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A pandemia Covid 19 até se fez anunciar, mas entrou como um furacão nas nossas vidas. Para além daquilo que mais se tem falado – as questões de saúde pública, o profundo impacto nos serviços de saúde e na economia, na forma como vivemos e viveremos – outras reflexões igualmente relevantes se lhe podem associar.

1 – Habitualmente o tema da nossa mortalidade e finitude é ocultado, metido para debaixo do tapete, dele não se falando, na expectativa pueril de que a nós não nos toque. Como se não fizesse parte da vida, como se fosse algo obsceno a esconder. Um verdadeiro tabú.

Mas aquilo que habitualmente não queremos enfrentar, impôs-se ultimamente na nossa realidade sem pedir licença, e veio agora de forma escancarada fazer parte dos noticiários diários – tomaram-nos de assalto! Todos os dias ouvimos falar de números de mortos, ouvimos falar se sofrimento associado à doença, de pessoas vulneráveis e doentes – nomeadamente, de idosos pouco protegidos – e do impacto dessa realidade sobre as famílias, no luto e não só. Talvez possamos dizer que esta pandemia e o que temos vivido tão intensamente, cá dentro e noutros países, é como um amplificador do sofrimento humano, de realidades que nos negamos habitualmente a encarar, e agora os nossos olhos foram para elas abertos à força.

2 – Na altura em que escrevo, e a fazer fé nos dados que todos os dias nos chegam, desde o início da pandemia já morreram em Portugal mais de 600 pessoas devido ao Sars Cov-2, 30 por dia nos últimos tempos. Necessário é lembrar que em Portugal morrem habitualmente por ano cerca de 113000 pessoas (mais exactamente, e de acordo com a DGS, 113051 em 2018), o que pressupõe quase 10 000 pessoas por mês, cerca de 320 por dia. Quase 30% (11235) morrem por acidentes cerebro-vasculares (AVC’s), 28451 morrem por cancro e 13276 por afecções respiratórias, uma larga maioria destas seguramente porque são idosas, frágeis, com demência. A maioria dos portugueses, até os profissionais de saúde, ignora estes factos, que vão para além da frieza dos números, como o pode atestar cada família que perde o seu ente querido.

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3 – A realidade também nos mostra que em março último tivémos um aumento pouco explicado da mortalidade, que vai para além das mortes por COVID 19; também é verdade que há mais pessoas com doenças crónicas e graves que subitamente deixaram de comparecer nas urgências, consultas e internamentos dos hospitais. Essas pessoas devem preocupar-nos e muito,  – se estivermos com uma visão de médio-longo prazo – pois não desapareceram como por milagre, estão a carecer de atenção clínica, e poderão ver o seu estado muito agravado .

É verdade que nos temos concentrado, e bem, na necessidade de conter a pandemia e de evitar a rotura dos serviços de saúde, já de si depauperados em recursos humanos e meios. Mas a realidade de sofrimento e morte associados vai para além disso, impõe outras questões, igualmente relevantes em matéria de humanização de cuidados de saúde, de ponderação ética e de justiça, em matéria de planeamento e visão a médio-longo prazo.

Para todos os que são idosos frágeis – em suas casas, em lares ou equipamentos residenciais, em hospitais -, para todos os que têm doenças graves, para todos os milhares que morrem a cada ano em Portugal – com ou sem COVID-19 – impõe-se tratá-los devidamente, fazer chegar cuidados de saúde humanizados e de qualidade, para eles e para os seus.

4 – Os Cuidados Paliativos, enquanto cuidados de saúde especializados e que intervêm activamente no sofrimento decorrente de doenças avançadas – são necessários para pelo menos 70000 portugueses – acrescendo a estes as suas famílias. Intervêm ao longo de meses e anos, e não apenas nos últimos dias de vida. Enquanto verdadeiro Direito Humano que também são, nunca será demais gritar que em Portugal, nos nossos dias, não chegam infelizmente a mais de 30% dos que precisam, motivo maior de indignação e preocupação.

Agora que continuamos a ter o volume de óbitos a que aludi, a eles se juntando as cerca de 30 mortes diárias por COVID-19, vale a pena lembrar – como vários especialistas nacionais e internacionais prestigiados já o fizeram – que os profissionais de Cuidados Paliativos, pela preparação e especificidades que lhes são inerentes, têm também aqui um papel imprescindível. Do alívio de vários sintomas, que podem ser devidamente tratados para que a pessoa não esteja em sofrimento, ao apoio às decisões éticas complexas em fim de vida, ao apoio às familias e no luto, e também no apoio aos profissionais de saúde mais expostos aos casos de sofrimento. Numa altura em que reconhecidamente aumenta o campo de acção para os Cuidados Paliativos, torna-se preocupante constatar como, em equipas já de si sub-dimensionadas em termos de recursos humanos e meios, vemos um número importante desses profissionais ser desviado para tarefas de natureza bem distintas daquelas que constitui a sua mais valia. Incompreensível. E quem tratará então de todos os necessitados – os COVID e não COVID, as famílias fragilizadas e enlutadas, os profissionais em burn-out – todos eles igualmente vulneráveis e igualmente merecedores de assistência clínica adequada. Estamos perante o que chamamos a “manta-curta”: para tentar tapar a cabeça, destapam-se os pés, mas neste caso falamos de pessoas e de saúde. Onde estão então os responsáveis por boas decisões, eticamente fundamentadas e visando a verdadeira eficiência, bem distintas daquilo a que assistimos? Uma vez mais se denunciam, pois esta forma de actuar em nada se coaduna com reais necessidades e preocupações das populações, como comprovam histórias de doentes a morrer sózinhos e famílias desamparadas, sem acesso aos Cuidados que, por direito, deveriam ter, ainda mais nesta ocasião particulamente difícil e dolorosa, pelo isolamento dos doentes (COVID’s e não COVID’s).

5 – Esta crise pandémica embateu nos nossos serviços de saúde e de apoio social, pôs a nu as deficiências de sistemas impreparados para apoiar devidamente os mais frágeis na doença crónica e na terminalidade, pôs a nu a escassez de meios e planeamento, pôs a nu a fragilidade da articulação entre sectores de um mesmo sistema de saúde, que deveriam ser cooperantes se verdadeiramente centrados no cidadão e se se visasse a eficiência.

Precisamos inverter esta realidade, precisamos de fazer as escolhas certas e, de uma vez por todas, incluir os idosos, os que têm doenças graves e crónicas, os que estão a morrer, nas políticas de saúde. Que essa seja também uma lição desta dura pandemia. A bem da equidade em saúde, dos valores do Humanismo, da compaixão, do progresso da Ciência, temos que dizer a todos que a sua vida conta e que não deixaremos ninguém para trás, nem agora, nem no futuro.