O fim do Império Romano sempre cativou a imaginação do Ocidente. Afinal, se esta superpotência da Antiguidade, que durante tantos séculos dominou o mundo conhecido, pôde cair, o que nos impede de vir a partilhar desse cruel destino? Os mais optimistas descartam este tipo de aproximações como dramatismos, os mais pessimistas profetizam a queda com um determinismo depressivo; cada notícia inflama a despreocupação de um ou a depressão do outro, mas algum dos dois terá razão? Na verdade, não é claro. A ruína dos Romanos não foi imediata, mas fruto de um lento declínio que se veio aproximando vagarosa e impiedosamente ao longo de largos anos. Por outro lado, a vivência do presente não beneficia do olhar retrospectivo daqueles que observam do futuro, o que significa que não é certo qual o grau de consciência histórica daqueles que actuaram nessa realidade, mas com certeza seria limitado na maior parte dos casos. Para que um dia não estejam outros a observar estupefactamente como se procedeu o nosso lento declínio, é importante que estejamos vigilantes. Há dois aspectos, retirados da experiência romana, que podem ser um bom ponto de partida.

Comecemos pelo menos polémico. A burocracia é característica necessária e inevitável de qualquer organismo que se quer eficiente, e quanto maior o organismo, mais complexa a burocracia. No entanto, o perigo desta é duplo, sendo essa dupla ameaça também aparentemente inevitável, e por isso carente de reforma constante. Por um lado, quando a burocracia começa a ganhar vida própria e se torna absoluta, servindo-se a si mesma, quando foi criada para servir o organismo e os seus constituintes (uma visita à loja do cidadão é um exemplo tão frustrante como humorístico desta realidade). Por outro lado, quando a burocracia começa a ser alimentada para perpetuar a sobrevivência e manutenção daqueles que se encontram no poder, mais uma vez perdendo de vista o seu verdadeiro propósito e resultando numa retumbante ineficiência. A burocracia, que foi criada pelo organismo, tem assim o poder de afastar o organismo da realidade, tornando a persecução da sua verdadeira função algo virtualmente inalcançável e levando à disseminação de uma “política egoísta”. Os políticos actuais perceberam o que os políticos Romanos já tinham percebido, como coloca Goldsworthy na sua obra O Fim do Império Romano: “O verdadeiro êxito ou fracasso é difícil de medir, especialmente a curto prazo. Os objectivos e ganhos pessoais são alternativas atraentes.” Existe, portanto, a necessidade da reforma cíclica da burocracia (a mentalidade de Milei ou Musk adaptada à realidade Portuguesa/Europeia).

Por último, não há como escapar (nem devia ser esse o instinto) ao factor das invasões bárbaras. Sim, estou a referir-me à imigração; não, não estou a referir-me a toda a imigração, mas sobretudo àquela que professa um islamismo inflexível; e não, não estou a utilizar o termo “bárbaros” no sentido pejorativo mais utilizado hoje em dia, mas como um sinónimo de “estrangeiro”, mais fiel ao seu significado original proveniente da Antiguidade, para estabelecer a ligação com o texto de Goldsworthy acima referido. O problema não é quererem vir para cá, porque as terras de abundância sempre atraíram interesses migratórios, seja a Roma da Antiguidade ou a Europa de hoje, mas sim a forma como a estes reagimos. Goldsworthy avança que foi a dissensão interna que catapultou o factor Bárbaro de problemático, mas controlável, para fatal. Decisores políticos mais preocupados com as suas lutas internas, do que com os lamentos das populações, inclusive fazendo uso dos povos invasores para obterem vitórias políticas.

É certo que não estamos a ser invadidos no sentido Romano do termo, e que há muita imigração benéfica e necessária. No entanto, ao nível das elites políticas a História parece rimar mais uma vez, pois o seu interesse está novamente preso a lutas internas e inteiramente deslocado das preocupações das populações que os elegeram. Até agora têm havido sobretudo duas respostas. Por um lado, o simplismo cínico mascarado de nacionalismo que prescreve uma condenação a priori: são todos maus. Por outro lado, e que está a provar ser bastante mais nefasto (como os casos diários noticiados em linguagem ambígua nos relembram), a condescendência da tolerância absolutista, tão falsa quanto insuportavelmente paternalista: são todos vítimas. Afinal, o problema de usar a moralidade num cartaz, numa transparente sinalização de virtude, é que quando termina o protesto, esta acaba no lixo. E no meio deste combate político, apenas interessado na imigração na medida em que se materializar em votos de um ou no não crescimento do outro, um truísmo ressurge numa forma bastante, senão infelizmente, familiar, “o povo é que paga”. Aquilo que se pede aos decisores políticos é algo que é hoje comumente apelidado de fascista por uns e de fraqueza por outros, e que está aparentemente em vias de extinção no mundo Ocidental: bom senso.

Há tensão e ansiedade no ar; a angústia é palpável. Discerne-se a silhueta de um futuro sombrio, que poderá, ou não, ser evitável. Contudo, uma coisa é certa, não é tempo para chorar, o que de resto parece ser a única resposta dos nossos representantes políticos europeus, mas sim, e disto dependerá a nossa sobrevivência ou declínio e queda, tempo para ter esperança no melhor e iniciar preparações para o pior.