Sempre entre as pessoas comuns, estive na manifestação Portugal não é racista, organizada por André Ventura e pelo Chega, a 27 de junho, sábado à tarde, em Lisboa, não apenas por tomar como absoluta a necessidade de combater a vigarice do antirracismo (para mim não é só Portugal que não é racista, mais do que isso, o racismo deixou de existir), mas também pela absoluta necessidade de corrigir a relação social patológica com a memória histórica, em particular com a memória colonial, outra vigarice extraordinariamente perniciosa.

No último caso, recuso o uso do termo colonialismo. Trata-se de uma manipulação mental grosseira imposta às sociedades na interpretação dos processos coloniais ao longo da história. À medida que os europeus passam de colonizados, por exemplo pelos romanos ou árabes, para colonizadores, por exemplo dos africanos, o processo deixa de incidir nos contributos positivos da colonização para a transformação civilizacional dos povos colonizados para passar a incidir, e ficar sequestrado, apenas nos aspetos negativos da colonização. Daí a substituição do vocábulo neutro colonização pelo vocábulo adjetivado colonialismo que transforma os mais importante processo histórico de avanço civilizacional dos povos num crime contra a humanidade.

Por exemplo, os portugueses foram colonizados por romanos e árabes, e ensina-se nas escolas desde a infância que isso foi muito importante, mas esses mesmos portugueses foram colonialistas de angolanos e moçambicanos e ensina-se, desde a infância, que isso foi muito mau, um horror. Isso tem algum sentido?

Esses dois núcleos – racismo e colonialismo – são indissociáveis e socialmente decisivos. Trata-se de duas falcatruas, das mais grosseiras desde que Adão e Eva foram expulsos do paraíso, e da responsabilidade do atual aparato intelectual e respetivas elites coniventes ou submissas. O discurso político e ideológico do Chega apontou baterias muito incisivas contra elas: Portugal não é racista e Temos orgulho na nossa História. São mensagens que passam com facilidade e clareza para o senso comum por possuírem os atributos da verdade e da frontalidade. Isso é extraordinariamente incómodo para os viciados em adulterar a relação entre o passado e o presente.

Só isso sobeja para qualquer cabeça que se digne pensar saber que há mais dignidade no discurso de André Ventura do que no discurso de todos os demais que, na versão benigna, oscila entre o cínico e o alucinado e, na versão rigorosa, é mentiroso. É muito difícil viver numa sociedade mentalmente pestilenta. Mas esse é o nosso triste presente.

A sociedade portuguesa está transformada num pântano de cobardes intelectuais e políticos que nunca evidenciam capacidade argumentativa capaz de rebater com seriedade e fundamento as críticas de que são alvo. Escudam-se nas instituições, na comunicação social, em crenças anquilosadas como se, mais cedo ou mais tarde, o inevitável caminho da verdade não fosse capaz de arrasar tudo isso. Não vivi os tempos das disputas entre Mário Soares, pelo Partido Socialista, e Álvaro Cunhal pelos comunistas e demais radicais de esquerda que conferiram ao primeiro a então justa reputação de corajoso. Não ver hoje em André Ventura o único político corajoso do atual panorama é de bradar aos céus. Não vislumbro outro político que arrisque como ele sem a cobertura de grandes ou pequenas instituições. Não vejo outro político que jogue dessa maneira com um suporte partidário extraordinariamente frágil.

Estava tudo ali na manifestação de sábado, dia 27 de junho, quando descemos do Marquês de Pombal, percorremos a avenida da Liberdade e a Baixa, e concentrámo-nos no Terreiro do Paço. Caminhada organizada tranquilamente por um conjunto reduzido de organizadores e uma presença de manifestantes muitíssimo superior ao que imaginava. Claro que uma comunicação social subsidiada pelo Partido Socialista, através do orçamento de Estado, tem por missão comprovar o contrário. Para quem queira observar com olhos de ver, também é claro que os sinais do movimento são sólidos e ascendentes. Não é preciso ser um génio para antever que, num futuro que não será longo, o Chega pode perfeitamente trazer uma multidão bem maior para manifestações de rua. Os sinais eram mais do que óbvios naquela manifestação.

Vi um Chega umbilicalmente identificado com os símbolos nacionais, a bandeira e o hino. Havia mais bandeiras de Portugal e maior disponibilidade dos manifestantes em pegar nelas do que de fazer o mesmo com as bandeiras do Chega. Isso seria incómodo para o Partido se, ao longo da caminhada, não me chegassem comentários de pessoas que, ao mesmo tempo, não se queriam expor ao lado do Chega por causa do estigma da extrema-direita, mas paradoxalmente queriam assinalar o apoio a André Ventura por saberem não ser nada daquilo de que o acusam.

Se juntarmos esse sentimento à identificação com símbolos nacionais, mais o elevado número de pessoas presentes em plena pandemia, é preciso teimar na cegueira e na surdez para não identificar, naquele contexto, um recalcamento social profundo que, mais cedo ou mais tarde, sairá com maior expressão à luz do dia. Se André Ventura vivia da intuição, suponho que agora pode alimentar-se de certezas.

Quero recordar aos distraídos que uma coisa são os partidos, os seus símbolos e suas identidades particulares, outra é a identificação dos indivíduos com os símbolos nacionais que, por natureza, são socialmente transversais. Os movimentos de transformação social e política em Portugal, desde o século XIX, nunca foram sectários, antes associados ao sentimento transversal da pátria em perigo. Num povo velho como o português, os rótulos podem mudar, mas não a substância. Não sei se se está a abrir caminho para a IV República reivindicada por André Ventura, nem sei o que isso possa significar, mas que ninguém duvide que os equilíbrios políticos da democracia portuguesa têm um antes e um desde André Ventura. A pedra rejeitada pode ser a pedra angular, uma novidade que vem dos tempos bíblicos.

Um outro aspeto que colocou a nu a relação alienada da comunicação social portuguesa com a realidade e com a verdade foi a insinuação de ameaças ao civismo como se fossemos todos burros. A manifestação organizada pelo Chega foi um passeio pelas ruas absolutamente tranquilo e, sendo necessária, a segurança policial serviu para pouco mais do que regular o trânsito e evitar provocações externas à manifestação que, ainda assim, não suscitaram qualquer animosidade, manifesta ou velada, por parte dos presentes. Se nada do que vi define o que são pessoas civilizadas, então estas não existem. Espero que se compare, com honestidade, o que se passa na Festa do Avante! ou em qualquer ajuntamento do Bloco de Esquerda. O que a comunicação social sentiu por muitas pessoas se recusarem a falar, pois vi jornalistas de televisão malsucedidos à cata de entrevistados, foi um misto de desconfiança, porque as pessoas sabem que são grosseiros manipuladores em busca de hitler’s, e de um justíssimo desprezo.

Vivemos, de facto, numa sociedade manipulada por uma comunicação que mente ostensivamente sobre as características da vida social, uma comunicação social que descobre virtudes em criminosos e perigos sociais em gente de bem. Pena é que psicólogos, antropólogos e sociólogos tenham perdido réstias de honestidade mental talvez para não correrem riscos de perderem apoios, subsídios e bolsas pagas pelo tão generoso quanto falido Estado socialista. O momento que vivemos é por demais absurdo, para mais tratando-se de um momento histórico único. Há quantas décadas uma direita deste tipo não saía à rua em Portugal?

Escrevo este texto não apenas para deixar o meu testemunho histórico, como também para registar preto no branco como todo um aparato mental se viciou em cuspir na cara de portugueses dignos, de pessoas de bem, como justamente autoclassificaram aqueles manifestantes os que lideravam a iniciativa. Tenho hoje muitíssimas mais certezas que não vivo numa sociedade de elites justas, sérias, adultas, respeitadoras, antes numa espécie de ajuntamento tresloucado dominado por uma seita alargada de charlatães que domina os órgãos de soberania, as universidades e a comunicação social.

Mas há um último aspeto da manifestação que devo destacar, o da associação de André Ventura ao populismo e aquela ser a prova do mesmo, outro insulto à minha inteligência e de uma parte (suponho que significativa) de portugueses. Quem quer tratar com dignidade as sociedades e compreender a sua inevitável complexidade e diversidades tem necessariamente de ter em conta que, do indivíduo ao coletivo, o ser humano define-se por ser um sujeito pensante.

Existem, no entanto, uns quantos espertos (nem merecem o vocábulo de iluminados) cujo cérebro apenas lhes permite ver a árvore do pensamento e incapacita-os de verem a floresta do pensamento. Quem não percebe que ambas existem é um sujeito necessariamente disfuncional. As atuais elites pensantes portuguesas são quase só isso.

A árvore é o pensador individual, o intelectual, o académico, o filósofo, o escritor, o ensaísta, por aí adiante. São aqueles indivíduos que traduzem o seu pensamento em livros. Quem só enxerga a árvore do pensamento nunca conseguirá perceber a dignidade intelectual e cultural de um movimento social e político que não seja parido por uma elite de notáveis, e tudo que exista para além dessa génese é populismo. Essa limitação mental tem sido, justamente, a desgraça que arrastamos desde o século XX, guiados por uma esquerda que, ao mesmo tempo que alega representar o povo, impõe a esse mesmo povo as suas utopias de cima para baixo, das elites intelectuais e políticas para as pessoas comuns, gerando disfuncionalidades institucionais e sociais que se tornaram desastrosas. Essa esquerda nunca permitiu uma contrarresposta de baixo para cima, das sensibilidades sociais comuns para as elites institucionais, que equilibrasse o pensamento e, através dele, os sistemas sociais e políticos.

Há, por isso, a floresta do pensamento, o pensamento produzido pelas sociedades na sua autonomia, sendo que as sociedades definem-se por nunca passarem por estados de repouso mental, estão em reinvenção permanente. Quem não percebe que esta é a outra metade fundamental do que chamamos pensamento, e que em Portugal anda entregue a si mesma há quatro décadas, não entende quase nada.

No decurso das relações quotidianas que os indivíduos estabelecem entre si produzem um pensamento genuíno, autónomo do pensamento individual, isto é, ou as sociedades enquanto coletivos pensam ou não são sociedades. É o que o psicólogo social Serge Moscovici chamou representações sociais, sinónimo de pensamento social. Não irei explicitar os detalhes teóricos da questão. Apenas sublinhar que esse pensamento social gera fenómenos sociais e políticos fundamentais que ganham expressão quando alguém consegue ter a fina sensibilidade de compreendê-los e, depois, a partir da clarificação dos seus núcleos fundamentais (o que Serge Moscovici e Georges Vignaux designam por themata) permitir que esses assuntos assumam fórmulas institucionais, isto é, uma existência social visível em defesa legítima de determinados interesses e sensibilidades sociais.

O suporte teórico, ideológico ou programático traduzido a escrito deste tipo de movimentos sustentados pelo pensamento social, para ser genuíno, vai-se constituindo com o tempo, é sempre posterior ao início do próprio movimento social ou político. É esse o caminho que André Ventura e o Chega estão a renovar e não se resolve com uma conferência, um seminário universitário, um estalar de dedos.

Não se trata de um movimento frívolo que se vá esfrangalhar ao virar da esquina justamente porque assenta em princípios morais sólidos. O valor supremo da autorresponsabilidade individual e coletiva contra a vitimização está presente, por isso a manifestação decorreu como decorreu, o que é particularmente evidente na recusa ostensiva do Chega da existência de diferenças de tratamento, nos deveres e direitos, entre maioria branca e minorias raciais, princípio que depois se pode replicar na justiça, no ensino, nas finanças, na administração pública, por aí adiante. Os princípios morais estão também presentes num compromisso sólido com a democracia e, na manifestação de sábado, não detetei um sinal, ínfimo que fosse, de sinal contrário. Ou eu sou mentiroso ou é mentiroso quem diz ou insinua o contrário de André Ventura e do Chega. De resto, as fotografias na imprensa com a suposta saudação nazi do líder do movimento, André Ventura, são de tal modo abjetas que legitimam todo e mais algum palavrão dirigido aos órgãos de comunicação social que as publicaram. Ainda no domínio moral, na manifestação ou fora dela, de forma latente ou manifesta, explícita ou implícita, não vi nada que sugira, instigue ou defenda a violência. Aqueles que o fazem acuso-os, com toda a frontalidade, de reles e abjetos mentirosos. Aliás, é quase só isso que sabem fazer. Todos temos o direito de reclamar ou exigir dignidade para terceiros quando a mesma é tão abjeta e violentamente atropelada!

Depois, académicos, imprensa e aliados que quase só existem para salvar a voz do dono, inventam insinuações como E quem são os intelectuais que estão com o Chega? Qual é a massa crítica? Seja quem for, rogo para jamais serem os mesmos intelectuais e massa crítica que produziu uma desgraça mental chamada Partido Socialista que apodreceu desta forma a sociedade portuguesa. Por exemplo, não vi nada de intelectualmente recomendável em Eduardo Lourenço, a não ser o desprezo humilhante por quem veio do antigo Ultramar e uma grave patologia na relação com o tempo histórico que situa os seus raciocínios d’O Labirinto da Saudade num nível infantil. Os demais são metástases.