Na entrevista do Primeiro-Ministro António Costa à Rádio Observador, fica claro que é um hábil comunicador e estratega político, mas também, que em relação ao combate à Covid, apesar de já ter melhorado alguns aspectos da sua estratégia, continua sem perceber que é fundamental proteger a saúde pública para ter a economia a funcionar com normalidade.

Mais do que nunca, esta passagem de ano deveria encarnar o ditado popular “Ano Novo, Vida Nova”, mas nas palavras do PM nesta entrevista, em lado nenhum se ouviu a ideia de Ano Novo, Estratégia Nova.

O momento em que defende que a passagem de ano será feita com as mesmas restrições que actualmente vivemos, incluindo o recolher obrigatório a partir de uma determinada hora, é o reconhecimento da sua incapacidade de implementar uma solução que liberte a sociedade para o já tão falado, Novo Normal.

Veja-se o que fizeram países como o Uruguai ou a Eslováquia, o primeiro desde o início da pandemia, que sempre conseguiu manter o número de novos casos em níveis muito baixos, e o segundo, que quando se apercebeu que estava a ter um elevado número de novos casos, implementou uma estratégia de testagem massiva, identificando e rastreando os surtos em comunidade, levando ao baixar dos números.

É fundamental ter a situação epidemiológica controlada ou resolvida para que as pessoas possam trabalhar, para que os negócios possam de novo funcionar, para que a vida volte ao Novo Normal. As consequências são sociais e económicas, mas também de saúde, porque por não termos acesso a outros cuidados de saúde, aumenta a mortalidade não Covid.

Desde logo, era importante que as actuais restrições servissem para baixar os contágios, chegarmos a finais de Dezembro com a situação epidemiológica controlada, termos a economia a funcionar de novo e podermos todos ter um Natal e uma passagem de ano semi-normais.

Se até se aceita que o sucesso dos países asiáticos esteja relacionado com culturas muito diferentes, é difícil acreditar, por exemplo, que o Uruguai e o Quénia tenham conseguido dominar o vírus devido à disciplina dos seus povos. A verdade é que teve tudo a ver com boas políticas e boa comunicação, algo que em Portugal está a falhar.

Há que promover uma coerência de comunicação e focar no essencial, baseado em evidências científicas, com explicações claras, pedagógicas e transparentes, para evitar o cansaço de grande parte da população em relação às medidas a implementar. As medidas incoerentes (F1 vs futebol; Avante vs festivais) levam à desresponsabilização e aleatoriedade nas decisões individuais das medidas a tomar e à promoção do discurso dos negacionistas.

A DGS tem de alimentar a comunicação social, por exemplo, com conteúdos vídeo mais educativos e é preciso informar regularmente as pessoas das origens das infecções, justificando assim as medidas a implementar. Compreendendo-se as origens, devem ser seleccionadas as medidas a impor à população que tenham o maior efeito na redução de contágios, comunicadas de forma clara e exaustiva, pelos canais certos, e que provoquem os menores impactos possíveis sócio-económicos.

As pessoas têm de perceber quais é que são as medidas básicas que têm de cumprir: a etiqueta respiratória (espirrar para o braço ou para o cotovelo), higiene das mãos, utilização da máscara, evitar zonas sobrelotadas, e tem de ficar claro para todos porque é que os números de novos casos subiram tanto nesta segunda vaga.

A reavaliação dos critérios que justificam maiores restrições por concelho deveria ser feita semanalmente em vez de quinzenalmente (há uma dinâmica muito mais rápida dos números) e as recomendações deveriam ser específicas em função da prevalência no momento, com directrizes claras dos comportamentos que as pessoas e famílias devem ter, explicando a sua importância para a redução de contágios, bem como as suas consequências económicas.

O plano (interno da DGS) deveria ter bem presente o benefício na redução da taxa de reprodução de cada medida restritiva, evitando gastar energias onde não é necessário e apostar nas medidas que realmente têm impacto. As medidas só devem ser implementadas se tivermos dados que nos dêem alguma segurança nos resultados da sua implementação. Mais do que medidas localizadas em termos geográficos, têm de ser medidas que sejam direccionadas ao motivo pelo qual as pessoas se estão a infectar.

Em situações de elevada prevalência, estas são as três recomendações mais importantes:

  1. Evitar estar com outras pessoas fora da bolha familiar, sem ser de máscara. Havendo visitas, garantir a ventilação dos espaços e usar máscara todo o tempo;
  2. Refeições fora de casa, no exterior ou em restaurantes com boa ventilação dos espaços. À mesa não conversar sem ser de máscara, separando a refeição das conversas. Eventualmente, em trabalho, ponderar almoçar sozinho.
  3. Com a restrição #2, avaliar se vale a pena fazer reuniões familiares ou de amigos. Se não for possível, adiar para quando a prevalência descer.

Por exemplo, os restaurantes que consigam ter condições para trabalhar à noite em modo de explanada (com aquecedores a gás no exterior), ou mesmo os que consigam criar ambiente de pressão negativa por extracção de ar, promovem uma redução de probabilidade de se gerarem contágios nas suas instalações, devendo, por isso, ser-lhes permitido funcionar.

Outro aspecto importante deveria ser o de alargar as equipas de rastreio epidemiológico (recorrendo, eventualmente, aos desempregados ou às Forças Armadas, como na Alemanha) para manter as pessoas suspeitas de infecção em monitorização e fazer com que sejam todas testadas.

No entanto, não é só a quantidade de rastreio que conta, mas a qualidade, ou seja, mesmo com muitos infectados por dia, será possível ver na floresta onde estão as deflagrações com crescimento de grande escala. Concentrar os recursos para identificar rapidamente essas pessoas, pode ser o suficiente para travar o crescimento global, mesmo com um mau rastreamento dos outros casos.

É que esta pandemia não funciona com um “R” simples, pois há um factor adicional de dispersão “k”, muito importante e muito bem explicado neste artigo. O impacto disto pode ser muito importante em países com meios de rastreio deficientes como Portugal. Se o “R” varia muito entre contagiosos, sendo que, por hipótese, 10% deles representam um “R” de 7 ou 8 e os outros 1, então conta mais a qualidade do que a quantidade de rastreio.

Se isto fosse combinado com as outras medidas também aqui referidas, com grande impacto e com boa comunicação, poderia eventualmente ser suficiente para travarmos a pandemia. Não será por acaso que a Coreia do Sul já teve um par de grandes surtos e os dominou.

É crítico, também, implementar um plano para os próximos meses, que articule o rastreamento com a capacidade de testagem, incluindo a exigência de testes negativos para entrada no país.

Para evitar a tomada de medidas restritivas, fechar a economia e aumentar ainda mais a recessão, a DGS e o Governo podiam promover testagem massiva, e assim detectar todos os casos de contágio. Se queremos resolver o problema e canalizar a energia para onde devíamos, exige-se que a DGS e o Governo separem os contagiados e contagiantes dos outros, todos os que estão saudáveis, e faça testes nas fronteiras para que novos contaminados não entrem sem detecção.

A Madeira por exemplo, exige que todos sejam testados à entrada e, por isso, tem a economia a funcionar e os madeirenses fazem uma vida quase totalmente normal. Se é possível parar toda a gente que passa na Ponte 25 de Abril ou na Ponte da Arrábida, para ver se podem mudar de concelho, então também é possível parar toda a gente na fronteira para testes rápidos, até porque agora há pouca gente a passar fronteiras. E ninguém pode falar nos custos, pois se gastamos 1700 milhões de euros para salvar a TAP, não são 10 milhões de euros em testes que o impedem. Há já soluções de testagem por saliva, com cromatografia e usando inteligência artificial, que dão resposta em segundos e custam cêntimos por teste.

Pelo menos as autarquias dos concelhos com mais prevalência poderiam avançar com testes rápidos, para testagem massiva, e o Governo poderia reunir com a ANA/VINCI para implementação de testes à chegada nos aeroportos, à imagem do que se está a fazer por essa Europa fora.

E assim podíamos voltar a ter toda a actividade económica a funcionar normalmente, controlando as entradas no país e, no limite, sem precisar de máscaras… só para quem quisesse ou tivesse de as utilizar por motivos de prescrição.

Agora, que parece que as vacinas estão aí ao virar da esquina, ainda não podemos baixar a guarda, até porque há incertezas quanto aos timings da distribuição e quanto à altura a partir da qual as vacinas, por sí só, serão suficientes para alcançar os efeitos de imunidade pretendidos.

Por isso é preferível uma atitude prudente por via da testagem, que nos permita controlar a situação epidemiológica, a voltar a impor medidas restritivas. À terceira, as pessoas não aguentarão mais…

A verdade é que sem o vírus estar controlado, todos continuamos com receio e a actividade económica não prospera. Só protegendo a saúde pública é que protegemos a economia. Só os países que conseguiram a supressão do vírus (Japão, Coreia, Taiwan, Hong Kong, Uruguai, Quénia, etc.) é que já têm a economia a recuperar.

Basta haver vontade política e boa estratégia de saúde pública, que a situação pode resolver-se rapidamente e bem. Mas para isso, a nossa exigência com o Governo e com a DGS tem de ser mais qualitativa e não tanto quantitativa.

Temos, por isso, de exigir melhor do Governo, pois a situação actual é fruto da incapacidade de definir e implementar a estratégia correcta: no fim do confinamento da Primavera, a situação permitia-nos preparar muito melhor esta segunda vaga, mas o trabalho de casa não foi feito.

Num país em que nada se faz se não houver pressão da sociedade civil, em que a DGS, em vez de um centro de competências científicas, não é mais do que uma caixa de ressonância dos interesses de comunicação do Governo, é importante a sociedade civil contribuir.

Aqui fica o nosso contributo para um Ano Novo e uma Vida Nova…

Agradecimentos ao think tank informal “INFO | Covid-19” e ao Pedro Ribas de Araújo pelos seus contributos.