Carlos Guimarães Pinto, no artigo de opinião “A lei mais estúpida da história” publicado em 11 Março do corrente ano, fala do impacto de uma das possíveis causas da Grande Depressão. Resumidamente, em 1930, os EUA entraram na pior recessão da sua história, a Grande Depressão, agravada pela lei tarifária Smoot-Hawley, que, ao invés de proteger a economia doméstica, desencadeou uma guerra comercial global, reduzindo o comércio internacional e aprofundando a crise. O protecionismo não só prejudicou economias, empregos e rendimentos, mas também enfraqueceu os laços económicos entre nações, contribuindo indiretamente para o clima de tensão que culminou na Segunda Guerra Mundial, ilustrando como barreiras comerciais podem ter consequências devastadoras tanto economicamente quanto geopoliticamente

As novas tarifas anunciadas por Trump podem desencadear uma série de efeitos nefastos para a economia global e até mesmo para os próprios EUA. Ao tentar proteger o seu mercado interno, a medida pode, na verdade, gerar inflação, aumentar preços e destruir empregos, já que muitas empresas dependem de cadeias de produção globalizadas. A realocação industrial, especialmente nos setores complexos como o automóvel e os seus componentes, não acontece rapidamente, exigindo anos e grandes investimentos. Enquanto isso, os consumidores americanos terão menos poder de compra devido ao encarecimento de produtos, como por exemplo da Apple, que mantêm design e marketing nos EUA, mas a produção no exterior. No fim, o protecionismo pode prejudicar tanto o comércio global quanto a economia americana, repetindo erros históricos como os da Grande Depressão.

Por cá, a proposta de Mariana Mortágua para impor tetos máximos nas rendas, embora “bem-intencionada” para proteger inquilinos de custos elevados, pode ter efeitos contraproducentes a médio e longo prazo. Ao limitar a rentabilidade dos senhorios, muitos poderão retirar as suas casas do mercado de arrendamento, optando por vendê-las ou deixá-las desocupadas. Isso reduziria a oferta de habitação disponível para arrendamento, agravando a escassez e pressionando ainda mais os preços no setor imobiliário. No fim, a medida, em vez de aliviar a crise habitacional, poderia piorá-la, prejudicando justamente os inquilinos que pretendem ajudar, um efeito semelhante ao que já foi observado noutros países com políticas semelhantes.

O protecionismo e o intervencionismo excessivo são vícios recorrentes em todo o espectro político, independentemente da ideologia. Apesar da evidência histórica mostrar que essas medidas costumam gerar resultados opostos aos desejados, como escassez, inflação e estagnação, muitos governos insistem em repetir os mesmos erros, seja através de controlo de preços, barreiras comerciais ou regulamentações asfixiantes.

A Europa é um caso emblemático: na ânsia de liderar a transição verde, impôs tantas regras, taxas e restrições que acabou por estrangular a sua própria competitividade. O resultado? Desindustrialização, fuga de capitais e transferência da produção e da poluição para países com normas ambientais mais permissivas. O planeta não ganhou nada; apenas deslocámos o problema. Enquanto isso, a Europa perdeu dinamismo tecnológico e produtivo, tornando-se mais dependente de terceiros. Draghi identificou parte deste problema ao alertar para a estagnação europeia, mas faltam soluções concretas. A questão central é: até quando insistiremos em políticas que, embora bem-intencionadas, ignoram as leis básicas da economia e os incentivos reais dos agentes económicos? A menos que haja uma mudança de rumo, continuaremos a ver os mesmos erros com consequências cada vez mais graves.