Como se diz no nosso país, mais vale tarde do que nunca. Ao elogiar os resultados do programa de austeridade na Grécia, Mário Centeno elogiou igualmente o trabalho do governo de Passos Coelho. O desempenho do governo de Passos foi superior ao do governo de Tsipras em todos os aspectos. A recessão económica foi menor, o desemprego foi mais baixo. E os cortes de salários e de pensões foram igualmente menores. Além disso, a economia portuguesa começou a crescer mais depressa do que a grega e o desemprego desceu mais rapidamente. Em suma, a austeridade em Portugal foi menos dura do que na Grécia. É impossível elogiar os resultados do programa grego sem elogiar ainda mais os do programa português.

Centeno só não o faz unicamente por razões de política interna, o que se entende. Mas todos os portugueses perceberam o modo como o ministro das Finanças legitimou a herança do governo anterior. E ninguém no executivo socialista, incluindo António Costa, contrariou Centeno. Como defensor do governo de Passos Coelho, só me resta dizer: obrigado, Mário Centeno.

As palavras de Centeno revelam também o seu pensamento e, mais importante, a sua ação como ministro das Finanças. Centeno tem sido rigoroso em relação às contas públicas de modo a manter o défice sob controlo. Em comparação com os ministros de Passos, a tarefa de Centeno tem sido mais fácil. Beneficiou da herança recebida e do contexto económico europeu favorável, mas mesmo assim impôs a sua versão de austeridade. Não foi uma austeridade de redução de ordenados e de pensões, mas antes uma austeridade de cortes no investimento público. Politicamente, a austeridade de investimento público provoca menos insatisfação entre os portugueses e a cumplicidade do PCP e do Bloco garantem a paz social.

No entanto, as críticas fortes das extremas esquerdas — e ainda não pararam — às declarações de Centeno mostram o desconforto dos camaradas de geringonça. Desconfiam que os portugueses estão por fim a perceber que o PCP e o Bloco abandonaram os princípios ideológicos pelo acesso ao poder, e tentam esconder o óbvio. Mas quantas virgindades podem ter as nossas esquerdas? Também sabem que a escolha de um ministro de um governo socialista para a presidência do Eurogrupo significa a legitimização das políticas de austeridade pela família socialista europeia. Em Espanha, o governo do PSOE também está a ajudar a legitimizar as políticas da zona Euro. E, ao contrário do Podemos em Espanha, o Bloco é cúmplice da estratégia do Eurogrupo.

Na Europa, o grande aliado do Bloco e do PCP contra as políticas orçamentais da zona Euro é o governo populista de Itália. Dentro de semanas, Roma vai estar em conflito com Bruxelas (e com Berlim e com Paris) por causa das regras orçamentais. Será interessante ver de que lado estarão o PCP e o Bloco. Com Centeno, aliado em Portugal, ao lado da ortodoxia financeira europeia, ou com Salvini, o grande inimigo populista de direita, do lado do aumento da despesa pública? Será a oposição de Salvini à disciplina orçamental de Bruxelas o momento Molotov-Ribbentrop das esquerdas marxistas portuguesas?