Dizia a minha avó, na sua vetã sabedoria, que a sombra do castanheiro era a melhor de todas as outras. Assim o é porque a agulha do pinheiro deixa passar luz e calor, a do freixo é fugidia, a do eucalipto uma catástrofe. Com tamanha, magnânima sombra, apenas compete a do secular carvalho.  Talvez esta afirmação tão arreigada fosse um jeito simples de dizer que uma boa sombra de castanheiro numa quente tarde de verão augura fartas noites de inverno.

No começo do calor, na apanha da batata, já se podia prever o sucesso da colheita da castanha debaixo desta mítica sombra, pela hora do almoço, durante a refeição estival, regada a bom vinho, onde o rancho se protegia do sol rijo do Interior. Até a comida sabia melhor, ao verem-se os estames fortes, floridos, carregados. Em casas humildes, castanheiro bem composto era descanso para famílias que podiam contar com uns tostões no bolso e um ingrediente mais, sobre paupérrimas mesas invernais.

No final do verão, esperava-se um fim de Agosto com tempestades de raios e coriscos, para que no outono os ouriços cobrissem por completo os enormes, fortes e ancestrais ramos.

Durante séculos, a castanha matou a fome a muita gente em temporadas frias, de manhãs geosas e dias e noites de neve branca que cobria outeiros e ribeiros, encerrando famílias em casas de pedra gélida, ao borralho tremeluzente e expectante. Se a produção tivesse sido farta, era com castanhas no lume e o vento à soleira que se esperava o Entrudo, e com ele o sol, o calor, a terra nova e proveitosas sementeiras.

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Este sagrado fruto – de produção local e sustentável – adaptou-se aos nossos gostos e necessidades, ficando bem de toda a forma: assada no forno com sal, cozida com um pau de canela, em farinha para bolos e cozinhados, compotas, doces caseiros e tradicionais, estufados, em cerveja e por aí continuando-se o rol de finalidades para o seu propósito. Tão enraizado está que a efeméride outonal por excelência de muitas regiões do país é o clássico magusto, onde depois de assadas no borralho, se usam as cascas farruscas para pintar as caras de quem as come.

Ainda que do digital vivamos, é dos braços destas árvores que brota a alma do outono. Abençoados nós que o sentimos incensado com o cheiro da castanha assada, preenchendo as nossas aldeias, vilas e cidades, onde cirandeia o fino fumo brotado dum insuspeito assador de rua. Através desse aroma, já se sente o sabor completo e doce, evocando paladares e texturas, concomitantes com tempos que acenam à lã aconchegante, a borralhos de lareira, e a braseiros que aquecem pés e almas enregeladas, em longas, frias e estreladas noites, em que o inverno nos beijará a cara com o seu vento agreste e gelado.

Ainda assim, tudo é bom no frio, com um molho de castanhas quentes na mão. Tudo é mais simples e aconchegante. No entanto, de onde vem este valor castanho, esta seiva que nos faz a nós portugueses e que tão entranhada está na nossa maneira de viver?

O seu valor inestimável encontra o principal volume de produção nas regiões interiores do país, das Terras do Demo à Terra Fria Transmontana, tendo um peso inestimável e sendo o ouro de muitas terras, muitas gentes e muitas famílias.

Este fruto imutável, de origem quase anónima, possui toda uma cultura, origem e nome. A algumas variedades, chamam-na por nomes tradicionais, como martaínha, colarinha, judía, longal, verdeal, rebordã ou aveleira. Outras que nos chegam às mãos foram baptizadas em terras distantes, com nomes exóticos:  marigoule, bouche betizac, maraval. E ainda aquelas há que as nomearam com nome de laboratórios: ColUTAD ou Ca90. Por entre tanta oferta, só conhecedor atento se dá conta da variedade e da qualidade, pois para paisano despercebido todas que vêm ter ao prato, findam na barriga.

O castanheiro, árvore-pão de tantos, já foi árvore forte e duradoura, mas hoje, sob o peso de um clima em constante mudança, de espécies e doenças exóticas, tornou-se numa árvore de difícil manutenção. Com ameaças importadas, como a vespa-da-galha, os produtores já perderam as mãos a medir esforços e perdas. Mas ainda assim, com carácter que quebra mas jamais verga, muitos produtores decidem seguir em frente, na ânsia de que para o ano a produção seja sempre melhor.  O trabalho e dedicação necessários ao bom cultivo da espécie são tarefas dignas de constar dos 12 trabalhos de Hércules. Resiste muito soito por montes distantes, mais por teimosia, por carinho e por vontade pétrea que por rentabilidade, por lucro e por crescimento económico.

Como muito daquele Portugal que se estende para lá de Lisboa, também a fileira da castanha se entrega ao esquecimento, bem como as terras e as gentes que a produzem. Tragicamente, pois esta fileira para além de fonte de riqueza de várias regiões, reforça a óbvia diversidade biológica e genética das nossas florestas, das espécies vegetais, para além de claros sumidouros de carbono.

Com a fileira da castanha no centro de uma estratégia económica e social, todos temos a ganhar! Os nossos outonos e invernos são mais preenchidos, mais únicos e mais quentes. E as regiões produtoras mais ricas, mais desenvolvidas, mais produtivas, mais competitivas e mais atraentes para faixas etárias mais jovens.

Enquanto as há, podemos passar mais um outono saboreando uma castanha, o fruto que nos fez e aos nossos avós. Com uma dúzia na mão, caminhamos com passos curtos, rumando a mais um inverno que se aproxima.