Há 51 anos, no epicentro de uma cidade que perpetua a voz do “politicamente incorrecto”, uma outra “pandemia” emergiu. Uma “praga” que aproximou os estudantes, e não só, de Coimbra, fossem eles de esquerda, de direita liberal, do centro, de coisa alguma ou de outra coisa qualquer. Uniram-se, é o que importa. Foi o despoletar da voz de uma família académica amordaçada por uma “pandemia” rígida e cega a adversidades, cuja “vacina”, privada até então nos armários blindados da polícia política, começou a despontar na manhã de 17 de Abril de 1969, bem no alto do cosmos académico coimbrão. Era somente o início daquilo que viria a suceder cinco anos mais tarde: é inequívoco.

Há 51 anos, o farol da liberdade acendia-se em Coimbra, perante um ensino superior gasto, podre, cheio de “vícios” e faminto de valores que oferecessem um futuro capaz aos alunos de uma universidade que albergou e desenvolveu, em tempos idos, ideais pouco conhecidos por cá, estimulados, em convívios tertulianos, pela “embagaçada”, mas muito sensata — a confirmar nos atribulados tradicionalismos em que a farra e a Queima das Fitas ecoavam mais alto –, Geração de 70. Adiante.

Foi em 1969 que Alberto Martins, à época Presidente da Direcção Geral da Associação Académica de Coimbra, audaz, marcou presença, naquela manhã de 17 de Abril de 1969, na inauguração do novo edifício das Matemáticas, tendo solicitado, sensivelmente na recta final da cerimónia, e perante a rija (e algo nérvea) presença do Presidente da República Américo Tomás, a palavra, na qualidade de representante máximo dos estudantes de Coimbra. A mesma acabou por lhe ser negada, tendo sido nessa mesma noite preso pela PIDE. A revolta acabou por ser geral, à qual se juntaram os cidadãos da cidade, solidários com a posição arrojada e hereditária dos seus estudantes. Coimbra, em Estado de Sítio, “vivia o ambiente emprestado por Saigão”, como então afirmavam.

O regime titubeou, e o país ficou a conhecer – particularmente na final da Taça de Portugal desse ano, entre a Académica e o Benfica — a bravura de uns quantos estudantes que, em prol de uma “vacina” anti-regime, não se amedrontou perante uns PIDE`s reumáticos, tísicos e socialmente carentes, tendo em conta o aglomerado de tempo que os jovens de Coimbra lhes saqueava por causa dos ideais libertinos que defendiam — que mais tarde ou mais cedo sairiam triunfantes –, apenas por mesquinhez de um regime tão apodrecido como aquela gente que, nos tempos que vivemos, procuram, encarnando abutres famintos, sem mágoa, tirar proveito próprio de uma conjuntura epidémica não menos ditatorial e intransigente no que à liberdade diz respeito.

A luta de hoje é distinta daquela que, há 51 anos, foi levada avante pela generalidade da massa estudantil da Universidade de Coimbra. Não obstante, a coragem e a esperança, essas, são as mesmas, tal e qual como o “V” de vitória, que será erguido, “com toda a cagança, toda a pujança”, em breve, pá!