1 A perfectibilidade humana
Livros como O Deus das Moscas ou O mal-estar na Civilização ajudam-nos a fazer um exercício que a modernidade tornou progressivamente mais difícil: recordar, como o pequeno Simon descobriu, que a fera se encontra no interior de cada um de nós – ou, na versão cristã, de que somos seres decaídos e, por isso, tendemos para o erro.
Esta lição, que os antigos conheciam bem, foi posta em causa com a modernidade das Luzes e a ideia, cunhada pelos filósofos desse período, de perfectibilidade humana. É possível que esse caminho tenha começado logo no Renascimento, de que o Discurso Sobre a Dignidade do Homem, de Giovanni Pico Della Mirandola, seria um bom exemplo. Mas é, sobretudo, no século XVIII que se estabelece a convicção de que o ser humano é um ser que se pode aperfeiçoar.
É nesta ideia de perfectibilidade que poderíamos fundar a noção de progresso que marca o pensamento moderno: é porque somos capazes de um aperfeiçoamento contínuo, que o progresso moral, social e político se tornaria possível. Se nos tornarmos moralmente melhor, podemos criar um mundo melhor e mais justo.
A consequência deste argumento não nos deve escapar: a perfeição era uma característica divina, pelo que a crença na perfectibilidade humana é, em certo sentido, uma tentativa de usurpação do lugar do Criador, capaz de governar e dispor sobre todas as coisas. Para muitos destes filósofos, um mundo sem Deus era inimaginável, mas foram eles que lançaram as sementes para esta divinização do homem e a crença na sua capacidade de fazer um mundo perfeito.
Assim se compreende a obsessão com os projetos de reeducação: se o homem se pode aperfeiçoar moralmente, então todos os seus defeitos poderiam ser corrigidos com engenharia educativa, sessões de luta, formação para a cidadania. Se o homem se pode aperfeiçoar moralmente, então o racismo, o preconceito, a discriminação seriam apenas resultado da falta de vontade de se submeterem ao processo de melhoramento.
Mas também deixa de ser surpreendente que a ambição política se tenha revelado tão desmedida: como se age sob a convicção de que se pode corrigir tudo o que está errado no mundo, tornamo-nos incapazes de nos determos e aceitar que há coisas que nunca poderão ser corrigidas e melhoradas, seja porque somos imperfeitos, seja porque o mundo é também ele imperfeito.
2 O lobo do homem
É possível que esta crença na perfectibilidade humana tenha sido agravada, como uma doença, pelos últimos e pacíficos setenta anos no Ocidente: a guerra constituiu sempre um lembrete da nossa natureza – ela revela a besta que subjaz, a besta dos outros e a nossa – e as gerações que beneficiaram deste clima de paz foram perdendo esta lição.
Também nos tornou, como diz o historiador britânico Dominic Sandbrook (num episódio do podcast Triggernometry que vale mesmo a pena ouvir) mais moralistas do passado: como não somos colocados nesse perigo de morte, tendemos a considerar que nunca faríamos as coisas que os seres humanos sempre fizeram uns aos outros ao longo da história e tendemos a considerar-nos melhores do que os nossos antepassados. De um modo que não gostaríamos de admitir, a ausência de guerra impede-nos de nos conhecermos melhor.
Para Thomas Hobbes, a guerra seria mesmo a condição natural do homem. Se vivêssemos em estado de natureza – sem soberano, sem leis, sem monopólio da violência legítima por parte do estado –, a nossa condição seria a de conflito permanente e em resultado da nossa natureza: somos afinal, competitivos, desconfiados e ávidos de glória. E como partimos de condições de igualdade e ambicionamos as mesmas coisas, competimos entre nós por recursos que são escassos e a cooperação torna-se impossível: o homem seria o lobo do próprio homem.
Foi esta visão antropológica – de pessimismo antropológico – que deu forma a uma longa tradição de autores que reconhecem a necessidade da existência de um poder forte: considerando que o homem tem esta natureza, as instituições devem desempenhar um papel repressivo fundamental. Mas ainda que concordemos com Hobbes quando ele realça a besta que existe em nós, ainda assim parece que o filósofo inglês não diz tudo o que há a dizer sobre a natureza humana. Seremos realmente avessos à cooperação e ao altruísmo?
3 A lição de Rousseau
Jean-Jacques Rousseau parece cometer o mesmo erro de Hobbes, embora em sentido inverso. De acordo com Rousseau, no início do estado de natureza, o homem seria dotado apenas de bondade natural, agindo de acordo com dois princípios: o de amour de soi, que nos predispõe para a autopreservação, e o de repugnância quando vemos morrer ou sofrer qualquer ser sensível, principalmente se for nosso semelhante. A famosa tese de Rousseau defende que é a sociedade que nos corrompe – transformando o amour de soi em amour-propre – e nos torna competitivos, desconfiados e ávidos de glória.
A verdade é que os estudos antropológicos confirmam uma predisposição humana para a cooperação e o altruísmo: de acordo com a teoria das relações interpessoais de Alan Fiske, seria possível identificar quatro modelos de interação – baseados no parentesco, na reciprocidade, no poder ou naquilo que Fiske designa como “market pricing” – que fundamentam o instinto de cooperação humana e justificam grande parte do nosso comportamento. E Rousseau foi especialmente perspicaz em compreender que eles funcionam melhor dentro de comunidades mais pequenas e coesas (afinal, era genebrino): daí que o seu contrato social preveja uma comunidade política que replica o modelo mais homogéneo e pequeno da polis grega.
Como tantas vezes acontece, a resposta parece encontrar-se, então, a meio caminho. Nem Hobbes estava certo quando via apenas a fera, como também Rousseau estava errado quando via apenas bondade natural. Somos seres divididos, capazes do bem e do mal, da cooperação e do conflito. O que é demonstrado, aliás, pelos estudos que identificam os principais neurotransmissores produzidos pelo cérebro, e que Simon Sinek divide em dois grupos: as substâncias químicas “egoístas” (endorfinas e dopamina, cujo efeito nos permitem chegar onde precisamos enquanto indivíduos) e as substâncias químicas “altruístas” (serotonina e oxitocina, que trabalham para fortalecer vínculos sociais).
É esta natureza complexa que devemos ter em conta quando pensamos em questões de moralidade, educação e organização política, recordando que não somos seres perfeitos e não podemos reivindicar uma posição divina. E talvez possamos então, seguindo Louise Perry, regressar às lições que se mostram verdadeiras.