Durante demasiado tempo, a política energética portuguesa foi tratada como uma questão de fé. As tecnologias foram divididas entre puras e pecadoras, os recursos nacionais entre intocáveis e impronunciáveis, e quem ousasse recordar que a eletricidade obedece às leis da física, não às cartilhas do ativismo climático, era imediatamente acusado de negacionismo.
Há alguns anos escrevi que o verdadeiro ambientalismo reside nos conservadores. Continuo a acreditar nisso. Preservar o património natural, proteger a paisagem, respeitar os ciclos da terra e garantir que as próximas gerações recebem um país habitável não são invenções da esquerda radical, muito menos concessões aos eco-ansiosos que descobriram recentemente a natureza através de uma aplicação instalada no seu iPhone de última geração, esse pequeno altar capitalista a partir do qual passam os dias a condenar o capitalismo.
O problema é que o ambiente e a energia foram progressivamente capturados por uma agenda profundamente ideológica. Em vez de serem tratados como matérias de conhecimento científico, planeamento económico e soberania nacional, transformaram-se num campo de batalha moral, dominado por uma pequena elite que distribui certificados de virtude climática e acusa de negacionismo qualquer pessoa que não repita o catecismo aprovado.
O método é simples. A energia solar é sempre boa, ainda que implique ocupar milhares de hectares, alterar paisagens e abater árvores. A energia eólica é sempre boa, mesmo quando ameaça habitats ou exige novas linhas elétricas. O gás natural é sempre mau, embora continue a assegurar parte da capacidade firme do sistema. A energia nuclear é indiscutivelmente má, apesar de ser reconhecida como uma das fontes de produção de eletricidade com menores emissões ao longo do seu ciclo de vida e de assegurar produção contínua, firme e de baixo carbono. Conhecer os recursos nacionais é perigoso, mas importá-los de países terceiros, muitas vezes produzidos com padrões ambientais e laborais bastante inferiores aos europeus, já parece não causar qualquer inquietação ecológica.
É um ambientalismo bastante conveniente. O impacto não desaparece, apenas é empurrado para longe da vista e da consciência.
Foi também esta forma infantil de discutir energia que o apagão de 28 de abril de 2025 veio expor. Não porque seja tecnicamente sério afirmar que as energias renováveis, por si só, provocaram o colapso do sistema ibérico. Não provocaram. A investigação da Rede Europeia dos Operadores das Redes de Transporte de Eletricidade identificou uma conjugação de oscilações, insuficiências no controlo da tensão e da potência reativa, diferenças nas práticas de regulação, reduções rápidas de produção, desconexões de geradores em Espanha e capacidades desiguais de estabilização do sistema.
Mas também não é sério usar essa complexidade técnica para concluir que o modelo energético seguido não merece qualquer discussão. Um sistema com uma incorporação crescente de produção intermitente, fortemente dependente de conversores eletrónicos, interligações, mecanismos de compensação e serviços de sistema, exige redes mais robustas, capacidade firme, armazenamento, controlo de tensão, gestão da procura e meios capazes de estabilizar o sistema em poucos segundos.
A transição energética não revogou as leis da física. Apenas tornou mais caro ignorá-las.
Durante vários meses, o Grupo de Trabalho criado na Assembleia da República para analisar o apagão ouviu cerca de duas dezenas de entidades e recebeu dezenas de contributos. Os trabalhos não revelaram apenas problemas técnicos no sistema ibérico. Demonstraram atrasos na comunicação à população, degradação das redes móveis e do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP), dificuldades na circulação de informação, insuficiências na autonomia energética de infraestruturas críticas, constrangimentos no abastecimento de combustível a geradores e uma ativação tardia da Rede Estratégica de Postos de Abastecimento.
Ainda assim, a versão do relatório final (cujo autoria coube ao Grupo Parlamentar do PSD) submetida a votação acabou por apresentar uma avaliação excessivamente favorável da preparação e da resposta do Estado. O Grupo Parlamentar do CHEGA votou contra porque nenhuma das suas propostas de alteração ao relatório foi acolhida e porque não estava disponível para transformar meses de audições num exercício parlamentar de absolvição governativa e administrativa.
Entre as propostas de alteração apresentadas pelo CHEGA encontravam-se o reforço da potência firme e da capacidade despachável, a defesa da neutralidade tecnológica, a avaliação da criação de ilhas elétricas regionais ou funcionais, a realização de simulacros nacionais, uma avaliação independente da resposta operacional do Estado e a atualização da matriz nacional de infraestruturas críticas.
O país resistiu ao apagão graças ao esforço conjunto de operadores, forças de segurança, autarquias, profissionais de saúde, serviços de emergência, entidades públicas e agentes privados. Reconhecer esse esforço é uma questão de justiça. Usá-lo para fingir que tudo correu globalmente bem seria apenas propaganda institucional com iluminação de emergência.
É precisamente por isto que o ambiente e a energia têm de ser desideologizados. Não despolitizados, porque as escolhas energéticas são inevitavelmente políticas. Cabe à política definir prioridades, avaliar riscos, defender consumidores, proteger setores produtivos e garantir a segurança do abastecimento. O que não lhe cabe é escolher antecipadamente quais são as respostas técnicas autorizadas e depois mandar produzir estudos que confirmem a conclusão previamente aprovada.
Portugal investiu corretamente nas energias renováveis e deve continuar a fazê-lo. A energia hídrica, a eólica, a solar, a biomassa, o biogás e o biometano têm um papel importante no nosso mix energético. Esse reconhecimento, porém, não obriga a aceitar qualquer projeto, em qualquer localização, com qualquer dimensão, apenas porque o promotor escreveu “verde” na apresentação e colocou uma fotografia de uma criança a correr num campo.
As energias renováveis não recebem uma licença ambiental vitalícia no momento em que são batizadas.
Basta olhar para o que está a ser projetado no eixo de Montemor-o-Novo e Évora. A Central Solar Fotovoltaica da Graça do Divor foi apresentada com uma potência superior a 200 megawatts, mais de 360 mil painéis e uma implantação na ordem das centenas de hectares, aos quais acrescem as infraestruturas elétricas necessárias ao escoamento da produção. Entretanto, novos projetos surgem na região, como por exemplo em Montemor-o-Novo, da empresa chinesa Chint Solar, que conta com uma central solar, mas também eólica. Entre estes, muitos outros projetos vão surgindo quase como cogumelos em tempo húmido.
Ora, não significa isto que os projetos devam ser automaticamente rejeitados. Significa precisamente o contrário daquilo que os ambientalistas radicais costumam fazer. Significa que devem ser avaliados com seriedade, tendo em conta a ocupação do solo, o impacto sobre o montado, a paisagem, a biodiversidade, a agricultura, as populações e a rede elétrica.
É perfeitamente possível apoiar a energia solar e recusar que o Alentejo se transforme numa interminável zona industrial de painéis. É possível querer mais produção renovável e exigir que os projetos sejam implantados prioritariamente em coberturas, áreas industriais, terrenos degradados, infraestruturas existentes ou locais de menor sensibilidade ecológica. É possível defender a descarbonização sem aceitar que a palavra “renovável” sirva para lavar qualquer atentado ecológico.
Caso contrário, o chamado greenwashing deixa de ser apenas uma estratégia de marketing empresarial e passa a ser política pública. Destrói-se património natural em nome do ambiente, industrializa-se a paisagem em nome do ambientalismo e entregam-se vastas áreas do território a projetos de escala megalómana porque o impacto foi devidamente pintado de verde.
A mesma honestidade intelectual tem de ser aplicada à energia nuclear. No dia 30 de julho, o CHEGA apresentou na Assembleia da República uma iniciativa que recomenda ao Governo a adoção de uma posição favorável e tecnologicamente neutra relativamente à utilização pacífica da energia nuclear e a realização de um estudo independente sobre a eventual utilização de pequenos reatores modulares em Portugal.
Não foi proposta a construção imediata de uma central nuclear. Não foi escolhida qualquer localização, tecnologia ou empresa. Foi proposta uma avaliação séria da viabilidade técnica, económica, ambiental, territorial, regulatória e financeira destas tecnologias, incluindo os custos, os prazos, a segurança, o combustível, os resíduos radioativos, o desmantelamento e a capacidade das entidades nacionais responsáveis pela regulação e fiscalização.
Parece uma posição prudente. Para a ortodoxia eco-marxista, contudo, o simples ato de estudar já representa um perigo. Para eles, o problema não está nos riscos da tecnologia, que devem evidentemente ser avaliados, mas sim no risco de o estudo não chegar à conclusão ideologicamente desejada.
Porém, enquanto Portugal continua a discutir o nuclear com argumentos importados das manifestações dos anos 70, a Europa avança. Em março de 2026, a Comissão Europeia apresentou uma estratégia destinada à criação de uma cadeia de abastecimento europeia para pequenos reatores modulares, apontando para que os primeiros projetos possam entrar em funcionamento no início da década de 2030. A própria Comissão enquadra estas tecnologias como instrumentos de independência energética, competitividade e complementaridade com as energias renováveis.
Portugal não tem de decidir hoje construir uma central nuclear. Tem, no entanto, a obrigação de acompanhar o desenvolvimento tecnológico, participar nos programas europeus, preservar conhecimento científico nacional e perceber se, no futuro, os pequenos reatores modulares poderão contribuir para a estabilidade da rede, para o abastecimento de grandes consumidores industriais, para a produção de calor, para a dessalinização ou para outras utilizações que exijam energia permanente e de baixo carbono, por exemplo, os famigerados data centers.
Mesmo que um estudo venha a concluir que a opção nuclear não é economicamente adequada a Portugal, essa conclusão terá valor porque resultará de uma avaliação objetiva. A exclusão antecipada, pelo contrário, não é prudência. É apenas preconceito disfarçado de política energética.
A mesma lógica aplica-se aos recursos naturais. Portugal gosta de se apresentar como uma grande Nação atlântica, exibir mapas da sua Zona Económica Exclusiva e falar da extensão da plataforma continental como se a dimensão marítima, por si só, nos transformasse numa potência. No entanto, aprova moratórias até 2050 que colocam a prospeção e a exploração no mesmo saco e impedem o Estado de aprofundar o conhecimento sobre parte dos recursos que poderão existir no seu próprio território marítimo.
O princípio da precaução é indispensável perante riscos sérios e incerteza científica, mas não pode ser transformado num princípio de ignorância deliberada. A existência de incerteza deve justificar mais investigação, melhor cartografia, maior capacidade científica, regras mais exigentes e decisões graduais. Não deve obrigar o Estado a fechar os olhos até 2050 e esperar que outros países façam o trabalho, desenvolvam a tecnologia e controlem as cadeias de abastecimento.
Prospeção não é exploração. Recolher dados não equivale a abrir uma mina. Avaliar uma ocorrência geológica não concede automaticamente o direito a uma operação comercial. Entre a proibição absoluta e a exploração irresponsável existem estudos, avaliações prévias, projetos experimentais, zonas de exclusão, monitorização independente, garantias financeiras e regimes de responsabilização dos operadores.
Revogar uma proibição absoluta também não significa autorizar tudo. Significa devolver ao Estado a capacidade de conhecer, avaliar e decidir, incluindo a liberdade de rejeitar projetos quando os riscos ambientais, a ausência de viabilidade económica ou a falta de interesse nacional assim o determinem. A soberania não consiste em desconhecer os próprios recursos e importar permanentemente aquilo que se recusou sequer estudar.
Portugal continua com uma dependência energética próxima dos 65%, apesar do crescimento significativo da produção renovável. Continua a importar gás natural, combustíveis e eletricidade, mantendo uma exposição considerável a fornecedores externos, perturbações internacionais e decisões tomadas fora do território nacional.
Não se combate esta dependência substituindo uma monocultura energética por outra, nem trocando a dependência de combustíveis fósseis pela dependência de painéis, baterias, minerais, tecnologias e cadeias industriais controladas por países terceiros. A transição energética deve ser também uma oportunidade de reindustrialização, desenvolvimento tecnológico e recuperação da capacidade nacional de decisão.
Portugal precisa de uma política que combine energias renováveis, armazenamento, redes robustas, aproveitamentos hídricos, gases renováveis, capacidade firme e participação no desenvolvimento nuclear europeu. Uma política que proteja o território sem condenar o país à dependência, que reduza emissões sem sacrificar a indústria e que defenda o ambiente sem entregar a política energética aos paladinos da ansiedade climática.
Não temos de escolher entre negar os problemas ambientais e aceitar todos os dogmas apresentados em nome do planeta. Não temos de escolher entre autorizar tudo e proibir até o conhecimento. Temos apenas de voltar a tratar o ambiente e a energia como matérias sérias, nas quais a ciência informa, a política decide e o interesse nacional prevalece.
No final do dia, as ideologias podem sobreviver de slogans. No entanto, uma Nação, quando fica sem eletricidade, precisa de muito mais do que isso.