1 A questão de fundo: o “eclipse” do Cristianismo
O Cristianismo construiu a civilização ocidental; todo o nosso legado espiritual, moral, transcendente; todo o nosso património intelectual, científico, jurídico, artístico, monumental, humanitário, educacional… foi construído tendo por base os valores do Cristianismo. Também os conceitos de pessoa e família, tradição e bem comum; as noções de poder e autoridade, amor e sabedoria, paixões e sentimentos; as nossas alegrias e tristezas, vícios e virtudes, os nossos segredos… todas as realidades humanas (e transcendentes) que fazem parte da nossa existência foram geradas no seio do Cristianismo. As sociedades não podem sobreviver sem uma religião, sem uma fé que as sustente; a religião constitui, assim, uma espécie de princípio vital, de “cimento”, uma base moral colectiva da qual se gera uma identidade própria, um sentimento de pertença, uma experiência compartilhada. Tal, quer dizer que todos devem participar nos cultos religiosos, e acreditar nas práticas e dogmas católicos? Não! Tal quer dizer que todos, crentes e não crentes, com sensibilidades e projectos de vida diferentes podem, ainda assim, reconhecer-se num conjunto básico de valores comuns; quer dizer que todos se podem reconhecer numa tradição cultural, moral, religiosa, comum, a qual, ao vertebrar a vida comunitária, dá-lhe coesão, equilíbrio e unidade.
Lamentavelmente, as sociedades contemporâneas são o exemplo puro e duro do estado de caos generalizado que se instala quando lhes falta o fundante estruturador de uma tradição religiosa. As civilizações foram fundadas pelas religiões e desapareceram quando estas desapareceram. Esta frase não é, para mal dos nossos pecados, uma opinião; é um facto histórico! Os poderes deste mundo parecem, contudo, ignorar esta realidade e, sob o pretexto de bandeiras como a igualdade, liberdade, diversidade, inclusão, autodeterminação, equidistância religiosa… retiraram-na das escolas, dos manuais, das instituições públicas, das artes, da media, do espaço público… e a prazo foi desaparecendo, até, do seio da própria vida familiar. O resultado está à vista. Diz-nos o milenar saber Evangélico que “apenas quem sabe de onde vem pode saber para onde vai”.
2 A questão fundamental: a decomposição da Instituição Familiar
A família, com todos os seus defeitos e limitações é, ainda assim, a instituição natural que desde sempre, desde que o homem é homem, tem sido o pilar que dá coesão, consistência e estabilidade às comunidades humanas; a família constrói-se em torno de uma profunda rede de afetos, de valores e ideais comuns; ela une gerações e assegura a transmissão de um património moral, cultural e espiritual. Lamentavelmente, o veneno, frequentemente adocicado das ideologias modernas (Relativismo, Ideologia de Género, Hiper Individualismo…) eleva os princípios da autodeterminação e da liberdade individual, a autêntico valor supremo. E qual o impacto na Família? A família, injustamente acusada de espaço de opressão, de “patriarcado tóxico”, de autoritarismo e até de violência (como se os venenos que poluem a água do mar nos dessem legitimidade para concluir que o mar é, afinal, algo de mau) vai, com a cumplicidade dos governantes de turno… sendo submetida a um verdadeiro processo de atomização e decomposição crescente, com consequências verdadeiramente devastadoras: a mentalidade do divórcio perfeitamente assumida e normalizada (frequentemente, promovida); novas e criativas fórmulas combinatórias humanas, negadas à transmissão da vida; casamentos descartáveis, desfeitos em modo “express”, lares destruídos sob qualquer pretexto, crianças “fardo”, abandonadas, negligenciadas, instrumentalizadas pelos cônjuges e transformadas em autêntica carne de consultório psiquiátrico.
Claro que as pessoas que se veem envolvidas em processos, frequentemente dolorosos, de reconstrução familiar… devem ser acolhidas, respeitadas e apoiadas. Tal não quer dizer, contudo, que tudo seja admissível, aceitável; que tudo seja equivalente, igual, neutro; tal não quer dizer, contudo, que o espírito de compromisso e abnegação, que deve ser o sustentáculo vertebrador de qualquer relacionamento amoroso, passe a ser, frequentemente, mero “contrato” temporário ao sabor de interesses meramente circunstanciais. A família vai, assim, deixando de existir como tal e tende a transformar-se num mero aglomerado humano, em risco de permanente desagregação, fragmentada, sem autoridade, sem tradição, sem futuro.
Todo este dramático quadro de desestruturação familiar reflecte-se, inevitavelmente, na massacrada instituição escolar, cada vez mais, um depósito de crianças deprimidas, ansiosas, confusas, agressivas; sem regras, sem limites; e “sem pais”, supostamente, os primeiros educadores. Frequentemente, mais vezes do que menos, a família vê-se transformada em verdadeiro campo de batalha verbal (e não só…), onde se torna praticamente impossível transmitir os fundamentos básicos da vida em sociedade: no seio da própria família, no grupo de amigos, no desporto, no namoro, no casamento; na escola, com os professores, com os funcionários, com os colegas. Frequentemente, mais vezes do que menos, os pais e encarregados de educação (quando não são substituídos por avós, tios, irmã mais velha), ainda que não se coloque em causa a sua preocupação e amor pelos filhos, não têm qualquer ideia, qualquer ideia… de como os devem educar: acompanhar, responsabilizar, saber ouvir, saber dizer “não”, saber ensinar, corrigir, disciplinar. Tarefas particularmente decisivas em tempos de grande incerteza; em tempos de grande complexidade social, de grandes perigos e desafios, de grandes e rápidas transformações locais e globais… e onde, perversamente, o errado, o feio, e o mal estão muitas vezes identificados como sendo o certo, o belo e o bem.
O resultado está à vista e, para quem “anda pelas escolas”, sabe perfeitamente que esta “realidade”, apesar do discurso político estar totalmente alienado da realidade, se está a generalizar. É por demais evidente que o processo voluntário e concertado de desmantelamento da instituição familiar é a Causa da crise e não, a Consequência (pelo facto da Família, para muitos alvo a abater, ainda existir)! Longe de ser perfeita, a família é, ainda assim, o local onde é possível a transmissão de uma visão de mundo abrangente, integral, coerente e amorosa.
3 A questão transversal: a decadência da Educação
Como afirmava Leibniz, «o dono da educação é o dono do mundo». A Educação sempre foi considerada o grande desígnio de povos e nações; ela atravessa, face ao já referido anteriormente, um inevitável processo de degradação, aparentemente imparável. E tal vai acontecendo, paradoxalmente, em tempos de rápido e fácil acesso à informação, em tempos de rápido e fácil acesso ao inabarcável mundo das novas tecnologias; em tempos de democratização do ensino e da escolaridade mínima obrigatória, em tempos de multiplicação de medidas e programas vários de Ação Social Escolar, em tempos de acompanhamento psicológico e respectiva multiplicidade de medidas para alunos com necessidades educativas especiais, em tempos de medidas de apoio pedagógico e adaptações curriculares; em tempos de acesso generalizado ao Ensino Superior, e aos inúmeros programas e plataformas de informação, formação, graduação, pós-graduação, estágios, quer seja em modo remoto, presencial, híbrido; em tempos de acesso fácil e generalizado a milhares de cursos e plataformas disponíveis online, etc, etc, etc.
Porquê, então, este generalizado descalabro? As razões serão certamente múltiplas e complexas; reflictamos sobre alguns aspectos que nos parecem relevantes. A Escola sempre foi sinónimo de promoção do saber e do conhecimento. Contudo, a partir das últimas décadas as escolas começaram a ter uma função de “engenharia social” procurando, alegadamente, eliminar desigualdades, denunciar arbitrariedades e combater injustiças de uma sociedade injusta, desigual, elitista, hierarquizada.Todas estas intenções são intrinsecamente boas e, à partida, desejáveis. Mas elas não podem, contudo, sobrepor-se ao fim último da educação; elas não podem prevalecer sobre a função primordial da educação que é, por definição, a promoção do saber e do conhecimento. Claro que podemos (e devemos) adaptar currículos, horários, programas, facilitar condições de acesso, suprir (ou pelo menos minimizar) injustiças, desigualdades, etc. Mas não podemos ignorar e “destruir” a essência da educação; sob pena de assistirmos à progressiva degradação do ensino, no qual ninguém acaba, finalmente, por beneficiar. Isto é, nem se consegue promover a igualdade de maneira consistente e coerente, nem se consegue promover a busca pelo saber e pelo conhecimento, sem o qual, a prazo, temos uma sociedade de gente ignorante, acrítica, formatada pela media, pelas banalidades televisivas, pelos seus slogans e clichés; gente explorada, manipulada, “adormecida” (a pensar que é livre) e, finalmente, pobre, ignorada e descartável. O resultado está à vista.
Outro facto relevante é que a escola moderna prioriza de uma forma exacerbada e desequilibrada a formação técnica e prática, com vista à obtenção do rápido sucesso no mercado de trabalho (será que devo aprender mandarim, apenas para garantir trabalho no futuro?). Mas a educação integral, que procura a aquisição do saber e do conhecimento é, contudo, muito mais do a mera aquisição de informação, técnicas e competências. Todas as disciplinas que nos “alimentam o espírito” (História, Literatura, Poesia, Filosofia, Artes, Música, Teatro, Cinema) e nos conectam e unem ao nosso legado cultural, ao nosso passado, à nossa tradição são sistematicamente desvalorizadas em detrimento dos saberes de natureza prática. Tudo isto é um sinal inequívoco de uma educação tendencialmente materialista, pragmática e predominantemente utilitária, que corre o sério risco de afastar o aluno do ensino das virtudes, do mérito e da responsabilidade pessoal; corre o risco de estar a formar alunos de horizontes reduzidos, incompletos, redutores cuja preocupação é a mera satisfação dos seus interesses e projectos pessoais (ainda que legítimos). Tudo isto ocorre, por sua vez, perante a passividade de uma sociedade, cada vez mais “formada” (e formatada) no caldo destes novos paradigmas culturais (nas quais, se incluem estas tendências educativas referidas). E, também por isso, uma sociedade tendencialmente mais individualista, mais dividida, desligada, sem referências, sem sentido crítico (ou, pelo menos, muito selectivo), sem interesse pelo passado, pela história, pela sua dimensão transcendente, pela religião, pelo próximo, pelo busca do bem comum. O Homem é um ser estruturalmente religioso; retirar, ignorar esta dimensão da experiência humana é amputar o Homem de uma das suas dimensões mais importantes.
Por outro lado, várias tendências das actuais pedagogias têm-se revelado muito redutoras: o foco no grupo e não na criança; o foco no “processo”, na dimensão lúdica, no jogo, nas metodologias activas; o culto da experiência (quanto mais melhor). Ou seja, sobrepõem-se as técnicas e estratégias de ensino aos conteúdos propriamente ditos; exacerba-se a “experiência”, em detrimento dos conteúdos mais clássicos e tradicionais. Na Educação, devemos ser conservadores ou revolucionários? Hannah Arendt ( filósofa política alemã, de origem judaica; uma das “cabeças” mais influentes do século XX) defende que tem de se ser conservador na educação. Educar é conservar, é preservar, é transmitir uma tradição, um legado.
Por outro lado, ainda, o “aprender fazendo” (learn by doing) é outra das prioridades das actuais pedagogias. É uma “ferramenta” pedagógica útil e importante, mas não pode ser vivida de forma absoluta ao ponto de impedir a criança de uma certa atitude de contemplação (continua, Hannah Arendt) e busca por valores mais elevados, por um certo cultivar da vida do espírito, pela procura do bem, da beleza, tão decisivos no processo de Ensino-Aprendizagem. Exacerbar o “aprender fazendo” é optar por uma abordagem incompleta, parcial, redutora que reduz muito a experiência de ensino.
Finalmente, é evidente na Educação uma Crise da Autoridade. O professor, cada vez menos, é reconhecido como alguém com autoridade dentro da “sala de aula”, como alguém detentor do saber e do conhecimento; o professor é, cada vez mais, visto como “um igual”, como um mero mediador e facilitador das aprendizagens, uma espécie de animador. Ou seja, o professor já não é, dentro da sala de aula, a referência do saber e do conhecimento; circunstância que obviamente diminui a sua relevância, a sua autoridade, a sua importância… potenciando todas as situações gritantes de desordem, rebeldia e indisciplina com que, nas escolas, nos confrontamos diariamente. O resultado está à vista.
4 A questão instrumental: o fascínio pela Tecnologia
A Tecnologia invadiu, literalmente, a nossa vida. E ainda que consideremos os seus benefícios e vantagens, ela não se pode transformar numa obsessão, não pode ser acolhida de forma cega e acrítica, e muito menos elevada a valor absoluto. Torna-se acessível, felizmente, informação credível, consistente (e preocupante) que nos alerta para o impacto pernicioso que a mesma, quando o seu uso é feito sem regras, sem limites, sem critérios… exerce sobre o nosso cérebro, sobre a nossa capacidade de memória, sobre os nossos recursos associativos, sobre a nossa capacidade de transmitir e assimilar, saber e conhecimento.
O galardoado psiquiatra e neurocientista Manfred Spitzer, por exemplo, no seu livro “Demência digital”, mostra-nos o efeito destructivo que as novas tecnologias exercem sobre o nosso cérebro (ou o que dele resta…). Os neurónios, refere o autor, são equivalentes aos músculos; precisam de treino para ficarem fortes, operacionais, para reagirem a situações difíceis e inesperadas. O mundo mágico, hipnotizante, viciante… e de “facilidades”, oferecido por esta autêntica invasão tecnológica, sem limites e fruto de elaborada e irresistível propaganda… tem um impacto muito negativo no nosso cérebro; os neurónios passam a “trabalhar menos”, são menos solicitados, são menos estimulados e, tal como os músculos inactivos, vão atrofiando, perdem funcionalidade, resistência, e “lesionam-se” mais facilmente. Spitzer vai mais longe e garante que “a obsessão tecnológica é incompatível com uma verdadeira aprendizagem, a qual, só pode alcançar-se através de sinapses nervosas que processam o conhecimento, coisa que a tecnologia reduz ao diminuir, precisamente, a “necessidade” de profundidade desse processamento”. A todo este preocupante quadro, alerta o autor, junta-se o impacto negativo (e já mensurável) ao nível das “dependências desintegradoras da personalidade”, bem como de outros transtornos neurológicos, tais como a ansiedade, a hiperactividade, o déficit de atenção, a insónia, etc. Este processo reduz, ainda, a nossa capacidade de memória, de concentração e atenção, e a nossa tendência à dispersão. Ora, não é precisamente este quadro que reproduz com elevada precisão o aluno e filho, padrão, da nossa Escola e Família, actuais? O resultado está à vista.
5 A questão democrática: a crise da Democracia
Finalmente, a degradação da Democracia é uma evidência, ela manifesta-se a pleno céu aberto, diante dos nossos olhos; os “números oficiais” confirmam-no. A Democracia enfrenta as dificuldades, ameaças e desafios inerentes à complexidade do mundo moderno mas o seu principal desafio, contudo, está dentro de si mesma, está relacionado com a sua própria natureza. Quer isto dizer exactamente o quê? De acordo com J. Seabra “a democracia para funcionar precisa de se basear em princípios que ela não é capaz de gerar pelos seus próprios processos democráticos”. Este é o grande problema e, simultaneamente, o grande paradoxo da Democracia. Quando a democracia ignora este princípio estruturador arrisca-se a cair nas mãos das massas que, como nos alertam autores importantes (como Pio XII, por exemplo) é o pior inimigo da verdadeira democracia. A vida democrática exige, então, que haja consensos anteriores à expressão da vontade comum, os quais não podem estar sujeitos à opinião da maioria. Lamentavelmente, as actuais democracias modernas, liberais… assumem a tendência geral (e também por isso estão em decadência) em reduzir o seu exercício a um mero processo de apuramento da vontade popular estabelecendo, a partir da mesma, uma relação directa (e absurda) entre o bem comum e a vontade da maioria. E este tem sido um enorme erro. A vida democrática exige, por isso, que haja consensos anteriores à expressão da vontade comum, os quais não podem estar sujeitos à opinião da maioria. Não é possível sujeitar todas as coisas à votação democrática e, como no diz J. Seabra, “se em nome da democracia, não aceitamos isto, elevando o processo de decisão maioritária a único valor absoluto, então estamos a pôr em perigo a verdadeira convivência democrática”.
Haverá motivos de esperança? Sim, o Cristianismo está a renascer a Ocidente.