Em 2050 dividiremos o planeta Terra com outros 9,7 bilhões de habitantes. Apesar da média portuguesa de 1,36 filhos por casal ser lugar-comum na maioria dos países ocidentais, nas economias em desenvolvimento ainda teremos de ver algumas décadas passar até à menor mortalidade infantil, maior acesso a planeamento familiar e aumento da classe média se refletirem numa redução considerável da taxa de natalidade.

Por aqui, viveremos com uma população envelhecida, uma situação que se começa a sentir e para a qual nos vamos preparando lentamente, e que será de certo interessante de presenciar (à parte das eventuais alterações ao sistema de segurança social): teremos finalmente rampas em todos os passeios? Uma rede de transportes públicos verdadeiramente acessível e conectada? Um leque variado de opções de lazer e trabalho para a pós-reforma? Os desafios serão vários, mas com massa crítica em tantos países ocidentais, é de esperar que as soluções abundem e que as futuras gerações de cabelos brancos vivam melhor que as atuais.

No mundo em desenvolvimento far-se-ão sentir desafios diametralmente opostos, com um grande número de países em que a população com idade inferior a 15 anos será superior a 50% (em Portugal atualmente é cerca de 15%). A realidade para muitos jovens de economias em desenvolvimento, mesmo aqueles com o ensino secundário ou universitário, é que chegados à idade ativa encontram um mercado que não os recebe, que os deixa entregues ao desemprego, à desocupação, ao desespero. São jovens criados a acreditar que a educação lhes daria uma vida melhor, mas que crescem para encontrar essa porta fechada. Esta via não lhes está aberta porque os seus países não lhes oferecem uma indústria e um sector de serviços competitivos e dinâmicos o suficiente para fazer face às necessidades de empregabilidade de tantos habitantes e a agricultura continua a exigir trabalho de sol a sol e a gerar uma retribuição baixa. Na sua maioria, também não possuem um passaporte que lhes possibilite tentar a sua sorte em países mais bem-sucedidos, como é o caso dos cidadãos europeus.

Estes desafios não são novos e o trabalho no sentido de os resolver também não. Exigem soluções integradas ao nível da educação, fortalecimento do sector privado e eliminação das barreiras ao investimento, aumento da produtividade agrícola, melhoria da rede de transportes, entre outras. No entanto, e tal como temos presenciado em Portugal, há um fenómeno que tem captado o interesse dos governos destes países e dos principais financiadores em matéria de desenvolvimento internacional, o empreendedorismo.

Além de possibilitar o auto-emprego e a criação de novos postos de trabalho, o empreendedorismo tem o potencial de resolver problemas sentidos especificamente onde essas inovações emergem e de escalar essas soluções para outras geografias. Não falo portanto de empreendedorismo como o simples ato de abrir um negócio mas, como definiu Joseph Schumpeter, de empreendedorismo como sinónimo de inovação, seja pela criação de novos produtos, desenvolvimento de novos métodos produtivos, exploração de novos mercados ou concepção de novas formas de organização.

O apoio ao empreendedorismo pode possibilitar não só mais saltos tecnológicos, como o que se experienciou no uso do correio para telemóveis sem passar pelos telefones fixos em grande parte do continente africano, como também um desenvolvimento feito de raiz de forma sustentável, como a eletrificação recorrendo à energia solar em regiões que até então nunca tinham estado ligadas à corrente eléctrica.

Bons exemplos não faltam, tal como o da app moçambicana Biscate que pretende fazer face ao trabalho informal e desemprego, juntando trabalhadores manuais e potenciais clientes. Ou a ruandesa VOMA que comercializa quiosques solares que extraem e purificam água em zonas rurais, evitando que mulheres e crianças tenham de se deslocar diariamente para recolher água não potável de poços distantes, podendo dedicar o seu tempo a outras atividades. Ou a Favizone, uma startup tunisina que pretende oferecer às PME serviços de inteligência artificial como chatbots e recomendações de produtos que ainda só são acessíveis às grandes empresas. Ou a queniana Ecodudu que recolhe resíduos biológicos, que não só servem de alimento a moscas cujas larvas são processadas para ração animal, como os transforma em fertilizantes orgânicos. Ou outras tantas startups em áreas como a educação, saúde, finanças, transportes, alimentação e turismo espalhadas pelo mundo em desenvolvimento que estão a dar resposta a algumas das falhas nacionais e regionais nesses mercados.

Obstáculos como a dificuldade de acesso a financiamento, limites à importação e exportação, falta de infraestruturas, corrupção e instabilidade política não são caso raro nestes países. No entanto, não têm impedido que cada vez mais investidores considerem as suas startups atrativas e vejam potencial nestes mercados de habitantes de baixo rendimento, mas em grande número.

Os ecossistemas empreendedores de países e regiões em desenvolvimento estão em expansão, com aceleradoras, concursos de empreendedorismo e fundos de investimento a multiplicarem-se de ano para ano, focados não só no empreendedorismo tradicional como no social. Ao nível regulamentar também se vislumbram melhorias, como no caso da Guiné-Bissau em que já é possível abrir uma empresa em menos de 24 horas, mas estas acontecem de forma demasiado lenta para um sector em que a rapidez é muitas vezes crucial.

O caminho para que o empreendedorismo em países em desenvolvimento possa atingir o seu potencial de geração de emprego e resolução de desafios locais é longo e está apenas no início. Para que seja percorrido vai exigir o apoio e coordenação  dos governos nacionais e agências internacionais, oferecendo financiamento, alterando políticas e legislação, reformulando o sistema educativo e apoiando organizações e programas que procurem capacitar, acompanhar e financiar empreendedores. Além disso, para que seja inclusivo e sustentável, não poderão ser esquecidas as zonas rurais e remotas e os desafios sentidos particularmente pelas mulheres e minorias étnicas. No entanto, as perspectivas são hoje mais positivas para os jovens de países em desenvolvimento de agora e de 2050, que mesmo que não venham a ser os criadores de grandes inovações, podem vir a beneficiar delas.

Filipa Correia de Araújo tem 27 anos e é consultora associada de desenvolvimento internacional na CESO Development Consultants. A sua área de foco é a promoção do empreendedorismo como resposta à falta de emprego e estímulo ao sector privado em países em desenvolvimento

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.