1. O de Cameron

O resultado do referendo é inequívoco quanto à vontade Leave de Inglaterra e Gales (a história é diferente em Londres, Irlanda do Norte e Escócia) e, quando assim é, não se pode atribuir as causas do sucedido só ao comportamento dos agentes políticos que acaba por, melhor ou pior, refletir o que se passa na sociedade.

Mas, por inelutável que fosse a força das ondas eurocéticas na sociedade britânica e nos Tories (aqui, nada de novo), é inegável que a condução de todo o processo pelo agora demissionário primeiro-ministro David Cameron, já bem explicada por exemplo aqui, foi aviltante. Mesmo que as suas convicções sobre a questão europeia sempre tenham sido gelatinosas, Cameron não teve nem a visão, nem a coragem, de defender a Europa como se impunha.

No run-up para as últimas eleições, entre o que sentiu ser a espada do nacionalismo acirrado e populista do UKIP e a parede do crescente euroceticismo na bancada Tory, Cameron arriscou esta jogada: ser o primeiro-ministro que defende o referendo e ao mesmo tempo o Remain, com um plano (?) para exigir concessões especiais à União Europeia. Tudo porque entendeu – e provavelmente bem – que assim maximizava a probabilidade de conseguir manter o lugar, num segundo e eventual terceiro mandatos.

Arriscou, mas perdeu, e assim levou o Reino Unido por um caminho que, no mínimo, o deixará mais pobre e fechado mas também menos influente. No pior cenário, conduziu-o à sua desagregação em três ou mais fatias. E deixa a Europa a braços com problemas igualmente graves.

Pior exemplo de taticismo político irresponsável seria difícil. Se tudo correr (muito) mal, rezará a história que foi um egoísmo cultivado em Eton e Oxford a desencadear o desmoronamento da União Europeia.

2. O britânico

Um dos argumentos mais importantes – e mais demagógicos – da campanha do Leave foi a utilização dos exemplos dos países da EFTA e da Suíça. Vejam, como têm prosperidade e segurança fora da UE, “sem se sujeitarem aos ditames de Bruxelas”. O que não disseram, claro, é que para aceder ao mercado único a partir de fora, os acordos comerciais que estes países têm com a UE implicam obrigações de regulação e controlo não muito diferentes dos que teriam dentro – e sem influência na sua definição.

Mas o ponto que destaco, aqui, é outro.

Sem prejuízo de outros fatores que foram construindo a ordem internacional do pós-II Guerra, o chamado “projeto europeu”, nas suas várias iterações até à atual União Europeia, e independentemente das várias críticas que possa merecer, foi decisivo para garantir paz, segurança e a manutenção e aprofundamento dos valores da democracia liberal no espaço europeu.

Para o cumprimento destes desígnios, alguma perda ou partilha de soberania foi e é fundamental, com variantes de grau, conteúdo e forma, com “chatas” negociações e dissensões com os outros países e sempre com algum tipo de “governo” central da União, como forma mais eficiente de gerir este processo.

Neste sentido, os países europeus que se colocam fora deste processo custoso estão essencialmente a ter um comportamento de free rider. Não estão dispostos a contribuir para a construção do “bem público” que é a União, dificultando-a, mas beneficiam na mesma da garantia de estabilidade e segurança que só ela pode dar.

Assim, estereótipos à parte, olhando para o respetivo contexto histórico, o egoísmo coletivo do Leave seria expectável vindo da Suíça, por exemplo; não surpreenderá se a Dinamarca o seguir; vindo do povo britânico, defensor original de boa parte do que são os valores europeus, só nos pode desiludir e muito.

3. E o seu contrário, dos Millennials

Uma característica particular apontada à minha geração – os chamados Millennials – é o seu maior individualismo. Simplificando muito, deve-se a termos nascido já bem dentro de um tempo muito confortável, de quase total paz e prosperidade; mas muito acelerado pela nossa simbiose com a Internet e as tecnologias de informação em geral.

Este individualismo é tipicamente visto com alguma preocupação e tristeza pela sociedade em geral e pelos setores mais à esquerda em particular – mas não deve ser confundido com egoísmo e com os valores, em grande medida liberais, que partilhamos.

Ora, os dados acima (de uma sondagem à boca das urnas) parecem assim encerrar um bom paradoxo (e prenúncio): pela vontade dos que nos representam no Reino Unido, teríamos tido mais #bettertogether do que #takecontrol. Ou seja, aqueles que serão mais afetados pelos efeitos e implicações do Brexit, não o querem – aliás, dada a complexidade e os prazos do processo, é fácil perceber que muitos dos que o decidiram poderão já nem assistir à sua conclusão.

Os números do pró-europeísmo nos restantes países mostram tendências semelhantes. É encorajador que tantos de nós, que só assistimos às imagens da queda do Muro em diferido, tenhamos esta intuição, este sentimento claro de que, juntos, percorreremos melhor o caminho da História nas próximas largas décadas. Mais do que encorajador, é reconfortante, quando os gritos dos populismos suscitam ecos do pré, e não do pós, II Guerra.

Pensando bem, não surpreende quando, noutros países, além de Millennials somos também a geração Erasmus que nunca viu fronteiras; a geração euro que não se lembra do escudo, do franco ou do marco.

É em nós que, com a nossa propensão para caminharmos contra os fantasmas, no caminho certo da História, poderá estar a garantia de que Cameron será lembrado apenas como um primeiro-ministro sofrível e não como o temerário Tory que levou ao fim da União Europeia. Mas é também em nós que reside a principal ameaça.

A nossa intervenção cívica e política é, como é sabido, histórica e tragicamente fraca. Não é suficiente para que consigamos assegurar esta função histórica que temos: a de fazer com que o século XXI na Europa seja de facto o melhor de sempre e não redunde num mau remake do anterior, como num dia como este poderão indicar as previsões mais catastrofistas.

Se tal acontecer, só posso falar por mim: sei onde quererei ter estado quando, depois do Brexit, começaram a levar a Europa ao charco. Mas o que espero, realmente, é que o dia da derrota do #bettertogether seja também, para nós, de #wakeup.

Economista e diretor executivo do Institute of Public Policy Thomas Jefferson-Correia da Serra

luistm@ipp-jcs.org

Twitter: @_luistm