Segundo vários comentadores, o governo já estava a sofrer sucessivos desaires no parlamento antes da declaração do Conselho Nacional de Saúde Pública (CNSP) na quarta-feira passada ao fim do dia. O PS continuava, porém, a fazer de conta que os problemas do país se deviam à alegada forretice da União Europeia, que não daria os subsídios de que temos beneficiado até agora, e à teimosia de alguns autarcas da Margem Sul do Tejo que não deixam construir o aeroporto do Montijo… Quanto a mim, escrevi então: «Que confiança pode a população ter num governante que silencia as duas principais questões com que o país hoje se defronta: a dívida estrutural e a conjuntura epidémica?»

Entretanto, tudo mudou. Quarta-feira passada, o primeiro-ministro declarara que faria aquilo que viesse a ser decidido no CNSP previsto para aquele dia acerca da epidemia do coronavírus. Ao fim da tarde, o Conselho considerou não era preciso fechar as escolas. Quem ouviu a seguir, durante horas a fio na TV, os fracos motivos da decisão foi para a cama certo de que o governo não fecharia as escolas. Quinta-feira de manhã estava marcada a reunião semanal do governo mas nunca saberemos o que lá se passou…

Em compensação, é lícito pensar que o motivo da decisão do primeiro-ministro acerca da epidemia tenha sido o facto de a França e a Espanha, pressionadas pela Organização Mundial de Saúde, aterrada com o que se está a passar em Itália, terem decidido encerrar as escolas! Lá para meio da tarde, o primeiro-ministro fez saber que, afinal, dava o dito por não dito: apesar da decisão contrária do CNSS, ia mandar fechar as escolas na segunda-feira 16. Mas não disse porquê nem falou de tudo o que não havia sido feito desde dia 2 quando foram descobertas as duas primeiras pessoas afectadas. Já tarde, António Costa veio à TV com uma declaração improvisada e demagógica, sem revelar as razões da mudança de opinião e, sobretudo, sem ninguém poder perguntar-lhe por que motivo não acatara a decisão do CNSS, conforme havia dito 24h antes?

É claro que a decisão chega tarde de mais. A falta de recursos humanos e materiais já era conhecida dos profissionais de saúde e sabia-se, pela estatística dos outros países, que o pior estava por vir. Com efeito, em 72 horas desde quinta às 12h até domingo à mesma hora, as pessoas afectadas aumentaram no mínimo de 78 para 245! Entretanto, subsistem diferenças bizarras entre as estatísticas internacionais e nacionais no que diz respeito às pessoas mais velhas, as quais morreriam muito menos em Portugal do que no estrangeiro… A questão permanece sem explicação por parte das autoridades!

Não é, pois, o fecho das escolas que vai impedir o aumento dos contagiados e a previsível morte de muitas pessoas. O pior da crise é, com efeito, a falta de meios de saúde humanos e técnicos, nomeadamente camas de cuidados intensivos e ventiladores, bem como a ausência de capacidade organizativa por parte do governo. Lamentavelmente, o «modelo» de governação que temos é o dos incêndios florestais que continuam a ser a prova da incúria, da falta de organização e de meios de combate. Sabemos portanto com o que contar.

Ainda falta muito para a crise terminar. Quanto ao futuro, a principal questão médica será a descoberta ou não de uma vacina para o novo vírus. A esta distância, não é fácil avaliar os efeitos da crise pandémica do ponto de vista político-partidário. O problema do país pôr-se-á no início do ano que vem com a eleição presidencial e, mais tarde, com as autárquicas. Ver-se-á, então, de que molde essas votações reflectirão os efeitos devastadores que a governação do PS e dos seus aliados tem tido, na mesma linha que Sócrates, ainda por julgar no tribunal, com a cumplicidade passiva do presidente da República!

Pelo seu lado, a UE não foi construída com base nos regimes clientelares pseudo-democráticos que continuam a prevalecer na Europa do Sul e de Leste. Lamentavelmente, a União tem pactuado demasiado com estes na esperança de consolidar um bloco europeu capaz de contrabalançar o poderio dos Estados Unidos e o soberanismo da Inglaterra. Contudo, conforme era de depreender das mútuas pressões políticas e financeiras entre o topo e a base da UE, os países menos desenvolvidos da União, dos quais Portugal tem sido um triste exemplo nos últimos 20 anos, não fazem mais do que enfraquecer a consolidação de um bloco europeu efectivamente demo-liberal e economicamente tão desenvolvido como os seus competidores. Ora, a falta de profundas reformas que modernizem e desenvolvam o nosso país tem muito a ver com a maior ou menor dimensão da crise pandémica!