Nas últimas legislativas, a Aliança Democrática de Luís Montenegro venceu — mas sem maioria. O verdadeiro abalo sísmico? O Chega tornou-se a segunda força política nacional. Não foi acidente. Foi consequência. De anos de promessas quebradas, impostos sufocantes, serviços públicos em queda e uma classe média exausta de sustentar o sistema enquanto vê a ineficiência, a subsidiação sem critério e a corrupção, desfilarem à sua frente.

Mas há um outro dado, mais profundo: Portugal habituou-se, durante os últimos 50 anos, a ser governado numa espécie de anarquia suave — um país gerido com mais retórica do que estratégia, mais compadrio do que planeamento, mais improviso do que visão. E agora, quando surge alguém a desafiar essa ordem caótica, muitos não conseguem aceitar a possibilidade de uma nova realidade. Porque a mudança parece que assusta mais do que o mau hábito. E quem sempre votou nos mesmos continua preso à ilusão de estabilidade — sem ver que o país já mudou por baixo dos seus pés.

Populista. E então e depois, não servirá para ganhar?

Ventura é chamado populista com frequência — e quase sempre com desprezo. Mas o populismo não é, necessariamente, por si só, um mal declarado à nascença. É, acima de tudo, um estilo. E como todo o estilo, pode ser eficaz — ou perigoso. Pode libertar… ou pode mesmo manipular. É o discurso que coloca o “povo” contra as “elites”. Que simplifica. Que dramatiza. Que promete rupturas. E que cresce quando os partidos do sistema deixam de ouvir e responder. A questão real, que quase ninguém quer enfrentar, é esta: e se Ventura chegar ao Governo um dia… e perceber que “foi obrigado”, mesmo, a ter de governar bem?

Ventura não é Trump. Nem Bolsonaro. É Ventura. Português e noutra realidade.

A comparação é tentadora — mas preguiçosa. Trump é um bilionário caótico. Bolsonaro, um nostálgico do quartel. Ventura é um jurista combativo e atual, noutro “campeonato”. Bem mais bem preparado que os outros dois, é um ex-comentador desportivo e estratega político de grande e apurado instinto. Não é um incendiário descontrolado. É um jogador focado no troféu. Fala alto? Fala. Pulveriza ódio, como dizem? Veja-se como se quiser, para uns sim, para outros não. Pouco importa no final para o que aqui se pretende explicar. Se chegar um dia ao poder, como parece que talvez possa acontecer num futuro próximo, pelo andar da carruagem, saberá que manter-se lá exige muito bons resultados, não apenas discursos e bojardas com lanças de fogo. Governar com bons resultados exigirá ter os melhores a governar com ele.

Mas quem governaria com ele? É legítimo duvidar: o Chega, neste momento, parece ter muita escassez de quadros para formar um Governo. Mas isso não significa que esteja condenado à mediocridade. Muito provavelmente, Ventura não teria dificuldade em atrair gente de fora da política — gestores experientes, alguns académicos com experiência empresarial, juristas isentos ávidos por brilharem na justiça, economistas desejosos de boas práticas que ninguém ousou implementar — todos aqueles que nunca quiseram alinhar nos jogos partidários, mas que veem neste momento uma oportunidade histórica para corrigir, com reformas estruturais inovadoras, o rumo do país. Pessoas que sempre acharam que “a política não era para elas”, mas que agora podem pensar: “Talvez seja desta que vale a pena entrar e fazer bem.” E Ventura, se for inteligente (porque é), saberá aproveitar esse capital técnico e humano? Não por altruísmo. Mas por cálculo. Porque ninguém governa sozinho — e muito menos com os piores.

A fratura da classe média: o verdadeiro motor

O Chega não cresce apenas no grito e na promessa impossível. Cresce no silêncio dos que se sentem enganados. De quem paga impostos elevados e não recebe qualidade em troca. De quem vê nomeações, compadrios e “tachos” a repetirem-se com outros nomes. De quem perdeu esperança nas alternativas do costume. E há aqui um erro estratégico de análise por parte de muitos eleitores tradicionais e de uma classe de comentadores políticos que não percebem que, esta revolta, não vem da margem, mas do centro. Não dos extremos, mas da classe média. Não de perseguição a algumas etnias. Mas daquela maioria invisível que trabalhou, cumpriu, sustentou — e agora só quer ser tratada com justiça.

E se ele fizer melhor?

Ninguém sabe se Ventura governaria bem. Mas sabemos, com evidência empírica, que os anteriores falharam em quase tudo o que era estrutural:

Reforma fiscal? Falhada.

Justiça célere? Uma miragem.

Crescimento sustentado? Nem vê-lo.

Estado eficiente? Longe disso.

Educação de excelência? Só no discurso.

E se for Ventura um dia a tentar? Se chamar os melhores, se der autonomia técnica, se tiver coragem para cortar na gordura política e reformar o que realmente há muito precisa de ser reformado — então talvez, só talvez, surpreenda.

Não confundir um apoio, com um alerta

Não se trata aqui de defender Ventura. Trata-se, sim, de recusar o pensamento binário que diz: “ou é nosso, ou é um perigo.” Trata-se de fazer a pergunta que ninguém quer enfrentar: E se ele, com todos os riscos que representa… for o único que tenta fazer o que os outros se recusaram a fazer? Porque no fundo, o verdadeiro escândalo talvez não seja Ventura querer governar. É o país ter sido deixado assim — pronto para que alguém como ele o possa, de facto, fazer.

Epílogo: E quando chegar o “Sim é Sim”?

A esquerda ficou, com estas eleições, moribunda. A Iniciativa Liberal convence com algumas ideias, mas não convence com força. A direita tradicional tenta manter-se ao leme, mas sem grande vento. E o Chega galopa. Não é mais um fenómeno de protesto. É, aos poucos, uma alternativa cada vez mais real. Parece ser apenas uma questão de tempo. Tempo até que as resistências se desfaçam, os cordões sanitários rebentem e o “não é não”, se transforme em “bem, talvez”…e depois, um dia, em “sim, é sim.”, por vontade de quem vota. Nesse momento, não será tempo de moralismos tardios. Será tempo de maturidade democrática obrigatória. Porque se Ventura chegar um dia ao poder, não será porque enganou o país. Será porque o país se cansou, de se sentir enganado, por todos os outros.