1 Era eu jovem estudante ainda liceal sediado em Coimbra quando ouvi pela primeira vez falar em ecologia. O termo, na sua acepção actual, foi inventado por Fourier, a quem Marx logo chamou desdenhosamente socialista «utópico», porque desconfiava das realizações do progresso técnico, estádio indispensável para a chegada ao socialismo. A ecologia radical já vinha associada ao socialismo utópico francês e já Marx gozava com ela.

Logo a ecologia me despertou o maior interesse. Educado como fui no culto da natureza e do exercício físico ao ar livre (sem sucesso pelo que a este último toca, devo dizer, porque era com muita dificuldade que me levavam para passeatas de bicicleta, piqueniques nos saudosos pinhais do Monte Estoril, cheios de formigas e abelhas, e a banhos para as frias águas da praia da Azarujinha, ainda por cima cheias de algas), logo inquiri. Percebi desde muito cedo uma coisa que me pareceu essencial. Entre os ecologistas havia duas correntes muito diferentes.

Uma delas preocupava-se mais com a natureza e os animais do que com a pobreza, o desemprego e os excluídos, como se tudo deles dependesse. A natureza fazia de nova divindade prevalecendo sobre tudo e os homens eram os novos pecadores. Natureza e humanidade eram inimigas como se as duas pudessem ser vistas em separado. Esta posição, com que deparamos hoje, e mais forte do que nunca, é, salvo o devido respeito, uma demonstração de pura e simples ignorância e falta de senso, para não lhe chamar outra coisa. Fazer da natureza o critério universal da valia equivale a fazer das impiedosas leis que a regem o destino do homem como se ele fosse um simples joguete a ela submetido e sem voz no seu destino. Terão os ecologistas radicais e activistas consciência disto? Terão consciência que o seu excesso equivaleria à negação da condição particular do homem como elemento da natureza? A natureza que existe é a nossa e não a dos invertebrados e é com ela que temos de contar ou seja, com a nossa presença nela. Creio que nem se apercebem disto. Trata-se de mais uma utopia. Os seus adeptos tomam os seus desejos por realidade. Voltar à natureza pura seria aceitar o eugenismo, a lei da selva, as epidemias, a doença e tudo aquilo contra o que a civilização e a cultura se desenvolveram ou seja, voltaríamos à fome, à peste e à guerra, embora no meio de ar puro e de águas límpidas. Voltaríamos à idade da pedra. Na natureza sem o homem os cães não saltariam graciosamente para apanhar uma bola no ar lançada pelo dono, saltariam era ao pescoço uns dos outros para eliminar concorrentes.

É o homem que humaniza a natureza que, sem ele, nem sequer existiria para nós. A pretexto de defesa da natureza não se pode desvalorizar o homem, como se ele fosse um estorvo no equilíbrio recíproco.

Os ecologistas radicais têm de compreender que a modificação da natureza foi a consequência inevitável da organização da produção moderna para uma população em expansão crescente e com necessidades cada vez maiores e isto é universal ou seja, não depende do modelo político e económico em vigor nos diversos países. Aconteceu obviamente nos países capitalistas em que a propriedade dos meios de produção é privada e a divisão do trabalho separa o proprietário do produtor e o estado é seu joguete mas também nos países socialistas, lugares, aliás, dos maiores atentados à natureza. Os desmandos responsabilizam não apenas o capitalista proprietário dos meios de produção mas também o estado planificador e controlador.

2 Mas existia já naquela altura outra orientação. O mote era a defesa do ambiente. Aqui as coisas já me pareciam mais de feição. O ambiente não é a natureza em bruto; é o resultado da interacção entre o homem e a natureza.

A defesa do ambiente é um valor que tem o seu lugar na democracia social e hoje em dia até as Constituições fazem dele objectivo de uma política pública. É um critério de civilidade.

A realidade é que hoje de tão badalado o ambiente banalizou-se. Toda a gente é hoje defensora do ambiente ou finge que é. Há ambiente para todos os gostos. O primeiro divulgador da luta pelo ambiente, que me lembre, foi o já falecido jornalista Afonso Cautela. Na altura era visto como um extraterrestre. Mas hoje ninguém se atreve a aparecer em público sem jurar pelo ambiente. Ser ambientalista passou a ser uma banalidade de base. O ambiente passou a ser património de todos. Não conheço ninguém que não seja ambientalista. Como critério distintivo deixou de existir. Desvalorizou-se. Até o partido comunista chinês diz agora que é a favor do ambiente. Passou até a ser preferido pela publicidade comercial a produtos feitos sem quaisquer cuidados ambientais, mas que juram serem todos verdes; até os detergentes. Claro está que a esquerda portuguesa, com a má-fé ideológica dela própria, continua a dizer que o ataque ao ambiente é uma consequência do capitalismo, assim procurando fazer esquecer os desmandos ambientais, os mais pavorosos do mundo, dos comunismos soviético e chinês. A esquerda portuguesa julga-se dona do ambiente. Já vai tarde e nunca foi dona das preocupações ecológicas. Se quisermos fazer a diagnose delas no nosso país, sai a perder.

3 A defesa do ambiente não pode prescindir da realidade da intervenção humana na natureza. É que o homem e a sua actividade também faz parte da natureza, por muito que custe a compreender a alguns. Não há ambiente sem nós, homens. É preciso compreender que sem o homem e a sua a acção o ambiente não existe para nós. O homem é a parte decisiva dele. O ambiente não é senão o resultado da intervenção do homem na natureza.

Duas coisas são certas. Em primeiro lugar, atacar o mercado em nome das exigências da natureza é estúpido porque o mercado não é um estádio da sociedade, historicamente reversível como queria Marx; o mercado é o prolongamento natural da actividade humana ou seja, de uma sociedade civil evoluída e complexa como a nossa, o que significa que é um produto da natureza humana e não um desvio malévolo gerado por especuladores e exploradores a afastar-nos de uma natureza idealizada e avessa ao homem. Não há política ambiental racional sem mercado. Em segundo lugar, não há ambiente sem os homens porque estes são parte da natureza que é como quem diz, a natureza não se reduz aos animais e às plantas. O ambiente é uma realidade humanizada. A intervenção ambiental do homem é parte da natureza ou seja, é natural.

4 A solução para a política ambiental é a regulação dos recursos e da actividade económica humana mas na sua interacção e não separadamente, o que significa que a regulação não deve impor um modelo pré-concebido de natureza, que depressa resvalaria para o dirigismo e o autoritarismo. O ambiente é uma ordem decorrente da presença do homem e a regulação deve aprender com ela, sob pena de total ineficácia. O problema está em que ao intervir através da ciência e da tecnologia o homem estorvou as leis da natureza e tornou-as mais incertas e imprevisíveis. Mas as consequências desta intervenção estão ao nosso alcance.

A regulação não vem assim regular de novo um terreno virgem, vem sim (re) regular aquilo que já estava regulado segundo as suas próprias leis objectivas; cogito cogitatum. Ora, dessas leis faz parte a intervenção do homem.

Não sendo o ambiente são um produto natural do mercado nem do estado, a sua protecção requer uma política pública adequada de protecção (espaços verdes, prevenção ambiental, energias renováveis, planeamento e urbanismo ambiental, espécies protegidas, parques naturais), de repressão (claras proibições e sanções ecológicas a aplicar, p. ex., a toda uma série de energúmenos que no nosso país abrem os ruidosos escapes das motas, com a complacência benévola da polícia, concretização do princípio do poluidor/pagador, criminalização de actividades anti ambientais) e de fomento ecológico (benefícios às empresas amigas do ambiente, tributação a favor do ambiente, preferências concursais às empresas que observem critérios ecológicos, etc…) mas sobretudo uma cuidadosa educação ambiental. O segredo está em convencer o produtor das vantagens económicas de produzir e vender em conformidade com o ambiente e em educar o consumidor a escolher de acordo com as regras ecológicas. Este é que é o futuro. Já escrevi e publiquei sobre o direito ambiental como qualquer jurista moderno que se preza e, portanto, sei do que falo.

Gostava de ver os ecologistas radicais, inimigos dos combustíveis fósseis e da energia atómica, a organizar a produção alimentar para milhares de milhões de pessoas à custa da tracção animal, ressuscitando o velho carro de bois, a mergulhar as mãos na terra e a beber água não tratada.

O ecologismo radical é uma escória ideológica e o pretexto para uma nova forma de autoritarismo. É, aliás, isso que os seus adeptos objectiva e subjectivamente querem. A estratégia é divulgar o catastrofismo e gerar esse novo sentimento irracional e incapacitante que é a ecoansiedade. Contou com o apoio de adultos infantilizados como o Papa Francisco e conta com o do desesperado Macron e do incontornável Guterres.

Não sabem que um problema só surge quando as condições para a sua resolução já existem. Sabem de quem é a frase? De Engels. Mas podia e devia ser de Hegel.

Por mais que lhes custe a compreender os ecologistas radicais nunca vão pôr os cães a falar; eles é que já ladram.