Estamos a entrar em época eleitoral. O que significa, para nós, simples cidadãos, um período de ainda mais intenso labor. A obrigação cívica de votar, que nos é imposta pelas escrituras sagradas da nossa república (art. 46º), tem implícita a exigência de que o nosso voto1 seja informado e responsável2.
Informado sobre o quê? Por um lado, sobre a atuação das diversas forças políticas, e seus agentes, no parlamento, no governo, e na vida pública em geral. Isto já implicou, até agora, um atento acompanhamento diário dos, digamos assim, ‘trabalhos’ parlamentares. Como é obvio, isto tem-nos requerido várias horas diárias de visualização da ARTV, certamente o canal televisivo mais intensamente visionado no nosso país, para melhor perceber a assiduidade, carater, ideias, moral, políticas, tiques & zaragatas daqueles que foram por nós eleitos3 — elementos fundamentais para formação da uma decisão4 responsável.
Por outro lado, o nosso voto também deve ser informado pela análise da produção legislativa, seja governamental, seja parlamentar, dos últimos anos. Isto tem-nos obrigado, no mínimo, à leitura assídua do Diário da Ré-pública, para avaliar da qualidade de leis5 & leizinhas, regulamentos & regulamentinhos produzidos por ministros, deputados e outros barões intermédios. Dado o acima referido acompanhamento atento & próximo das sessões parlamentares e suas comissões, grupos de trabalho e afins, que quase sempre esgota todo o nosso santo dia, esta leitura muitas vezes nos exige que façamos diretas e, mesmo assim, algumas vezes parte dela tem de ser deixada para os fins de semana.
A isto acrescenta, para uma perspetiva mais profunda sobre o governo da nação, a leitura dos comentários elaborados por especialistas nas revistas académicas publicadas pelas meia-dúzia de faculdades de direito, economia e saúde pública mais eminentes no nosso país, sobre essa mesma legislação e suas previsíveis consequências, isto para já não referir os numerosos, relevantes & sérios artigos na coluna de Opinião do Observador, bem como a observação assídua & atenta da realidade6 social, económica e cultural visível nas nossas ruas, hospitais púbicos & mercados. Se assim não fizéssemos em que se basearia o nosso voto? Numa fé cega na competência, honestidade e visão dos nossos políticos?
Para além de todo este trabalho, agora, em período pré-eleitoral, sem descurar em fazer uma revisão de tudo o que já apreendemos & analisámos da atividade política e governamental nos anos mais recentes, temos de estar atentos às ações de rua, comícios, direito de antena, programas eleitorais, sessões de esclarecimento, jantaradas e outras oportunidades durante as quais duas dúzias de agremiações políticas e várias centenas de candidatos7 quererão partilhar connosco a sua visão, planos e estratégias para o futuro da nossa nação. Quando teremos tempo para dormir?
Ser eleitor informado e responsável é, portanto, trabalho intenso e a tempo inteiro. Para ser feito com seriedade, o acompanhamento da atividade política e governativa que nos habilita a votar responsavelmente requer, em tempos normais, muito mais que as 35 horas semanais da função pública8. 70 horas chegarão? É duvidoso. Se Elon Musk fosse um simples compatriota eleitor, certamente que dormiria no chão de um corredor algures em S. Bento. Assim será legitima a pergunta: sendo as responsabilidades de um honesto eleitor um trabalho a tempo inteiro, e não só a tempo inteiro, mas também intenso e com muitas horas extra, e sendo ainda um serviço público, não merecerá por parte do nosso estado o pagamento de um salário justo?
É evidente que numerosos grupos de eleitores já recebem uma compensação adequada por votarem no partido do guverno através de vencimentos, avenças, benefícios, contratos, dispensas, favores e isenções estatais diversas. Mas os outros, aqueles que são independentes, porque é que não são remunerados? Ou será que a única recompensa que merecem são os fantásticos serviços públicos que temos, comprovadamente os melhores do mundo, e a muito moderada carga fiscal que suportamos? Será a presente situação justa? Não é verdade que ‘patrão que não paga salário não respeita trabalho nem trabalhador’? E não se aplicará ao estado português aquilo que diz o profeta: “Ai daquele que edifica a sua casa com injustiça, e os seus salões com iniquidade, que se serve do serviço do seu próximo sem remunerá-lo, e não lhe dá o salário do seu trabalho”? (Jer. 22,13).
E, já agora: não recebendo a maioria dos eleitores9 um vencimento, porque será que deputados, ministros & similares o receberão? Será que trabalham mais que nós, simples eleitores que lutamos diariamente por nos mantermos informados de modo a votar responsavelmente? Onde está a justiça? Onde para a equidade? Ou será que o sistema10 está a gozar connosco? Apesar de ser o nosso voto responsável & informado que dá legitimidade ao sistema?
Face a isto, é obvio que podemos desistir do esforço trabalhoso que temos para nos manter informados e passarmos a votar ao acaso & irresponsavelmente. Mas qual seriam as consequências? Não levaria isso a uma descredibilização do racional em que assenta o nosso processo democrático e ao consequente descambe da nossa democracia? Nestas circunstâncias não será de nós, eleitores fiéis aos ideais democráticos, e, portanto, informados e responsáveis, marcarmos posição & fazermos greve ao próximo ato próximo eleitoral para defender a vitalidade da nossa democracia?
Us avtores não segvew as regras da graphya du nouo AcoRdo Ørtvgráphyco. Nein as du antygu. Escreuew covmv qverew & lhes apetece. #EncuantoNusDeixam
- Voto: instrumento de um homem livre para obter & justificar a sua dependência & servidão a uma clique; processo cujos resultados provam repetidamente a contumaz ignorância e ingenuidade dos eleitores e asseguram a progressiva ruína da nação; segundo uma teoria política, a decisão votada pela maioria assegura seu caráter ético e, segundo uma teoria sociológica, assegura a sua inerente legitimidade, duas teorias comprovadas na história eleitoral alemã na primeira metade do séc. 20.
- Responsabilidade: antigamente, carga facilmente descartável nos ombros do chefe, Deus, estrelas, fatalidade, mulher ou vizinhos; atualmente, carga descartável no racismo sistémico (não no pessoal), sexismo sistémico (idem), x-, y- & z-fobismo (idem) e, de um modo geral, num sistema que tem a aparência & materialidade de um espírito fantasmagórico.
- Eleito: (em Portugal) escolhido para exercer uma função pública e expandir a função pública; (in Argentina, Pakistan, the USA, Vietnam, etc.) escolhido para exercer uma função pública e cortar na função pública.
- Decisão: sucumbir a um conjunto de influências, externas e internas, por nós não controladas nem escolhidas.
- Lei: ordem do soberano cuja dignidade é especialmente honrada quando é violada; prima afastada da Justiça com a qual se dá mal e frequentemente corta relações; vizinha da realidade, que amiúde não entende; instituição que sofre de ilusões de poder, nomeadamente de ser capaz de impor padrões de comportamento e sistemas de moralidade (ver, por exemplo Constituição da República portuguesa); não infrequentemente, a sua patologia torna-se extrema e leva-a a assumir as funções legitimamente exercidas apenas pela Misericórdia, pela Compaixão e pela Solidariedade; numa democracia é suposto ser o eleitor quem a gera, mas a virtude da senhora democracia levanta dúvidas legitimas sobre a verdadeira paternidade da Lei, embora não haja dúvida que é ele que a tem que aturar toda a vida.
- Realidade: o as coisas não serem como nós as quiséramos ver; segundo o neo-warxismo, aquilo que o Comité Central define ser; nesta perspetiva, a essência da realidade é a do vácuo moldável; no Tomismo, aquilo que encontra quem salta do telhado convencido que a teoria da gravitação é uma mera opinião, o denominado ‘encontro com a realidade’ em antros reacionários e em círculos financeiros; aquilo que tem odor, como o cheiro a suor depois de um dia trabalho.
- Candidato:dador, ou distribuidor, de candy.
- Função pública: cargo nobiliárquico, com vários graus e dignidades, que confere aos seus membros o direito de receberem de volta a duplicar, triplicar, ou a multiplicar por fator k>2, a título de vencimentos, os impostos que pagam.
- Ele tor:aquele que cala, paga e obedece; pessoa que tem o privilégio de poder votar num grupo de pessoas, a que se chama “lista” ou “candidatos”, escolhidas por outro grupo de pessoas que não foram escolhidas por ela; como este exercício possa eventualmente redundar em benefício do eleitor, é um mistério.
- Sistema democrático: processo político em que dois lobos e uma ovelha votam o que vão fazer para o jantar, o que é mais legitimo e eticamente superior a ser uma ovelha a tomar unilateral & ditatorialmente essa decisão.