João Cotrim Figueiredo pode e deve sonhar, pelo menos, com a passagem à segunda volta. Conforme salientei em artigo recente, perante um cenário de acentuada fragamentação e sem candidatos fortes, o objectivo de passar à segunda volta é para Cotrim difícil mas alcançável. Dois dados dos últimos dias reforçam que o caminho de Cotrim para a segunda volta é estreito mas passível de ser percorrido, assim haja habilidade para a condução da campanha e as circunstâncias se continuem a conjugar favoravelmente.

O primeiro dado é a sondagem da Pitagórica para o JN, TSF, TVI e CNN que aponta um empate técnico entre Gouveia e Melo e Marques Mendes, com António José Seguro no terceiro lugar com 17,4%, André Ventura no quarto lugar com 14,7% e João Cotrim Figueiredo na quinta posição com 12,6%. Além de ter a maior subida, Cotrim estaria neste cenário a pouco mais de oito pontos percentuais de garantir a passagem à segunda volta, uma margem de crescimento perfeitamente alcançável.

O segundo dado, porventura mais fiável como indicador de percepções e estimativas agregadas do que uma sondagem nos dias que correm, são as probabilidades de vitória implícitas no mercado de apostas Polymarket para as eleições presidenciais em Portugal. No momento em que escrevo este artigo, Cotrim ultrapassou Seguro e é agora estimado como sendo o quarto candidato com maior probabilidade de vencer as presidenciais, a escassa distância de André Ventura. Depois de muito tempo com valores entre 1% e 2%, Cotrim atinge agora os 7% de probabilidade de vitória, acima dos 5% de Seguro e a escassa distância dos 8% de André Ventura (sendo que Gouveia e Melo e Marques Mendes são neste momento os claros favoritos com cerca de 40% de probabilidade de vitória cada um). A probabilidade de vitória relativamente baixa para Ventura explica-se pela sua elevada taxa de rejeição, que faz com que em caso de passagem à segunda volta as suas possibilidades de vitória sejam neste momento muito reduzidas. Já para Cotrim, a grande dificuldade será mesmo passar à segunda volta, cenário em que seria bem mais competitivo do que Ventura fosse qual fosse o opositor.

Cotrim tem adicionalmente vindo a colecionar um conjunto interessante de apoios, com destaque, também nos últimos dias, para o antigo vice-presidente do Tribunal Constitucional Gonçalo Almeida Ribeiro, que declarou assertivamente:

“É o único candidato que se situa no delicado ponto de equilíbrio entre independência e experiência política. Tem a independência de quem teve uma vida profissional intensa e diversificada e surge com a experiência de quem desempenhou funções políticas de importância assinalável. É um homem de carácter, apto a desempenhar a função moderadora, reguladora e pacificadora que compete ao Presidente da República no nosso sistema constitucional, para além de ter um espírito reformista e um temperamento optimista, o que o levará a usar o seu capital de influência para inspirar a acção política necessária para a resolução dos problemas estruturais do país. Tem uma sensibilidade ideológica que o previne contra a tentação de uma subversão caudilhista do sistema de governo.”

A ideia de que Cotrim é o único candidato no desejável ponto de equilíbrio entre independência e experiência política é particularmente forte, até porque há perfis de experiência política que mais parecem cadastro político. Importa no entanto não ignorar que tanto a candidatura como o candidato têm algumas limitações importantes. Desde logo por Cotrim ser sucessivamente candidato a múltiplos cargos políticos num intervalo de tempo relativamente curto. Mas também por traços de excessivo narcisismo – uma característica que está longe de ser rara em políticos mas que pode ser particularmente debilitante para quem corre a partir de trás. Sem esquecer que no contexto da IL nem sempre Cotrim teve a conduta mais abonatória, com destaque para as infelizes e inoportunas declarações após as últimas legislativas nas quais classificou o melhor resultado de sempre da IL em legislativas – obtido sob a liderança de Rui Rocha – como “insuficiente”. Mas estas são, apesar de tudo, fraquezas comparativamente ligeiras quando se compara Cotrim com os restantes candidatos nestas presidenciais.

O estreito caminho para a segunda volta exigirá que Cotrim se consiga afirmar perante o eleitorado de centro-direita e direita como o candidato mais equilibrado e credível – uma tarefa que está perfeitamente ao seu alcance. Como se tem visto, Marques Mendes está longe (mesmo muito longe) de ser consensual mesmo dentro do PSD e Cotrim deve aproveitar isso mesmo. Muitos eleitores de centro-direita e direita procuram um perfil presidencial que possa combinar bem com um eventual regresso de Pedro Passos Coelho à política activa. Marques Mendes não tem obviamente esse perfil, como o não apoio de Passos claramente demonstra. Cotrim deve apostar tudo em assumir esse perfil e ocupar esse espaço político.