Francisco Louçã

Da (in)coerência do credo “louçaniano”

Autor
  • Vicente Ferreira da Silva
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Em boa verdade, Francisco Louçã não tem qualquer problema com a concentração de poderes. Nem tampouco a ideia o incomoda. Não. O que o aborrece é que sejam outros, e não ele, a concentrar o poder.

Francisco Louçã não é frade nem é conhecido como uma pessoa religiosa. Todavia, pratica a actividade política como se fosse um membro duma classe eclesiástica. Infelizmente, comporta-se como um devoto fanático, defensor da única verdade aceitável e possível: a dele!

Daí que não seja descabido equacionar que o pensamento político de Francisco Louçã está baseado em manifestações de fé, i.e., dogmas que não podem ser questionados. Por outras palavras, não é difícil verificar a ausência de tolerância e de coerência – resultantes do apuramento que apenas é possível através de um processo de contraditório – no seu discurso.

Francisco Louçã é um homem de esquerda. Trotskista por convicção, acredita piamente que a humanidade é oprimida todos os dias e que só através do socialismo essa opressão pode ser erradicada. Ou seja, o socialismo não só é a resposta às preces humanas como também é a manifestação da perfeição, a via que conduz os homens ao paraíso. Ora, sobre o paraíso é aconselhável não menosprezar a história, a qual é, sem qualquer dúvida, o maior dos professores. E entre as mais significativas lições da história encontram-se os paradoxos dos ideais e das intenções humanas. Como muito bem observou Friedrich Hölderlin, “a terra nunca se parece tanto com o Inferno como quando os seres humanos tentam fazer dela o céu”.

Neste sentido, a história também nos ensina que quando mudam os regimes e os respectivos paradigmas políticos, a gestão que se segue à ruptura não é condizente com os ideais que a originaram e que a ocupação do poder gera lutas fratricidas entre aqueles que se vão substituindo na tentativa de administração do Estado, ou no entendimento de como o fazer. O desfecho da relação entre Lénin, Stalin e Trotsky é ilustrativo desta afirmação. E, recordando que no socialismo a separação dos poderes é objecto duma substancial diluição, quando não é eliminada, no que respeita aos efeitos e consequências das experiências socialistas na sociedade, bastará, entre inúmeros e variados exemplos, referir o que se passa na Venezuela.

À semelhança do que se verifica na dimensão das ideias, os seguidores do socialismo são pessoas plenas de virtudes, cujo comportamento é irrepreensível e cuja palavra é inquestionável. Assumem-se como seres iluminados (e apenas assim porque rejeitam vocábulos religiosos) que tem como principal dever apontar o dedo às inconsistências dos outros, de modo a proporcionar a redenção da igualdade. E a particularidade deste credo é que se baseia única e exclusivamente na palavra e jamais no exemplo do comportamento pessoal. Como veremos, o adágio popular “Bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz” resume o credo louçaniano.

Francisco Louçã criticou recentemente a “porta-giratória” entre o poder político e o poder económico por considerar que a mesma origina distorções e concentração de poder.

É claro que não se estava a considerar nessa distorção. Louçã faz parte do conselho consultivo do Banco de Portugal. Todavia, como já não é deputado nem líder partidário, deve pensar que não distorce ou concentra nada. Como se fosse possível, e a Francisco Louçã não é possível, deixar de fazer política apenas porque já não se dirige um partido político. A exclusividade de Francisco Louçã agora é outra. No entanto, deve notar-se que esta exclusividade não só não é praticada como também não é impedimento para a acção política. E em órbita desta dita exclusividade gravitam, ou gravitaram, vários agentes económicos – Sonae, Francisco Balsemão, a KNJ Investment Limited – e até reguladores.

Não é que não exista uma ligação entre a política e a economia em Portugal. Existe. Ninguém nega esse nexo e é habitual ver os mesmos rostos nos dois lados da barricada. Contudo, as críticas de Louçã são incoerentes. Porquê? Porque Francisco Louçã também é um exemplo da máquina “muito bem oleada” de concentração de poder que rege Portugal.

Em boa verdade, Francisco Louçã não tem qualquer problema com a concentração de poderes. Nem tampouco a ideia o incomoda. Não. O que o aborrece é que sejam outros, e não ele, a concentrar o poder.

Politólogo, Professor convidado EEG/UMinho

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