1 A máscara

Regressemos a William Golding e ao seu Deus das Moscas. Quando os rapazes perceberam que viviam porcos na ilha, um deles organizou um grupo de caçadores para garantir comida. Contudo, no primeiro momento em que, de faca na mão, se deparou com um animal, não conseguiu matá-lo. Todos compreenderam porquê:

“por causa da enormidade da faca a descer e a rasgar a carne viva; por causa do intolerável sangue.”

É apenas mais tarde, quando pinta a cara e a máscara que o camufla ganha vida, que o rapaz se liberta das regras da civilização. É um momento de transformação que a humanidade nunca esqueceu: os rapazes “compreendiam muito bem a libertação na selvajaria que a pintura de camuflagem proporcionava”.

O efeito simbólico da máscara está estudado: quando nos mascaramos, as convenções sociais ficam suspensas (não é exatamente o que acontece no Carnaval, nas suas diversas manifestações?) e sentimo-nos libertos para agir de modos diferentes do habitual. Mas essa fácil suspensão também mostra como as regras da civilização são uma fina camada de verniz – e que nos faz esquecer de que, por debaixo dela, a nossa natureza animal contém em si a possibilidade de selvajaria e violência.

A civilização é, assim, um difícil e precário equilíbrio entre regras e instituições que nos permitem viver com a menor violência possível. Mas como foi criada e como se sustenta?

Com a modernidade e as Luzes, e aquilo que poderíamos designar a viragem racionalista na filosofia, criou-se a expectativa – e a ilusão – de que aquele artifício moral fosse resultado da Razão. O pensamento racional e científico seria o garante da civilização (e, claro, do Progresso), levando-nos a reconhecer, através de um uso objetivo da Razão, as regras necessárias para uma convivência pacífica. Viver moralmente implicava conhecer as regras morais e aplicá-las racionalmente quando necessário.

Durante algumas décadas este modelo pareceu ser eficaz – mas talvez apenas naquele sentido em que, num momento inicial, alguém que salta de um precipício pode ter a ilusão de está a voar. Hoje é evidente que fracassou: a Razão não é suficiente.

2 Foi sempre a prática

A discussão filosófica em torno da noção de Progresso é complexa: como Steven Pinker mostrou, é impossível não reconhecer que há progresso quando olhamos objetivamente para certos dados, e é verdade que, tendencialmente, as sociedades são hoje menos violentas, num registo, aliás, sem precedentes. O problema é que isto não é toda a verdade. Se é impossível negar que, em alguns aspetos, houve melhorias, em outros estamos pior.

Os antigos podem reivindicar uma vantagem: eram mais humildes e menos cheios da certeza de estarem certos e serem melhores do que os seus antecessores. Em sentido contrário ao nosso, tendiam a admirar os antepassados e não a venerar o futuro. E algumas das suas lições, esquecidas ou “superadas”, parecem hoje estar mais perto da verdade. Pensemos em Aristóteles, hábil leitor da natureza humana:

“o homem nasceu com armas que devem servir a sabedoria prática e a virtude, mas que também podem ser usadas para fins absolutamente opostos. É por isso que o homem sem virtude é a criatura mais ímpia e selvagem, a mais grosseira de todas, a pior, no que respeita aos prazeres do sexo e da alimentação.”

O Estagirita nota que somos os únicos animais dotados de linguagem capaz de distinguir o certo do errado, pelo que a finalidade dos homens seria a virtude. Mas uma vida virtuosa não é uma questão de racionalidade: trata-se, antes, de um hábito, que se adquire através de prática e repetição. Como diz  Michael Sandel, a virtude moral é o tipo de coisa que aprendemos através da prática, como cozinhar: não aprendemos a cozinhar lendo livros de culinária, mas cozinhando – tal como aprendemos a ser virtuosos não lendo livros sobre virtude, mas desenvolvendo hábitos certos.

É por esta razão que Aristóteles defende que somos naturalmente sociais: precisamos de viver na polis, em conjunto com outros homens, para podermos praticar as virtudes. E ao contrário da versão moderna, as regras que nos permitem ser moralmente melhores e viver de forma mais pacífica têm de ser continuamente praticadas até se tornarem um hábito – não dependem da razão.

As crianças aprendem por repetição: a dizer “por favor” e “obrigado”, a segurar a porta para outros passarem, a dizer “bom dia” ou “boa tarde”, a levantar-se nos transportes públicos para os mais velhos, a dar prioridade aos mais frágeis e a pedir desculpa quando incomodam os outros. Funciona porque, como Aristóteles também ensinou, somos macaquinhos de imitação: aprendemos imitando o que os mais velhos fazem e é por isso que os mais velhos devem esforçar-se por ser bons exemplos.

Houve progresso nos últimos dois séculos? Claro que sim. Mas também esquecemos lições importantes.

3 O mal-estar da civilização

O texto mais político de Sigmund Freud tem precisamente como título O mal-estar da civilização. Não há aqui dúvidas quanto à natureza humana:

“A existência desta tendência para a agressão, que podemos detetar em nós próprios e presumir com segurança nos outros, é o fator que perturba a nossa relação com o próximo e que subjaz aos esforços da civilização. Esta hostilidade primária dos homens entre si é uma ameaça constante de desintegração da sociedade civilizada.”

Embora necessária, a civilização coloca-nos em constante estado de mal-estar porque nos obriga a reprimir desejos e pulsões. A solução, defendida por muitos autores influentes em meados do século XX, passaria pelo afrouxamento das regras sociais e morais para que pudéssemos libertar os nossos instintos e viver com mais liberdade – como se dizia então, “debaixo da calçada, a praia”.

No século XXI, somos filhos destas ideias: ignorando as lições dos antigos, fomos esquecendo de que nos cobrimos, a esforço de disciplina e regras, com as vestes frágeis da civilização. E, pior do que tudo, foi-nos sendo ensinado que tudo o que sentimos e desejamos é legítimo e pode ou deve ser perseguido. Trata-se de um pensamento curioso, pois bastaria um rápido autodiagnóstico para que o mais sensato fosse afirmar que muito do que desejamos e nos dá prazer deve ser reprimido. Mas a sociedade atual diz-nos que devemos ser livres de satisfazer todos os nossos desejos e prazeres.

É, provavelmente, mais um sinal da infantilização das sociedades ocidentais: não são, afinal, as crianças que saltam de desejo em desejo e fazem birra quando não conseguem aquilo que querem?

Os antigos sabiam que, para viver bem, tínhamos de dominar os nossos desejos e evitar as situações em que nos sentimos tentados. Também sabiam, numa formulação de Michael Moynihan, “que a felicidade não é, em última análise, o resultado de obtermos tudo o que queremos”. Acima de tudo, os antigos sabiam a importância do sacrifício. Nós, modernos, achamos que sabemos tudo.