Durante demasiados anos, a inovação social foi território de sonhadores com poucos recursos, de ONGs corajosas e de startups sedentas de transformação. Os governos, por sua vez, observavam à distância, com curiosidade ou ceticismo.. Inovação? Sim, mas sem abalar estruturas.
Em abril deste ano, esse padrão foi quebrado. Portugal participou na primeira Cimeira Global de Governos para a Inovação Social, no Luxemburgo, ao lado de mais de 60 países. Aderiu à Declaração de Luxemburgo e tornou-se membro fundador do Conselho Global para a Inovação Social (GCSI), uma aliança inédita de Estados decididos a tratar a inovação social não como um acaso, mas como um método de governação rigoroso e transformador.
O GCSI propõe aquilo que, durante anos, foi considerado impraticável: alinhar políticas, financiamento público, estruturas legais e avaliação de impacto para que soluções que já estão a funcionar no terreno possam ser adaptadas, ampliadas e sustentadas com apoio institucional. Um plano concreto (2025–2028), com estratégia, áreas prioritárias e compromissos multilaterais.
Portugal chega com provas dadas. O mais recente relatório da OCDE, Starting, Scaling and Sustaining Social Innovation, destaca o país como referência internacional na forma como mobiliza fundos europeus para promover inovação social com impacto. A Portugal Inovação Social, iniciativa pública criada em 2014, é citada como um ecossistema pioneiro: mobilizou investimento europeu e nacional, financiou centenas de projetos e testou novos instrumentos como os títulos de impacto social. É um caso exemplar, não por fazer o trabalho do Estado, mas por evidenciar como este pode criar as condições certas para que a inovação social cresça e se consolide. Mas reconhecimento não é destino.
O risco está em manter a inovação social enquanto espaço paralelo, cheio de boas intenções mas fora do centro da decisão política. É fácil celebrar projetos-piloto, o difícil é integrar essa lógica no coração da decisão pública. E, no entanto, é aí que tudo se joga.
O GCSI oferece uma oportunidade rara: pensar o Estado não como obstáculo, mas como infraestrutura de inovação. Isso exige mais do que intenções, exige leis, financiamento estável, quadros técnicos preparados e vontade política para errar, aprender e ajustar.
Portugal tem capital humano, experiência prática e um lugar à mesa global. O que falta agora é estrutura, legal, institucional, orçamental, para que inovar não dependa de ciclos de fundos, mas seja parte do próprio ciclo de governação.
A verdadeira inovação social não acontece nas margens. Acontece quando o sistema escolhe mudar por dentro, e não voltar atrás.
A presença no Luxemburgo foi um sinal importante. Mas o que conta mesmo é o que vamos fazer agora que o governo entrou na sala.
O Observadorassocia-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.