A descoberta de um conjunto de fósseis humanos, na China, deu origem a um estudo científico que propõe a classificação de um novo antepassado do ser humano atual – Homo juluensis. A análise sugere um novo avanço na teoria da evolução da espécie humana.
Segundo a CNN, a investigação, publicada no final de 2024 na revista científica Nature Communications, baseou-se em fragmentos de crânios, dentes e mandíbulas, descobertos no sítio arqueológico de Xujiayao, no norte da China, e noutros locais como Xuchang, desde a década de 1970. Até agora, estes fósseis tinham sido desvalorizados pela comunidade científica. Mas Christopher Bae, professor do departamento de antropologia da Universidade do Havai, e Wu Xiujie, professor do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia de Pequim, decidiram analisá-los com mais detalhe.
Uma característica particular da alegada nova espécie é um cérebro de grandes proporções, o que deu origem ao nome de Homo juluensis — em mandarim, ju lu significa “cabeça enorme”. “Os seus crânios são realmente muito, muito grandes. A capacidade craniana estimada é de 1.700 ou 1.800 centímetros cúbicos”, disse Christopher Bae, no livro a Paleoantropologia do sudeste publicado em setembro passado e citado pela CNN. Em comparação, acrescenta o paleontólogo, a capacidade craniana dos seres humanos atuais varia entre 1.350 e 1.450 centímetros cúbicos.
Bae e Xiujie adiantam que esta é a primeira “análise abrangente” dos fósseis descobertos no sítio arqueológico de Xujiayao. Os cientistas reconstruiram digitalmente um crânio a partir dos fragmentos encontrados e concluíram que o seu formato, grande, baixo e largo, é completamente distinto dos crânios de outras espécies conhecidas de hominídeos, como os Neandertais ou os Homo erectus, e também diferente dos crânios em forma de globo dos Homo sapiens.
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A importância deste estudo acentua-se pelo facto de poder resolver um enigma lançado com a descoberta, em 2008, de um pequeno fóssil de dedo mindinho, na Caverna Denisova nas Montanhas Altai, no sul da Sibéria. A análise de ADN do achado identificou uma população de hominídeos desconhecidos, que passou a ser genericamente designada de Denisovanos. Afinal, os denisovanos podem ser Homo juluensis.
Pela primeira vez há um rosto para os denisovanos, a espécie humana extinta há milhares de anos
Em declarações à BBC, Bae afirma que os Homo juluensis terão vivido há cerca de 300.000 anos. As suas principias atividades seriam a caça de animais selvagens e o fabrico de ferramentas. Terão desaparecido há cerca de 50.000 anos. E admite que a proposta de uma nova espécie humana poderá ser vista como “provocadora” pela comunidade científica.
E, como previu o coautor do estudo, a descoberta tem gerado controvérsia e divergências. Xijun Ni, professor do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia de Pequim, citado pela CNN, defende que os autores do estudo “ainda não apresentaram informações suficientes para classificar oficialmente o Homo juluensis como uma espécie recém-descoberta”.
O paleontologista Chris Stringer, ouvido pela BBC, também tem outra teoria. Argumenta que os fósseis analisados por Bae e Xiujie são muito semelhantes aos do Homo longi (homem dragão), uma outra espécie proposta pela primeira vez por cientistas chineses, em 2021. Por isso, diz que os achados correspondem a Homo longi, descartando o estabelecimento de uma nova espécie.