A pergunta é incómoda, mas legítima: como pôr fim a um modelo agrícola que, ao insistir em guardar água para regar arrozais, empurra a cidade de Alcácer do Sal para o fundo do rio Sado sempre que chove a sério e a maré sobe? A resposta não é simples, mas é clara: não se resolve com comunicados nem com promessas de “melhor articulação”. Resolve-se com decisões políticas duras, planeamento hidrológico e coragem para enfrentar interesses instalados.
O arroz é uma cultura intensiva em água, mantida no Vale do Sado por inércia histórica e subsídios. A solução passa por um programa público de reconversão para culturas menos dependentes de rega, como sequeiro melhorado, leguminosas, pastagens permanentes, agroflorestal. Não é um convite: é uma transição calendarizada, com compensações temporárias e fim anunciado para o arroz em zonas críticas de cheia.
Enquanto a gestão das barragens continuar a obedecer à lógica do “guardar agora para não faltar no verão”, a cidade ficará sempre em segundo plano. A hierarquia tem de mudar: primeiro, segurança de pessoas e património urbano; depois, usos agrícolas. Isso exige regras operacionais rígidas, automáticas, que obriguem a descargas preventivas antes de episódios de chuva intensa e maré alta. Sem margem para decisões de pânico em cima do acontecimento, como aconteceu.
A gestão da água no Sado está demasiado próxima dos interesses agrícolas que dela dependem. É preciso uma autoridade independente, com mandato claro de proteção civil e urbana, e com poderes sobre barragens e canais. Enquanto quem beneficia da água decidir quando a solta, o conflito de interesses continuará a produzir cheias anunciadas.
Sem dinheiro público, o arroz no Sado perde viabilidade. A Política Agrícola Comum permite condicionar apoios a critérios ambientais e de risco. Se uma exploração contribui para aumentar o risco de inundação urbana, não pode ser subsidiada. Simples. O mesmo vale para licenças de captação e armazenamento.
Nada disto acontece sem confronto. Os arrozais têm peso económico e influência local. Mas a alternativa é conhecida: lojas submersas, casas inundadas, seguros a disparar, prejuízos públicos repetidos. Continuar como está é escolher, conscientemente, que a cidade pague a fatura da obsessão agrícola pela água.
No fim, a questão não é técnica, é política. Ou o Estado decide que uma cidade não pode ser dano colateral de arrozais, ou aceita que Alcácer do Sal continue a afundar sempre que o céu se abre. O resto é conversa de barragem cheia.