Em 2020, passámos por uma pandemia que matou imensas pessoas, colocou muitas em risco e alterou a nossa rotina diária. Nunca nos tinha passado pela cabeça passar por aqueles momentos difíceis, enclausurados em casa, na incerteza do que iria suceder.
Foram realmente tempos complicados, em que todos vivíamos uma circunstância semelhante, independentemente do extrato social, raça ou religião. A solidariedade cresceu e ficámos com a sensação que o mundo tinha, definitivamente, mudado, parecíamos todos amigos uns dos outros e unidos na luta contra o que nos atormentava, acreditámos que o lado menos mau da pandemia era o facto de ter contribuído para uma grande mudança de mentalidades e, sobretudo, da forma de estar e viver a vida.
Passados 5 anos, percebemos que afinal não ficámos todos amigos, nem o mundo mudou, exceto o mundo digital. As guerras continuam a martirizar a vida de imensa gente, o egoísmo continua a imperar, também percebemos que toda aquela onda de solidariedade se desfez e, acima de tudo, percebemos que o melhor de nós só surge nos momentos mais aflitivos e depressa se desvanece.
Mas há um facto novo, tanto mais incompreensível como preocupante, que tem a ver com o aumento desmesurado da intolerância. É verdade, nos últimos 5 anos as pessoas tornaram-se muito mais intolerantes, tornando a nossa vida em sociedade menos feliz, mais solitária, e em que começaram a surgir alguns laivos de desumanidade.
As pessoas não param para pensar que a vida é uma passagem, muitas vezes demasiado rápida para nos aborrecermos por tudo e por nada, nem tão pouco pensam nos outros. Isso é notório no trânsito ou nos restaurantes em que a impaciência predomina sobre o bom senso, demasiadas vezes.
As redes sociais têm vindo a substituir as tradicionais tertúlias ou conversas no café com amigos, perdendo-se os momentos de convívio e de amizade genuína que foram dando lugar a um egoísmo e insensibilidade assustadores.
Quantas pessoas deprimem sem que ninguém dê conta?
Muitas, mesmo muitas, e só nos apercebemos que estão mal, após um desfecho trágico. O problema é que lamentamos muito no momento, mas depois voltamos à nossa vida normal e continuamos a ignorar outros casos semelhantes. A saúde mental passou a ter uma grande relevância dada a realidade que vivemos e não estávamos, nem estamos, preparados para isso.
O nosso ritmo de vida é, muitas vezes, alucinante e nem damos a devida atenção a quem está à nossa volta, se a isso somarmos o clima hostil que paira no ar, estão reunidos os ingredientes para desperdiçarmos o melhor que a vida tem para nos oferecer.
O caso de homicídios por razões insignificantes (nenhuma razão justifica um homicídio) também tem vindo a aumentar. Hoje em dia, mata-se por tudo e por nada, somos invadidos por notícias desse género diariamente, o que quase desvalorizamos, tal é o hábito de as ouvir. Tantos outros exemplos podiam ser dados, mas o importante é retermos a necessidade urgente de refletirmos sobre que tipo de vida queremos viver.
Toda esta intolerância de que padece a sociedade é sinal de que algo está muito mal e é um erro continuarmos a ignorar. Vivemos muito mais stressados o nosso dia a dia e menos felizes, em suma, vamos dando cabo de nós…