Vivemos um momento de transição silenciosa, mas profunda. A digitalização dos serviços de saúde – das teleconsultas às plataformas de seguimento clínico, das aplicações móveis aos algoritmos de triagem – já não é uma promessa futura: é presente ativo e crescente. A pandemia acelerou esta transformação, demonstrando que é possível inovar a prestação de cuidados. Consultas à distância, prescrições eletrónicas, monitorização remota de parâmetros vitais. Tudo isto parece apontar para um sistema de saúde mais ágil, mais personalizado, mais eficiente.

Mas por cada paciente que, com um clique, acede ao seu médico, há outro que fica para trás. Porque não tem internet em casa. Porque não sabe usar o smartphone. Porque vive num lugar onde o sinal mal chega. A saúde digital, que devia ser uma ponte, arrisca tornar-se um muro invisível entre quem sabe e pode, e quem simplesmente não consegue.

Em Portugal, os números são elucidativos. Cerca de 10% da população não tem acesso regular à internet. Entre os maiores de 65 anos, essa percentagem sobe para valores superiores a 40%. Para muitos idosos, navegar numa aplicação médica não é intuitivo – é angustiante. Acresce que, em várias regiões do interior, as falhas de conectividade continuam a ser um entrave técnico real. Em vez de aproximar, a saúde digital pode, assim, aprofundar assimetrias que já eram estruturais.

Os dados da Comissão Europeia mostram que Portugal está entre os países com níveis mais baixos de literacia digital na Europa. E, no entanto, políticas públicas e investimentos privados continuam a avançar com soluções digitais sem garantir previamente a inclusão de todos os cidadãos. É um paradoxo: investimos milhões em inteligência artificial para interpretar exames com precisão sobre-humana, mas esquecemo-nos de que há doentes que nem conseguem marcar uma consulta online.

Não se trata de questionar os benefícios da inovação. Eles existem e são inegáveis. A telemedicina, por exemplo, tem reduzido tempos de espera, aliviado pressões em hospitais e permitido o acesso a cuidados especializados em zonas remotas. Aplicações móveis permitem o acompanhamento contínuo de doentes com doenças crónicas, gerando alertas precoces e evitando descompensações. A inteligência artificial, bem aplicada, pode mesmo salvar vidas.

Mas a equidade não é um luxo. É um princípio estruturante de qualquer sistema de saúde que se pretenda justo. Se as ferramentas digitais não forem desenhadas com esta realidade em mente, corremos o risco de criar um sistema a duas velocidades: um para os digitalmente incluídos, eficiente e moderno, e outro para os excluídos, cada vez mais marginalizado.

A questão que se impõe é: a quem serve a inovação? Um sistema de saúde verdadeiramente centrado no doente não pode ser indiferente ao contexto social e económico de quem o utiliza. Um idoso isolado num concelho do interior, sem apoio familiar ou literacia digital, tem tanto direito a cuidados de saúde dignos quanto um jovem urbano com acesso a fibra ótica. A tecnologia deve adaptar-se às pessoas e não o contrário.

Há caminhos possíveis. Um deles passa pela criação de mediadores digitais nas unidades de saúde – profissionais capacitados para apoiar os doentes no acesso às plataformas e aplicações. Outro é garantir que qualquer solução digital seja acompanhada por canais alternativos de acesso, como telefone fixo ou atendimento presencial. Também é urgente reforçar programas de literacia digital dirigidos a populações vulneráveis, integrando esta componente nos cuidados primários.

Mais do que nunca, é preciso que os decisores políticos, os desenvolvedores de tecnologia e os profissionais de saúde dialoguem entre si – e, sobretudo, escutem os doentes. A digitalização não pode ser apenas uma prioridade técnica; tem de ser uma prioridade ética. E isso implica perguntar, sistematicamente: quem está a ser deixado de fora?

Portugal tem uma história de inovação em saúde, mas também um compromisso com a universalidade dos cuidados. Este equilíbrio é agora posto à prova. Não basta digitalizar; é preciso incluir. E incluir significa reconhecer que o acesso à saúde não pode depender do tipo de telemóvel que se tem no bolso, ou sequer da capacidade de o usar.

Porque no final, a saúde digital não será verdadeiramente um progresso se, ao acelerar o sistema, deixar parte da população para trás. A medicina é, antes de tudo, um ato humano. E não há algoritmo que substitua a justiça de garantir que todos têm lugar na clínica, mesmo que essa clínica agora esteja do outro lado de um ecrã.