A grande discussão atualmente em curso na Dieta, o parlamento japonês, é sobre a Proposta de Lei de Aumento [da admissão] de Trabalhadores Estrangeiros (外国人材拡大法案). A proposta é iniciativa do governo, que é dominado por um partido conservador, o Partido Liberal Democrata, e é liderado por Abe Shinzo 安倍晋三, um popular líder populista da direita radical.

O argumento apresentado pelo governo para a necessidade desta lei é o da grave falta de mão-de-obra em alguns sectores económicos, como o agrícola, recolha e tratamento de detritos e a construção civil. Isto, alega o governo, está a causar sérios estrangulamentos na atividade das empresas destes sectores, e a impedir um mais rápido crescimento da economia nacional. Argumento que não espanta de um partido tradicionalmente associado aos interesses das empresas e do grande capital.

Fortemente contra esta lei estão os partidos de esquerda, especialmente o Partido Democrático Constitucional, mas também o pequeno Partido Comunista local. Porquê? Porque a admissão de grandes números de trabalhadores estrangeiros (o governo propõe um contingente de um pouco mais de 340 mil migrantes temporários, num país com uma população de cerca 128 milhões) irá tirar emprego a trabalhadores japoneses, deprimir os seus salários, e por em causa a coesão social e homogeneidade cultural que fazem do Japão o país especial que é. Argumento natural em forças políticas de esquerda, que dizem defender os interesses dos trabalhadores e classes menos favorecidas.

Das esquerdas de todo o mundo? Não. Curiosamente na Europa e Estados Unidos as posições estão invertidas: são os radicais de direita que querem limitar a imigração, assim protegendo o emprego e os salários dos trabalhadores autóctones menos qualificados, e são as esquerdas que querem abrir as portas do inferno capitalista às massas do terceiro mundo, em vez de lhes recomendar que vão para a Venezuela ou Cuba, para a China ou Kimlândia, uma política que cria pressão nos salários ao mesmo tempo que potencia os lucros do capital. Já no século 16, o Padre Luís Fróis (1532—1597) relatava, no seu Tratado das Contradições e Diferenças de Costumes Entre a Europa e o Japão, que os japoneses fazem tudo ao contrário de nós. Parece que esta contradição civilizacional ainda se vai mantendo, mas fica a dúvida: qual é a esquerda que está de pernas-para-o-ar? A nossa, ou a deles?