Esta semana, visitei a casa mais triste do mercado. Foi penhorada e pertence agora ao fundo imobiliário que a pôs à venda. À porta, um autocolante advertia, em tom de ameaça, que não se podia trespassar a propriedade privada. Era um apartamento gigantesco e caro, parte de um condomínio que terá sido luxuoso e está hoje ao abandono. Entrando, a sala enorme, onde poderá desfrutar de momentos de lazer em família, falava de coisas que ali se passaram. Uma sala de paredes nuas e brancas não fala, e contudo as casas e as paredes das casas falam connosco. Enquanto vivemos entre elas, vêem-nos sem dizerem nada. Depois de partirmos, ecoam o que ouviram. Talvez no canto, à janela, talvez enquanto acendia a lareira, talvez num cadeirão perto da porta: não sei em que lugar da sala se chorou, mas o seu esvaziamento não chegou para limpar a percepção distinta de que uma família foi infeliz ali.
Não sei como explicar esta percepção dos sentidos, quando se entra num espaço vazio e ele nos conta o que não temos maneira de saber. É um mistério e contudo a percepção é comum, os lugares têm um espírito e guardam as suas histórias, pertence-lhes qualquer coisa de parecido com uma alma.
Tenho relações assim com vários espaços. A minha antiga universidade, onde durante anos me agoniou entrar, agonia que fui sabendo, por acaso, em conversas, que partilhava com outros colegas, que nela tinham sido infelizes. Relações boas com outros lugares, cafés pela cidade, restaurantes, casas de amigos, entrando nos quais sinto conforto e segurança.
Não é preciso termos uma história nos lugares para que eles nos falem. No apartamento inóspito, a seguir à sala de olhos baixos, um vago cheiro a comida, o corredor em direcção à cozinha. Na janela, outro aviso em Inglês, para dissuadir ocupantes indesejados. Alguém terá partido parte dos mosaicos da cozinha, pergunto ao guia da visita o que se terá passado. Não sei, responde, talvez tenha sido um electrodoméstico pesado. Mas os mosaicos parecem ter sido partidos num acesso de raiva, como vingança, por tristeza ou lamento. Talvez tenham tentado matar a casa.
Os quatro quartos ainda com o papel de parede dos antigos donos: havia crianças, no seu quarto alguém colou um tristonho desenho de montanhas. Quando a visito, a casa não tem luz e está um dia escuro, devia ser assim quando ali andavam no lusco-fusco, ou no começo do Inverno, ou quando entravam vindos de algum lado, antes de acenderem as luzes. Das janelas, avistam-se as outras casas do complexo, viradas para um grande átrio interior, onde há hoje escadas partidas, obras de recuperação deixadas a meio, desolação.
Caminhando pelo apartamento, ele diz-me que me vá embora depressa, e vou encurtando a visita, sai-me um “pronto, está visto”, que o agente imobiliário não contraria, também ele parece entristecido com a casa que está a mostrar.
Quem, andando por ali, vendo o que vi, se imaginará a ser feliz na casa triste? Não espanta que esteja à venda há tantos meses.
Procurar uma casa é parecido com procurar uma pessoa. Pelo caminho, vamos encontrando outras: desesperadas, perdidas, aflitas, erradas. É como ir numa estrada e ver um estranho sozinho a caminhar na berma, que não sabemos que aflições carrega, como cruzarmo-nos com qualquer pessoa na cidade, desconhecendo o que a atormenta. É ridículo como andar à procura da pessoa que nos fará feliz: e no entanto a história da humanidade é a dessa procura.