Um drone armado com Semtex e PETN embateu na asa de um Antonov An-124 ucraniano estacionado em Leipzig/Halle, a 4 de agosto. Felizmente, não detonou, aparentemente por falha técnica de construção e foi encontrado quatro horas depois por um motorista de autocarro, que o imobilizou com o pé até a polícia chegar. Ou seja: as autoridades alemães não detectaram a sua aproximação nem presença o que faz pensar na quantidade de sistemas de segurança e vigilância que falharem para que isto pudesse ter acontecido e as lições que devemos tirar deste falhanço.
Os serviços de informação dos EUA atribuem o aparelho a uma operação dos serviços secretos russos na Alemanha e, em consequência, o chanceler Friedrich Merz convocou o conselho de segurança nacional. Mas, apesar da gravidade inédita destas circunstâncias, o vocabulário oficial de Berlim continua a ser o de sempre: “ameaça híbrida”, “estamos a monitorizar”, “preocupação”. Um explosivo lançado contra um avião de carga que abastece o flanco oriental da NATO não é um sinal. É um ataque direto. E enquanto a Alemanha (e com ela: grande parte da Europa) insistir em tratá-lo como um desafio diplomático a superar, vai continuar a ser testada, uma e outra vez, até que um destes engenhos detone e produza consequências graves e para além de tudo aquilo que possamos imaginar.
Este é o fundo do problema europeu: uma cultura política que confunde comunicados com dissuasão. Vladimir Putin e Donald Trump não são figuras que respondem a protestos verbais veementes com recuo. São bullies profissionais: Interpretam-nos, precisamente, como prova de que podem continuar a empurrar a fronteira do aceitável. Um “condenamos veementemente” não parou – até hoje – um único drone, não devolveu um único metro quadrado de território, não impediu uma única ameaça de anexação. A Europa não tem um problema de argumentação. Tem um problema de acção.
Durante oitenta anos, a defesa europeia foi subcontratada em regime de outsourcing a Washington. Funcionou enquanto Washington quis que funcionasse. Deixou de ser uma aposta segura no momento em que um presidente americano começou a tratar a Gronelândia como alvo de anexação e a tratar aliados da NATO como devedores insolventes. Uma Europa que continua a comprar o seu poder aéreo, a sua ciberdefesa e a sua protecção estratégica a um país cuja previsibilidade política já não pode ser assumida está, na prática, a hipotecar a sua soberania a um ciclo eleitoral americano de quatro em quatro anos.
Portugal já deu um primeiro passo correcto nesta lógica, mesmo que por razões defensivas mais do que ofensivas: em março de 2025, o ministro da Defesa, Nuno Melo, retirou o F-35 da lista de substitutos dos F-16, invocando textualmente a falta de previsibilidade dos Estados Unidos como aliado. Foi um gesto raro de lucidez institucional que, infelizmente, foi seguido de um alinhamento cego dos generais da FAP pelos interesses norte-americanos e por campanhas de lobby (que chegaram à compra de anúncios de televisão) por parte da Lockheed Martin para tentarem a desvantagem americana pelo que, atualmente, o F-35 regressou paulatinamente à lista de opções possíveis para a substituição da envelhecida frota portuguesa de F-16. Mas mesmo que Portugal se afaste (como devia) da opção americana e opte por um aparelho europeu, um gesto português não determina o que é a política europeia no setor da Defesa e o resto da Europa continua dividida entre países que compram F-35 por inércia (Alemanha, Bélgica, Holanda, entre outros) e países que ainda não perceberam que a escolha de um caça é, hoje, uma escolha geopolítica muito antes de ser uma escolha técnica ou meramente “militar”.
Comprar F-35 neste contexto seria um erro grave, não por razões de desempenho (é um aparelho muito competente ainda que extremamente caro de operar) mas por razões de arquitectura de poder. O F-35 não é apenas um avião: é um nó terminal de uma rede de logística, com actualizações constantes de software e dados de missão geridos a partir dos EUA. É verdade que, não existe um “botão” remoto de desligar físico, algo que embora seja muito repetido não passa de um mito. O que existe é algo mais eficaz e mais silencioso: sem os pacotes de dados de missão, sem as actualizações de software e sem o apoio logístico americano, um F-35 europeu perde progressivamente a sua eficácia operacional. Ou seja, o F-35 tem uma dependência estrutural dos EUA que se materializa e concretiza em todas as missões do aparelho e é precisamente esse tipo de dependência que uma Europa a caminho da autonomia estratégica não se pode dar ao luxo de aprofundar.
Entre as alternativas europeias, a escolha não devia ser difícil, e no entanto é frequentemente mal colocada: O Gripen E sueco é apresentado como o “caça soberano” por excelência: mas voa com um motor General Electric F414-GE-39E, de origem americana, sujeito ao regime de controlo de exportação ITAR. Isto não é um detalhe técnico menor: em 2026, os Estados Unidos bloquearam a venda do mesmo motor destinado aos Gripen E colombianos, exercendo exactamente o veto que a etiqueta de “soberania sueca” prometia evitar. Pior: aproximadamente um terço dos componentes do Gripen é de origem norte-americana, o que dá a Washington – na prática – o poder de veto sobre a quem a Suécia pode ou não vender, e sobre como os operadores podem ou não empregar o aparelho em determinados cenários. Um caça que a Europa compra para reduzir a dependência de Washington, mas cujo coração continua a ser americano, não resolve o problema: apenas o ilude.
O Rafale francês resolve este problema: Motor Snecma M88, radar, aviónica, códigos-fonte próprios e sistemas de armas integralmente franceses; a Dassault reforçou nos últimos anos a produção quase inteiramente em território francês, precisamente para blindar o aparelho de qualquer classificação ITAR e de qualquer veto de exportação estrangeiro. Não é um caça perfeito, não é de 5.ª geração (e será que Portugal se pode, de facto, dar ao luxo de ter aviões de 5.ª geração?) nem imune a toda a interdependência industrial (há fornecedores estrangeiros pontuais, como a britânica Martin-Baker nos assentos ejectáveis) mas é, hoje, a única plataforma de combate de 4.5.ª geração produzida na Europa que garante a um país como Portugal a capacidade de decidir, sozinho, quando, como e contra quem a usa. Essa é a diferença que separa autonomia real de autonomia de marketing. Escolher o Rafale não é um gesto de simpatia por Paris; é a única escolha coerente com o diagnóstico que a própria Europa já fez sobre si mesma.
O mesmo raciocínio aplica-se ao ciberespaço, onde a Rússia já não testa apenas sistemas eleitorais e redes energéticas, mas também drones armados sobre aeroportos NATO. A Europa precisa de aprofundar, sem pudor, capacidades ofensivas de ciberdefesa: não apenas detectar e mitigar, mas impor um custo real a quem ataca infra-estrutura crítica europeia. Uma postura puramente defensiva no ciberespaço é uma postura de derrota lenta: convida ao ataque porque garante impunidade.
Em Portugal, o problema começa mais abaixo, na base do sistema. O Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a diretiva europeia NIS2, só entrou em vigor a 3 de abril de 2026: treze meses depois do prazo europeu de outubro de 2024, atraso justificado pela sucessão de crises governativas. Entretanto, o Índice de Presença na Internet das Câmaras Municipais (IPIC) de 2025 confirma o que os ataques dos últimos anos já mostravam na prática: a maioria dos portais autárquicos continua vulnerável, e em alguns casos, nas palavras da própria investigação, “não seria preciso ser um hacker muito sofisticado” para os derrubar. Em 2024, um quarto dos municípios portugueses reportou incidentes; os prejuízos anuais associados a ciberataques em Portugal são estimados em dez mil milhões de euros. E a lei, mesmo depois de finalmente transposta, continua a depender de boa vontade institucional para ser cumprida.
É preciso legislar para lá da transposição mínima da NIS2: obrigações vinculativas de auditoria periódica para autarquias e organismos do Estado, prazos legais de resposta a incidentes, responsabilização pessoal de dirigentes e autarcas por negligência comprovada na protecção de sistemas críticos, e um mecanismo de fiscalização independente com poder sancionatório efectivo: não apenas coimas simbólicas que nunca chegam a ser aplicadas. A inércia autárquica em matéria de cibersegurança não é um problema técnico secundário: é, hoje, uma porta aberta em pleno território nacional para qualquer actor hostil que queira testar a resiliência europeia pelo elo mais fraco.
Foi neste contexto que o general francês na reserva Nicolas Richoux disse, em declarações à televisão francesa, aquilo que a maior parte dos governos europeus teme dizer em voz alta: “A Gronelândia é a linha vermelha. Se os EUA invadirem, deixam de ser adversários sistémicos e tornam-se inimigos… Se os Estados Unidos atacarem a Gronelândia, temos de combater os americanos.” A frase gerou muita polémica precisamente porque nomeou algo que a diplomacia europeia se recusa a nomear: que a ameaça a um território de um Estado-membro da NATO (dinamarquês, no caso) não deixa de ser uma agressão só porque quem a comete é um aliado histórico.
A resposta correcta a uma tentativa de invasão americana da Gronelândia, ou a qualquer operação militar física (já não apenas híbrida) em solo europeu, não pode ser mais um comunicado do Conselho Europeu “a acompanhar a situação com preocupação”. Tem de ser uma resposta agressiva mas não letal: destacamentos aéreos e navais europeus posicionados de imediato ao largo de qualquer navio, civil ou militar, americano que se aproxime da Gronelândia sem autorização explícita dinamarquesa; intercepção e abate de mísseis russos ainda enquanto sobrevoam espaço aéreo ucraniano, antes de atingirem alvos civis; operações ofensivas no ciberespaço contra a infra-estrutura militar e de propaganda que sustenta estas provocações sucessivas e sistemáticas contra países europeus. E, no momento em que qualquer uma destas acções for accionada, os embaixadores americano ou russo devem ser convocados no mesmo dia, em todos os Estados-membros da União Europeia, para lhes ser comunicado (não pedindo, mas comunicando, que um ataque a um Estado-membro é um ataque a todos. A força do artigo 42.º-7 do Tratado da União Europeia e do artigo 5.º da NATO não está na sua existência no papel; está na disposição demonstrada de o invocar sem hesitação.
Nada disto é gratuito nem retórica de escalada pela escalada. É o reconhecimento de que a década em que vivemos e vai ser definida por bullies que já deixaram de testar a Europa com palavras e passaram a testá-la com drones, mísseis e ameaças territoriais explícitas. Cada comunicado sem consequência, cada novo “estamos a monitorizar” depois de um ataque confirmado, cada caça comprado por inércia em vez de por estratégia, é interpretado do outro lado não como moderação, mas como fraqueza. A Europa que continuar a escolher o F-35 por comodidade, o Gripen por marketing de soberania e o comunicado de imprensa em vez da acção concreta, não está a evitar a escalada: está apenas a adiar o inevitável momento em que a vai enfrentar mas em pior posição, com menos autonomia industrial, menos capacidade de resposta e ainda uma menor credibilidade dissuasora do que tem hoje.
As respostas alternativas existem e são conhecidas pelos decisores europeus e portugueses: Rafale em vez de F-35, ciberofensiva em vez de ciberpassividade, dentes em vez de palavras vazias e força demonstrada em vez de indignação declarada. A escolha, neste momento, ainda é da Europa. Dentro de poucos anos, isto irá deixar de ser possível e serão os bullies a mandar em nós. Se deixarmos: agora.