Ontem planeava escrever sobre António Costa a as suas maravilhosas invenções em forma de taxas turísticas para torpedear o turismo lisboeta – e do resto do país, que o aeroporto de Lisboa não é uma infra-estrutura lisboeta, é nacional; e os estrangeiros que lá aterram não vêm necessariamente visitar Lisboa. Mas outro apelo foi ganhando fulgor e lá me resolvi a escrever sobre algo mais central à natureza humana do que a taxa Costa: a felicidade.

(Não deixaria de ser útil estudar a certamente muito negativa correlação entre pagamento de impostos e felicidade. Deixo a sugestão aos psicólogos do mundo. Resultados conclusivos do pernicioso efeito do pagamento de impostos na felicidade humana deixaria, por si só, hilariantes de felicidade os liberais de todos os continentes.)

A história que nos contam os estudos sobre a felicidade e o dinheiro é previsível. Claro que quem tem menos preocupações financeiras é mais feliz, os indivíduos mais ricos são mais despreocupados que os mais pobres. Até aí nada de estranho, que toda a gente sabe que o caminho para a felicidade não passa pela incerteza de se poder suprir as necessidades básicas e as dos nossos filhos.

Mas essa entidade que são ‘os estudos’ não se contenta. Que gastar dinheiro em experiências nos faz mais felizes do que comprar bens materiais. Que mesmo quando se compram bens materiais caros obtemos mais prazer no processo de compra do que quando possuímos o objeto desejado. Que nos traz mais felicidade dar o dinheiro do que gastá-lo connosco.

Perante isto, com a poderosa munição da observação do que se passa à minha volta, eu peço: façam o favor de não generalizar. Há quem retire imenso prazer de uma vida austera e com poucas necessidades a desorganizar a rotina. Quem arquive os extratos bancários das suas contas bem recheadas com o mesmo enlevo que outros guardam as jóias herdadas da avó. Quem goste de adquirir objetos para ostentar prosperidade e quem prefira bens preciosos e únicos que apenas uns poucos (os eleitos) reconhecerão. Não estou nada segura que haja apenas uma maneira de usar o dinheiro em prol da felicidade de cada um.

E as experiências que são mais prazenteiras do que os bens materiais? Habituamo-nos, dizem, aos objetos que possuímos e deixamos de lhes dar valor. Como os James cantam ‘if I hadn´t seen such riches, I could live with being poor’. Ora eu duvido.

É certo que estudos sobre memória que tenho consultado (para outros assuntos) apontem no sentido das memórias dos momentos vividos com maior intensidade emocional perdurarem mais. É provável, assim, que a viagem ao Perú nos traga recordações mais saborosas do que o último dia que pusemos a nossa carteira preferida. Mas – pergunto eu – os objetos que adquirimos durante uma viagem e transportam a nossa imaginação para o outro lado do mundo e nos dão a oportunidade de contar o quanto se regateou, como se descobriu tal tesouro no meio de vulgaridades, as peripécias do transporte?

Eu sou apreciadora de experiências, como toda a gente, mas é para mim heresia resistir a objetos bonitos. Sou patologicamente sensível à estética dos ambientes onde vivo, trabalho e passo férias e objetos bonitos chegam a ter função de salva-vidas. E aqui – rendo-me – socorro-me de outros estudos que encontrei neste texto de The Atlantic. A beleza que nos rodeia é uma porção da nossa felicidade. Os habitantes de uma cidade com graciosos edifícios centenários antigos e jardins aprazíveis serão mais felizes do que os de uma cidade industrial composta de blocos indiferenciados. E aplique-se o mesmo aos ambientes domésticos.

O meu ponto de vista subjetivo: vivo em Lisboa, acho-a deslumbrante e tal ajuda a minha felicidade. Adoro as encostas com os seus prédios antigos coloridos (e que pena governos e CML não darem condições aos proprietários de os terem primorosamente cuidados) e às vezes com um vislumbre de rio ao fundo. Os prédios arte nova e art deco das Avenidas Novas ou de Alvalade. Um dos meus caminhos preferidos em Lisboa é descer a (feia) Calçada de S. Lázaro, onde se tem uma maravilhosa vista do Castelo empoleirado lá em cima.

Também me lembro de um momento de sheer happiness há cerca de dois anos. Estava em Cambridge e fui, de manhã cedo, do hotel para a Biblioteca da Universidade. Estava um daqueles dias muito frios e solarengos e eu deliciei-me com as ruas cheias de prédios antigos bem conservados e dos colleges, de pedra e vitrais e rendilhados góticos. Um caso de beleza citadina aguda. A intensidade emocional deve ter sido considerável porque me recordo vividamente.

A felicidade foi pela experiência (uma anglófila em Inglaterra, passar o dia mergulhada no meio de livros e de revistas científicas) ou pela beleza? Eu acho que me conheço melhor do que ‘os estudos’ e aposto nesta última.