Há mais de seis anos, Portugal deu um passo histórico com o Decreto-Lei n.º 54/2018, que veio instituir o modelo da Educação Inclusiva.

A promessa era simples e nobre: nenhuma criança ou jovem ficaria para trás, e todas as escolas seriam capazes de responder à diversidade humana, com recursos adequados, formação docente e apoios especializados.

Mas a realidade de 2025 mostra-nos algo muito diferente.

A Educação Inclusiva transformou-se num conceito bonito em papel, mas incompleto na prática.

Faltam profissionais, faltam terapeutas, faltam intérpretes, faltam condições.

E o resultado é que, em vez de se fortalecer o ensino regular, voltamos — silenciosamente — a empurrar as crianças com deficiência para o ensino especial, como se a inclusão fosse um privilégio e não um direito.

O que vemos, um pouco por todo o país, são escolas a declarar-se “sem meios”, direções que dizem “não poder fazer mais” e famílias desesperadas a quem é dito que a única solução é transferir os filhos para escolas de referência, muitas vezes a dezenas de quilómetros de casa.

Isto não é inclusão — é reencaminhamento institucionalizado.

O espírito da lei é claro: a escola regular deve estar preparada para todos.

O ensino especial deve existir como apoio, não como destino inevitável.

O mesmo diploma obriga à formação dos docentes do ensino regular em práticas de inclusão, e à mobilização de equipas multidisciplinares (as EMAEI) e centros de apoio à aprendizagem (os CAA).

Nada disso justifica que uma criança seja afastada da sua comunidade escolar apenas por falta de recursos humanos ou logísticos.

A inclusão não se cumpre com relatórios, mas com presença, apoio e empatia.

Requer investimento real — não apenas em equipamentos, mas em pessoas: professores capacitados, técnicos especializados, terapeutas da fala, intérpretes, assistentes e mediadores.

Cada euro investido em reabilitação é um euro poupado em exclusão futura.

A reabilitação é, acima de tudo, um investimento social e humano.

Vivemos numa época em que a ciência e a tecnologia já permitem às pessoas com deficiência sensorial participar plenamente na vida social, académica e profissional.

Implantes cocleares, próteses auditivas inteligentes, sistemas de amplificação sonora, ferramentas digitais acessíveis — tudo isto existe, funciona e devolve autonomia.

Mas de nada serve a tecnologia se as instituições públicas continuarem a encarar a deficiência como limitação, e não como potencial a ser desenvolvido.

A pessoa que opta pela reabilitação — seja criança, jovem ou adulto — não procura tratamento especial; procura apenas igualdade de oportunidades.

Não quer ser olhada com pena, mas com respeito.

Quer viver e conviver de forma natural, estudar com os seus pares, trabalhar com dignidade e ser reconhecida como parte ativa da sociedade.

É por isso que a Associação OUVIR apela aos responsáveis políticos — ao Ministro da Educação, aos Secretários de Estado, ao Primeiro-Ministro e à Assembleia da República — para que olhem para a Educação Inclusiva não como um capítulo resolvido, mas como uma urgência adiada.

Precisamos de reforçar recursos humanos, formar professores, garantir técnicos em todas as escolas e estabelecer respostas rápidas para situações transitórias ou excecionais.

A inclusão não é uma utopia.

É uma construção diária que exige compromisso, sensibilidade e investimento.

E enquanto houver uma criança, um jovem ou um adulto privado do direito de aprender e de participar, a missão da Educação Inclusiva não estará cumprida.