Darwin não morava mesmo ali. E não era por falta de estacionamento. Era por pura autopreservação: qualquer observador minimamente racional fugiria à primeira reunião de alinhamento estratégico daquela empresa.

Mas vamos começar pelo princípio. Darwin Não Mora Aqui, S.A. era uma daquelas organizações orgulhosamente medíocres, convencida de que sobrevivia graças ao seu “ADN empresarial” — como se o mercado funcionasse com sentimentalismos.

Era, de facto, uma espécie rara: não porque evoluía, mas porque teimava em não evoluir. Se fosse um animal, seria um panda sedentário com PowerPoints. Se fosse uma planta, seria uma samambaia que se recusa a apanhar sol. Mas, felizmente, era apenas uma empresa — e as empresas podem morrer sem causar danos ecológicos.

A rececionista saúda os visitantes com um sorriso treinado: “Aqui trabalhamos com excelência.” Foi a primeira mentira da manhã e eram 9h03. Darwin, que tinha observado tartarugas gigantes, aves mutantes e iguanas com capacidade de adaptação impressionante, ficaria verdadeiramente espantado. Nunca tinha visto uma espécie que confundisse sobrevivência com arrogância. Uma espécie que acreditava que existia porque sim, e que iria continuar a existir porque sempre existiu. Era cientificamente fascinante — mas também tragicómica.

Seguiu para o 3.º piso, onde o destino intelectual da empresa se afogava todas as semanas em PowerPoints fluorescentes. A sala estava cheia. As luzes apagaram-se. Não para ver melhor — mas para não ver as caras de desespero. O slide inicial dizia “Plano Estratégico 2026: Crescer, Transformar e Liderar.” Era a tríade do nada: crescer sem saber como, transformar sem saber o quê, liderar sem saber quem. O CEO levantou-se com o entusiasmo teatral de um mágico de terceira categoria antes do truque mais fraco. Começou com a frase que já ninguém ouvia, mas que todos fingiam respeitar: “Temos de nos reinventar.” Ficava sempre por aqui. O verbo reinventar é dos poucos que conhece, mas nunca usa no tempo certo. Depois seguiam-se as personagens secundárias. Todas brilhantes, no pior sentido possível. A Diretora de Marketing confundia estratégia com estética. Adorava slides, campanhas e frases inspiracionais. Mas, se lhe perguntassem o que realmente distinguia a empresa no mercado, ela respondia: “A cor do logótipo.” Darwin desmaiaria.

O Diretor Comercial, especialista em força bruta, acreditava que estratégia era aumentar o volume de telefonemas. Para ele, tudo se resolvia com “agressividade comercial”. É o tipo de pessoa que encara o mercado como um ringue. Infelizmente, não percebe que está sempre a combater na categoria errada.

O CFO aproximava-se do projector com os seus ficheiros Excel como quem transporta tábuas sagradas. Fala com a convicção dogmática de quem acredita que controlar custos é o mesmo que construir futuro. É daqueles que entraria numa sala a arder e perguntaria: “Qual é o impacto disto no EBIT (resultado operacional)?”

Segue-se o momento alto — ou baixo — do benchmarking. Um ritual ancestral na Darwin Não Mora Aqui, S.A.: copiar tudo o que a concorrência faz, com dois anos de atraso e metade da competência. O entusiasmo com que apresentavam práticas alheias como se fossem conquistas próprias era tocante. Darwin classificaria este comportamento como: “Tentativa desesperada de sobrevivência por mimetismo incompetente.”

Depois, a cereja no topo do bolo corporativo: o novo slogan institucional. “Transformar o Futuro. Hoje.” “Inovar para Vencer.” “Criar Amanhã.” Um prodígio: conseguem juntar palavras que dizem tudo e nada ao mesmo tempo. É poesia conceptual para quem desistiu de pensar.

Finalmente, o Plano Estratégico. Um documento cheio de bullets que parecem decisões, mas são desejos com maquilhagem. “Expandir para novos mercados.” “Reforçar a presença digital.” “Investir na proximidade ao cliente.” “Lançar soluções diferenciadoras.” É tudo tão genérico que poderia servir para uma pastelaria, para uma seguradora ou para um clube de pesca submarina. É a prova suprema de que aquela empresa não tem estratégia — tem fé.

A reunião termina sempre da mesma forma: um suspiro coletivo de alívio e a promessa de que “agora é que é”. Mas a verdade — a verdade que Darwin colaria num post-it na porta da sala de reuniões — é simples: “O mercado não perdoa quem não evolui. E vocês não evoluem.” Porque estratégia — estratégia a sério — não é isto. Estratégia não é um slogan. Não é uma palavra bonita num slide. Não é um desejo infantil de “querer ser mais”. Nem é um ritual anual conduzido por pessoas que têm medo de escolher.

Estratégia é coragem. Coragem de decidir. Coragem de renunciar. Coragem de diferenciar. Coragem de admitir que o futuro não nasce dos desejos, mas das escolhas. Coragem de assumir que o que trouxe a empresa até aqui é precisamente aquilo que a impede de avançar.

Darwin Não Mora Aqui, S.A. não tinha coragem. Tinha reuniões. E, assim, seguia a empresa, ano após ano, orgulhosa da sua própria incapacidade. Fingindo que era competitiva, quando na verdade estava apenas a prolongar a agonia.

O mercado é Darwiniano. Darwin sabe isso. O mercado sabe isso. A única que não sabe — e insiste em não querer saber — é a Darwin Não Mora Aqui, S.A.