligações irão, nesse cenário, clamar por apoio europeu e ibérico? Ou dirão que “sempre defenderam a integração”? É nestes momentos que se mede a coerência, a consistência e a capacidade de pensar além da espuma dos dias.

As decisões estratégicas — e a energia é uma das mais críticas — não podem ser moldadas por emoções momentâneas ou impulsos populistas. Num tempo de redes sociais, em que a pressão da opinião pública é medida em “likes” e reacções rápidas, a tentação de responder com soluções fáceis e isoladas é enorme. Mas liderança, especialmente em matérias estruturais como a energia ou a segurança digital, exige frieza analítica, visão de longo prazo e coragem para tomar decisões que não se esgotam no ciclo noticioso de 24 horas. Governar — seja um país ou uma empresa — é resistir à reação e apostar na construção estratégica.

As resiliências energéticas e digitais não se constroem em silos. Exigem um pensamento sistémico, transversal e integrado, que reconheça a natureza interdependente das infraestruturas críticas. Um país que se quer preparado para enfrentar falhas — seja no fornecimento de energia, numa infraestrutura digital ou numa cadeia logística — não pode agir como uma ilha. Portugal, inserido numa Europa em transição, precisa de se posicionar como um ator que contribui e beneficia de redes colaborativas, que partilha capacidade e recebe apoio quando necessário. Isolar-se é o oposto de resiliência. É, na verdade, fragilidade disfarçada de soberania.

Ao nível empresarial, a lição é idêntica. As lideranças que pensam a resiliência das suas operações com base em auto-suficiência absoluta esquecem-se de um princípio fundamental: não existe robustez sem interconexão inteligente. A continuidade dos negócios, em particular num mundo hiper digitalizado e sujeito a riscos crescentes — sejam ciberataques, disrupções energéticas ou falhas operacionais — exige planos de contingência alinhados com parceiros, fornecedores, entidades públicas e redes transnacionais. Ser resiliente não é apenas ter recursos internos. É ter redes de apoio testadas, alianças confiáveis e protocolos comuns de atuação.

A resiliência digital, reforçada agora com diretivas como o NIS2, o DORA ou o Cyber Resilience Act, obriga empresas e governos a adotarem práticas mais maduras, mais coordenadas e mais transparentes. Estes regulamentos partem todos da mesma premissa: nenhuma entidade resiste sozinha ao novo ecossistema de risco. As infraestruturas digitais — tal como as energéticas — precisam de redundância partilhada, comunicação eficaz e colaboração operacional. Quando falha um sistema, a resposta tem de ser orquestrada — e isso só é possível com pontes construídas antes da crise.

Importa também reforçar que defender a autonomia — seja energética ou digital — não significa rejeitar a interdependência. Significa, sim, garantir que temos capacidade para agir sozinhos quando necessário, mas com a consciência de que será sempre mais eficaz e mais seguro agir em conjunto. A maturidade política e empresarial reside na capacidade de equilibrar meios próprios com cooperação externa. Isso não é fragilidade — é inteligência estratégica, é preparação ativa e realista para um mundo complexo.

No fundo, liderar hoje é compreender que auto-suficiência responsável e cooperação estratégica não se excluem — complementam-se. Um país ou uma organização que queira resistir e prosperar num contexto de incerteza e volatilidade tem de apostar numa abordagem integrada, baseada em conhecimento, em redes colaborativas e na preparação contínua. O verdadeiro líder, nestes tempos, é aquele que não confunde independência com isolamento, nem reação com estratégia. E essa distinção faz toda a diferença no momento em que a crise bater à porta.