Caixa Geral de Depósitos

Berardo e a mais longa nota de suicídio da História /premium

Autor
  • Miguel Pinheiro
1.114

Há uma coisa que Berardo não percebeu: mesmo num país como Portugal há limites. Pode demorar uma semana, um mês ou um ano, mas o jogo acabou. O regime não pode sobreviver com Berardo a rir-se.

Em 1983, um deputado trabalhista leu o programa eleitoral do seu próprio partido e, perante aquela louca defesa do socialismo em Inglaterra, declarou que se tratava da “mais longa nota de suicídio da História”. Na sexta-feira, assistimos à mais longa nota de suicídio da História financeira portuguesa. Ao fim de cinco inusitadas horas, Joe Berardo sofreu uma transformação irreversível: passou de empresário em decadência a inimigo n.º 1 do regime.

Foi um erro fatal. Todas as pessoas que ouviram Joe Berardo a jurar que “Eu, pessoalmente, não tenho dívidas” e todas as pessoas que o ouviram a reproduzir gargalhadas enquanto desafiava os bancos a tomarem posse dos quadros da sua coleção fizeram a mesmíssima pergunta angustiada: “Como é que isto é possível?”.

Ao contrário do que possa parecer, é muito fácil responder à pergunta: “isto”, simplesmente, não é possível. Na sexta-feira, Berardo passou uma linha invisível. Portugal já teve muitos empresários que envergonharam o país — empresários que fugiram ao fisco, empresários que enganaram a Segurança Social, empresários que usaram as empresas para ajudar amigos políticos e empresários que corromperam, falsificaram ou, mais prosaicamente, roubaram. Mas há uma gigantesca diferença entre ser um empresário que faz uma dessas coisas — ou todas elas, em acumulação ou sequência — ou ser um empresário que, mesmo não tendo feito nenhuma delas, se tornou o símbolo mais notório do impasse do sistema.

Agora, Berardo tornou-se nesse símbolo. E, ao tornar-se nesse símbolo, quebrou o impasse. Inevitavelmente, o sistema, que estava paralisado e imóvel, vai ter que se mexer e fazer um exemplo do “comendador” condecorado por dois Presidentes da República. Até sexta-feira, Berardo esteve a proteger-se usando todos os recursos da lei. Mas, como se sabe, mesmo as leis mais protectoras podem ser ultrapassadas ou neutralizadas. Há muitas boas razões para a justiça blindar o património de quem arrisca criar empresas e empregos e falha; mas não há nenhuma boa razão para blindar quem exibe a provocadora imagem de querer apenas evitar as pesadas responsabilidades pelas suas escolhas. Se a justiça se empenhar verdadeiramente nisso, é apenas uma questão de tempo até Berardo ser encostado à parede. E não haja dúvida: depois do que se passou no Parlamento, vai empenhar-se.

Se Berardo tivesse sido discreto, talvez fosse possível eclipsar-se com um ligeiro sorriso. Mas o “comendador” nunca se distinguiu pela discrição. Em 2007, acabou uma entrevista a dizer, entre risos: “If you live long enough, anything can happen to you. But if you can live even longer, you can become God!”. Há uns meses, quando já se comentava com fúria que era um dos grandes devedores da Caixa, mostrou a sua Quinta da Bacalhôa a Manuel Luís Goucha na TVI. Finalmente, há dias, revelou aos deputados, sem cerimónias ou hesitações, toda a indiferença que manifestamente sente por eles e por quem tenta usar a lei para o forçar a cumprir aquilo que serão as suas obrigações.

Mas há uma coisa que Joe Berardo não percebeu. É que, apesar de tudo, e contra todas as aparências, mesmo num país como Portugal há limites. E Berardo passou todos os limites. Pode demorar uma semana, um mês ou um ano, mas o jogo acabou. O regime não pode sobreviver com Berardo a rir-se.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: mpinheiro@observador.pt
Caixa Geral de Depósitos

E Berardo deixou-os nús /premium

Helena Matos
1.931

A fúria dos seus parceiros nasce não do que Berardo fez mas sim daquilo que expôs sobre eles e como exercem o poder. Do BCP ao CCB, Berardo, o capitalista de Estado, é a outra face do socialismo.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)